A máquina de fazer espanhóis: música aos meus ouvidos

7 01 2013

Brown_Ellen, lendo a Ilha do Tesouro

Lendo a Ilha do Tesouro, 2010

Ellen Brown (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  56 x 71 cm

www.ellencbrown.com

Dois preconceitos acabaram por retardar a minha leitura de A máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe. O primeiro preconceito tem a ver com a falta de letras maiúsculas, uma complicação textual que continuo a achar desnecessária e um tanto marqueteira.  Depois de ver uma entrevista com o autor, na época em que ele veio à FLIP, fiquei convencida de que era isso mesmo que se passava, e deixei o livro de lado. [Folgo em saber que Valter Hugo Mãe já deixou de lado este pequeno e esdrúxulo requisito para suas obras].   O outro preconceito é mais sutil e não menos importante: não me afino muito com leituras cujas narrativas pendem para fluxo de consciência.  Sim, sim, sei que grandes obras da literatura moderna usam desse artífice para narrar, mas é uma questão de escolha pessoal minha, de afinidade.

Dito isso, venho reconhecer que A máquina de fazer espanhóis, que ganhou o prêmio José Saramago, em 2007, é um dos textos mais criativos com que me deparei nos últimos anos.  Ostensivamente o assunto que provoca as ponderações — sobre a vida, o país, a história, o Benfica, futebol, maneira de viver e de morrer e todos os demais questionamentos do dia a dia da vida de qualquer cabeça pensante —  é trazido para a arena de debate interno, do pensamento analítico, por um senhor de oitenta e tantos anos que acaba de ser internado  num asilo para idosos. São poucos os livros que conheço que abordam o assunto da velhice, da memória, da decrepitude, com tanta energia, simpatia e realismo.  Bernice Rubens, autora de um excelente romance sobre o tema — The Waiting Game–  com o qual ganhou o Booker Prize em 1993, tem em comum com Valter Hugo Mãe o fino senso de humor.  Já Leite Derramado, de Chico Buarque , que ganhou o prêmio Jabuti de 2010, que se desenvolve a partir de um tema semelhante, não consegue, a meu ver, narrativa tão sensível e emotiva quanto Valter Hugo Mãe atinge nos seus momentos mais poéticos.

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A máquina de fazer espanhóis se impõe então no universo literário lusófono como uma bela homenagem aos nossos anciãos, onde a tão conhecida melancolia portuguesa é combinada de forma sutil e inesperada com uma boa dose de humor e de realismo. Valter Hugo Mãe  alerta que nem todos os velhos são iguais. E mostra como todos são tratados como se fossem iguais, como crianças.  Nosso mundo vê os velhos como tendo um pouco de poetas, de loucos, de fantasiosos, de irresponsáveis.  A sociedade, a família, os profissionais de assistência social, enfermeiros, todos os tratam como se a caduquice fosse generalizada e talvez até contagiante.  Com essa narrativa somos requisitados a pensar nos velhos que conhecemos: pais, mães, avós, tios.  E temos que admitir que também nos comportamos de maneira análoga. Quantas vezes não nos pegamos em conversa jogada fora, na hora do cafezinho, dizendo que fulano que passou dos 80 ainda está bem, ainda pega ônibus, ainda toma conta de suas contas bancárias, ainda vota.  Como se o normal fosse o contrário; como se a decrepitude se estabelecesse inevitavelmente em todos, a partir de uma certa data.

Surpreendente é a forma poética de apresentar as diferenças entre uns e outros no asilo.  Às vezes é a ternura  que embala certas situações:  “a dona glória do linho parecia um ser delicado, toda candura e menina. tinha uma pouca experiência do amor e não aguentava a timidez de estar a ser cortejada por um garboso doutor em arte antiga. a dona glória do linho tinha estado no quarto do anísio dos olhos de luz e apequenara-se entre as estátuas importantes e bem pintadas que ele guardava. achava ela que estava dentro de um pedaço de museu, assim preciosa e maior do que o tempo de uma vida, porque era um pedaço de coisas que tinham de ficar para sempre como património de toda gente, mais preciosas do que toda gente.”

