Quadrinha do coração

9 12 2012

amor, casal, georges-barbier

Oui, 1921,  ilustração Georges Barbier (França 1882-1932).

Coração, ave sem penas,

às penas do amor sujeito,

não sei se vives ou penas

na gaiola do meu peito.

(Athayr Cagnin)





As brasas de Sándor Márai: solilóquio sobre a amizade

9 12 2012

153

Caçadores no bosque, 1880

Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)

Óleo sobre tela, 127 x 170cm

Christie’s Auction House, junho 2009

Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância.  A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação.  Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles.  O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro,  leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio,  ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que  levou ao término da amizade.

Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres,  Henrik  explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa.  A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas.  Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.

as-brasas

No entanto há uma extensa metáfora  nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro.   Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre  empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar.  Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria.  Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações?  E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.

Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa.    Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik.  Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas.   Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.

sandor-marai21

Sándor Márai

Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.

Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad.  Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário,  documento  íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário.  Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois.  Que versão adotar?

As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos.  A considerar as desventuras do ser humano.  É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento.  De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.





Natal, soneto de Lindolfo Gomes

9 12 2012

Ano Novo, s/d

Alexandre Gulyaev (Rússia, 1917-1995)

óleo sobre tela

Natal

Lindolfo Gomes

Nas noites de Natal, da minha infância,

Tinha brinquedos nos meus sapatinhos,

Que um Anjo transformava em doces ninhos,

Iludindo-me à ingênua vigilância.

Do nosso lar na idolatrada estância,

A mesa posta, com iguaria, vinhos…

Minh’alma respirava a sã fragrância

Dessas flores silvestres dos caminhos.

Agora no Natal desta velhice,

Seguindo a vacilar por ínvios trilhos,

Arrasto os sapatões, ao léu do fado…

Mas me revejo em plena meninice,

Ao ver nos sapatinhos de meus filhos

Meus brinquedos, meus sonhos, meu passado…

Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo.  Passou sua juventudo em Resende, no estado do  RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília,entre outros.

Obras:

Folclore e Tradições do Brasil, 1915

Contos Populares Brasileiros, 1918

Nihil novi, 1927





Palavras para lembrar — Joyce Carol Oates

9 12 2012

Alfredo Araujo Santoyo, (Colombia, contemporâneo) A leitora, desenho a carvão sobre papel, 35x27A leitora

Alfredo Araujo Santoyo (Colômbia, 1972)

desenho a carvão sobre papel, 35 x 27 cm

“Ler é a única maneira que temos de deslizar, involuntariamente, quase sem resistência, sob a pele de uma pessoa, usar a voz de um outro, entrar na alma de outrem”.

Joyce Carol Oates








%d blogueiros gostam disto: