Um jogo de espelhos em Amsterdam de Ian McEwan

12 11 2012

Prinsengracht, Amsterdam, 2009

Mark Christian Soetebier (Holanda, contemporâneo)

Aquarela sobre papel

The Watercolor Gallery

Amsterdam* é um romance centrado em dois personagens, o editor de um jornal, Vernon Halliday e o compositor Clive Linley,  um verdadeiro par de personalidades que se assemelham mais do que imaginamos a principio e cujas reações se complementam, movendo a trama do romance num crescendo cantábile até um final surpreendente.  Apesar de parecerem distintos, com profissões, estados civis e temperamentos diversos, esses dois amigos de longa data se completam.  Conhecemos a dupla, logo na abertura da narrativa, no enterro de Molly, a amante que ambos tiveram em comum.  Daí em diante começamos a compreender as diversas maneiras em que esses homens de meia idade tiveram suas vidas emaranhadas num labirinto de interconexões.

Usando desse artífice Ian McEwan consegue em meras 184 páginas fazer um verdadeiro ensaio na forma de ficção sobre alguns problemas éticos que nos afligem.  A que custo devemos perseguir o sucesso profissional?  Quando a ambição passa dos limites?  Temos direito à censura antecipada? O que separa a vida privada da vida pública?  Testemunhar uma tentativa de crime incorre em obrigações sociais?  A eutanásia pode ser encomendada?  Esses e outros assuntos estão constantemente nos assediando.  Enquanto escrevo essa resenha acompanho no rádio o caso do ex-diretor do CIA que pediu demissão por uma traição amorosa, enquanto o jornal da manhã mostrava a diretoria da BBC embaraçada com os escândalos de pedofilia.  E na semana passada o Congresso brasileiro passou a lei Carolina Dieckmann  de proteção à privacidade de pessoas públicas na internet.  Esses são assuntos de hoje, do dia a dia, que já estavam na pauta de Ian McEwan em 1998, quando esse romance foi publicado.

Toda a tensão nesse romance tem como base o pequeno número de personagens.  Em primeiro plano aparecem as conturbadas emoções manifestadas pelos desejos de Vernon e Clive. É grande a ambição de ambos, que já chegaram ao ápice de suas carreiras e podem olhar para o futuro ocaso de suas vidas com o sentimento de dever cumprido.  Mas a morte de Molly, ainda jovem, os desestabiliza.  São obrigados a incluir em seus horizontes seus próprios fins.  Vemos também se imiscuir entre eles recalques e desejos deixados de lado e agora relembrados nessa amizade.  Em comum eles têm não só a mesma amante mas a traição, já que ambos conheciam e eram amigos do marido de Molly.

Ian McEwan

Esta é uma amizade repleta de inveja, raiva, fidelidade,  ódio, culpa; de uma gama enorme de sentimentos  contraditórios e complementares.  Essas emoções que os unem, inicialmente aparecem em cores brandas, se intensificando à medida que o romance se desenvolve.  Mas é a competitividade entre eles, já existente desde os tempos de Molly, que eventualmente os arma e prova até o último momento o quanto esses dois amigos se assemelham.  Amsterdam é um excelente ensaio sobre as emoções que afligem o ser humano de hoje, homens complexos e destemidos, ambiciosos e egoístas.  É uma janela na alma humana corroída pela liberação de antigas regras éticas.

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* Os dicionários nos dizem que a forma Amsterdam – com a letra “m” no final não existe em português.  O correto seria Amsterdã, no Brasil, ou Amsterdão em Portugal.  Essa grafia é um anglicismo inútil, porque não adiciona nenhuma outra conotação para uma palavra muito bem grafada em português, e fica a pergunta: por que um livro editado no Brasil a usa?  Depois reclamamos que as pessoas não sabem mais escrever … é por essas e outras.


Ações

Information

2 responses

13 11 2012
Marly Bin

Vou ler.

13 11 2012
peregrinacultural

É uma boa pedida!

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