Surpreendente também é a crítica quando presenciamos a irreverência de quem não tem mais nada a perder: “ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minisaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.

valter hugo mãeValter Hugo Mãe

O jogo entre a lucidez e a fantasia permite que Valter Hugo Mãe se embrenhe por referências políticas, pelos problemas do Portugal moderno, membro da Comunidade Europeia, sem que seu livro se torne um cansativo tratado sócio político.  Pelo contrário, ele ilustra e relata fatos sem radicalismos nem pieguices  doutrinárias.  Seus velhinhos de asilo são ricos de características ímpares que num pulo da imaginação podem se tornar elementos para uma leitura mais alegórica do momento sócio-econômico pelo qual o país passa.  Mas em toda a narrativa o que mais me emocionou foi a língua.  Foi o português, o brincar com as palavras, foram os sons das palavras, a maneira de escrever como se fala, como ouvimos, como a gente da rua se expressa, cheia de poesia embutida nas sílabas cantadas.  Este sim foi, acima de tudo, o meu maior prazer nessa leitura.  Prazer que me fez parar e repetir parágrafos, marcar trechos, ler em voz alta. Mesmo com meu sotaque brasileiro o português cantou com Valter Hugo Mãe. Sim, com ele, a língua canta.





Imagem de leitura — Kikugawa Eizan

7 01 2013

Kikugawa Eizan (1787-1867), Reclining couple reading a love letter, ca. 1804-1818. Color woodblock print, Princeton EDU

Casal recostado lendo uma carta de amor, c. 1804-1818

Kikugawa Eizan ( Japão, 1787-1867)

Xilogravura policromada,

Universidade de Princeton, NJ

Kikugawa Eizan [Kikugawa é o nome de família deste artista japonês] nasceu em 1787. Estudou inicialmente com seu pai, Kikugawa Eiji, pintor no estilo Kano e mestre de leques.  Mais tarde desenvolveu suas técnicas sob a orientação de Suzuki Nanrei, artista no estilo Shijo, e com Totoya Hokkei que estudava Hokusai.  Aos poucos desenvolveu seu próprio estilo figurativo, concentrando-se primeiramente nas belas mulheres, bijin-ga, incorporando aspectos líricos e delicados ao seu trabalho que tipifica o estilo Utamaro. Mas, recusou explorar aspectos realistas, dando ênfase em seu lugar a sensualidade. Mostra sua afinidade com o furyo, na elegância de suas figuras, dando a muitas de suas obras esse título. Além das Bin-ga [mulheres belas] Eizan também se dedicou ao retrato de atores, a paisagens, animais e crianças.  Faleceu em 1867.





Quatro novos livros no vestibular da FUVEST e UNICAMP

7 01 2013

lendo 77Ilustração, Maurício de Sousa.

As novidades para o vestibular do final do ano de 2013 são quatro novos livros. Essa lista é das leituras obrigatórias para o vestibular.  Vejamos:

Novo:

Viagens na minha terra, de Almeida Garrett.  Este livro entra no lugar de  Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, que era pedido no ano passado.

Til, de José de Alencar, entra na lista substituindo Iracema do mesmo autor, na lista anterior.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis toma o lugar de Dom Casmurro, do mesmo autor, que fazia parte da lista passada.

Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade será agora o livro de poesias.  Anteriormente a leitura requerida era Antologia Poética de Vinicius de Moraes.

Continuam na lista:

Memórias de um sargento de milícias de Manuel Antônio de Almeida

O cortiço de Aluísio Azevedo

A cidade e as serras de Eça de Queirós

Vidas secas de Graciliano Ramos

Capitães de areia de Jorge Amado

Gostei das mudanças. Elas trazem maior textura e as obras escolhidas me parecem ter mais diálogo entre si. Perigando ser criticada, gosto mais de Brás Cubas do que de Dom Casmurro.  É uma questão de gosto pessoal.  Ver José de Alencar além do indianismo também acho muito interessante, porque expande o horizonte desse mestre da literatura brasileira. Frequentemente suas obras regionalistas e urbanas são deixadas de lado, mesmo que produzam retratos importantes da sociedade da época. Drummond é um poeta intelectualmente mais complexo, junto com Bandeira — difícil dizer qual é melhor — um dos grandes expoentes da nossa poesia.  Essa troca enriquece as variáveis nas provas do vestibular.  As mudanças parecem apontar para a leitura em contexto histórico-social. Importante será ver o trabalho de Garrett em relação ao Portugal da época.  Cada vez mais olha-se para a literatura fora do cosmos exclusivamente literário, para dar ênfase ao momento histórico da publicação. Drummond certamente está inserido com o livro de poemas de maior relevância política do poeta.  E também será interessante ver as comparações entre os livros da lista. Sabemos por exemplo que Garrett exerceu influência em Machado.  Será apropriado ao ler esses livros manter em mente uma comparação entre os autores.  É começar a ler agora mesmo!  Não há tempo a perder!  Boa sorte a todos.





Quadrinha do amanhecer

7 01 2013

manhã de sol 4Ilustração de Maurício de Sousa.

Quando a noite vai embora,

a aurora vem, de mansinho,

despertando fauna e flora

na mata e no ribeirinho.

(Marcos Medeiros)








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