A bicicleta e a mulher, uma história sem palavras

18 11 2012

Cartão postal, circa 1900.

Esta postagem tem tudo a ver com a anterior, quando vimos como a bicicleta foi uma boa contribuição para a independência das mulheres. Vimos também como elas podiam ser mal vistas por terem a audácia de dependenrem desse meio de transporte.  Aqui estão 3 postais que datam dos últimos anos do século XIX, contando uma pequena história sobre essa mulher ciclista.  E de quebra a sequência confirma todos os preconceitos gerados por essa atividade abraçada pelo sexo feminino.  Os postais estão em ordem. O primeiro aí em cima e os outros dois seguem.  Divirtam-se.

Cartão postal, circa 1900.

Cartão Postal, circa 1900.




Bicicletas e independência — um trunfo para as mulheres

18 11 2012


A casa das bicicletas no Bois de Boulougne, 1897-1900

Jean-Georges Béraud (França,1849-1936)

óleo sobre tela

Musée de l’ïle-de-France – Sceaux

Quando usamos as bicicletas raramente pensamos no papel importante que elas tiveram para a emancipação feminina. Fui lembrada desse fenômeno quando li, alguns dias atrás, o artigo na publicação da Universidade da Virginia,  sobre estudos americanos: Xroads . Não se sabe ao certo a data da invenção da bicicleta; foi consequência natural de diversos experimentos com quadriciclos e triciclos que apareceram no início do século XIX.  Só na última década do século, a bicicleta se tornou popular e de uma maneira inesperada alavancou o movimento pelos direitos da mulher.

Anúncio francês, 1900.

A popularidade levou não só homens, mas muitas mulheres às aventuras do ciclismo, que dava uma grande liberdade de movimento. Era a  habilidade das mulheres de se movimentarem por si mesmas, para novos lugares, novos espaços, sem a necessidade de acompanhantes.  Essa autonomia assertiva trouxe como consequência um desequilíbrio nos papéis sociais.  Até então, homens e mulheres tinham papeis circunscritos, rígidos. Mas as barreiras impostas a elas estavam caindo e os homens passaram a fortalecer o estereótipo de portadores de bravura e força.  Como o ciclismo aparecia no horizonte como uma atividade física era natural que fosse adotado pelos homens como parte da constelação de esportes das quais faziam parte o futebol, baseball (nos Estados Unidos) e o críquete na Inglaterra, todos dominados pelo sexo masculino.

Cartão postal anunciando novas bicicletas, Boston, EUA.

“Máquina da liberdade” [freedom machine] foi como Susan B. Anthony, a feminista americana que lutou pelos direitos da mulher, denominou a bicicleta. E dela é também , uma conhecida citação: a bicicleta, “fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”.  Inicialmente adotada pelas elites, logo os modelos de bicicletas apresentaram mais conforto, sendo adotadas pela classe média em geral na América do Norte e na Europa, em meados da década de 1890.  Já na primeira década do século XX a bicicleta havia conquistado seu lugar como meio de transporte e também como forma de recreação. Clubes de ciclismo apareceram em todas as grandes cidades.

Mas antes dessa popularidade, não foram poucos os gritos de imoralidade, quando uma mulher andava de bicicleta. O que mais causava revolta nos homens era a adquirida habilidade de movimento para sexo feminino.  Ajudadas pela produção em massa desse meio de transporte, que cada vez mais se mostrava seguro e prático as mulheres e a classe trabalhadora, ela não se privaram da liberdade adquirida e transformaram a bicicleta no símbolo da Nova Mulher.  Essa Nova Mulher se desvencilhou  das roupas restritivas de movimentos, do espartilho e das saias até o tornozelo, substituindo-as por calças. Bem comportadas, largas nos quadris, apertadas no joelho ou do joelho para baixo, mas calças; chamadas de roupas para ciclismo.  Mesmo assim não foi fácil para mulheres andarem de bicicleta vestidas desta forma.  Muitas foram ridicularizadas, multadas, até mesmo tratadas como mulheres vulgares, sem escrúpulos, como lembra muito bem o artigo.

Cartão postal, c. 1895.

Apesar disso, as mulheres modernas, essas Novas Mulheres, não se deixaram vencer e enfrentaram os preconceitos.  Elas viam o poder que as duas rodas lhes davam e previam um futuro mais equilibrado.  Sabiam que eram vistas como um desafio aos preceitos da época que tratavam as mulheres como seres inferiores.  Não foram poucos os homens que proclamaram que as bicicletas eram uma ameaça à ordem social e à estrutura familiar porque permitiam às mulheres viajar para mais longe do que estavam acostumadas, sem serem vigiadas por seus maridos, irmãos, pais, pelos homens que conheciam os perigos a que elas se expunham. Além, é claro, de permitir que uma jovem pudesse estar na companhia de companhia masculina sem alguém que a acompanhasse.

Em seguida, a lista do que fazer e não fazer na bicicletas.  Texto de 1895 do New York World foi sindicalizado e a foto abaixo mostra o texto no jornal de Chicago.  A lista e o artigo em que me baseio saíram no Brainpickings.  Traduzi um grande número das regras mas houve umas três delas que têm expressões de época não encontradas nos meus dicionários.  Divirtam-se.

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Não se amedronte.

Não desmaie na rua.

Não use um chapéu de homem.

Não use ligas apertadas.

Não se esqueça da bolsa de ferramentas.

Não se deixe levar sem tração é perigoso.

Não se vanglorie de longas viagens.

Não critique as “pernas” dos outros

Não use meias que chamem atenção.

Não recuse assistência quando subindo uma colina.

Não use roupas que não caibam bem em você.

Não use joias enquanto estiver na bicicleta.

Não entre em corridas.

Não use botas com cadarço.

Não imagine que todos estão a observando.

Não vá à igreja vestindo roupas de ciclismo.

Não use o chapéu de festa ao ar livre com suas calças.

Não conteste o fato de que bondes têm preferência.

Não coma goma de mascar.  Exercite suas mandíbulas em casa.

Não use luvas brancas de couro.  Seda é o costume.

Não pergunte, “O que você acha das minhas calças?”

Não use gíria de bicicleta, deixe isso para os rapazes.

Não saia à noite sem a companhia masculina.

Não saia sem agulha, linha e dedal.

Não tente combinar todos os itens de sua vestimenta.

Não deixe seus cabelo louro aparecer nas costas.

Não permita que o lindo cachorrinho a acompanhe.

Não acenda um fósforo no assento de suas calças.

Não converse sobre as calças com os homens que conhece.

Não apareça em public até que você saiba andar bem de bicicleta.

Não se canse, deixe que o ciclismo seja uma recreação e não um trabalho.

Não ignore as leis do trânsito porque você é uma mulher.

Não tente usar as roupas de seu irmão para saber como elas vestem.

Não grite se você der de cara com uma vaca. Se ela a vir primeiro, ela saira do caminho.

Não use tudo que é moderno porque você pode dirigir uma bicicleta.

Não imite a atitude de seu irmão se ele balança a bicicleta paralela ao chão.

Não tente um passeio longo se você não está confiante de que pode fazê-lo com facilidade.

Não dê a aparência de que você está procurando um recorde ou quebrar um recorde. Isso é competição.

Para mais informações visite o portal do Brainpickings, link acima.








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