Centros culturais, sua manutenção, responsabilidade e educação

31 01 2013

João Fahrion-bastidores,1951, ost

Bastidores, 1951

João Fahrion (Brasil, 1898-1970)

óleo sobre tela, 130 x 130cm

Raramente abordo neste blog assuntos do cotidiano. Tenho tentado ser uma ilha de referências  culturais sem ligações à política ou ao dia a dia no país. Mas há ocasiões em que se faz necessário um posicionamento. Tendo a tragédia do incêndio na Boate Kiss, de Santa Maria, RS, como pano de fundo,  descobrimos ao ler o  jornal O Globo desta manhã, que a cidade do Rio de Janeiro tem 49 espaços culturais funcionando que não exibem alvará – ou seja permissão de funcionarem para aqueles fins.  Fiquei pasma.  Esses centros culturais incluem estabelecimentos municipais e estaduais.  Para surpresa de todos são lugares conhecidíssimos e freqüentados por milhares de cariocas e turistas: teatros municipais  [Carlos Gomes, Gonzaguinha, Café Pequeno, Sérgio Porto, Ziembinski, Maria Clara Machado,Teatro do Jockey, Sala Baden Powell, Teatro de Marionetes Carlos Werneck]; teatros estaduais [Artur Azevedo, Mario Lago, Glaucio Gill, Armando Gonzaga]; museus, centros de referência e centros culturais da prefeitura [Memorial Getúlio Vargas, Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, Hélio Oiticica, Laurinda Santos Lobo, Oduvaldo Vianna Filho (Castelinho do Flamengo), Parque das Ruínas, Prof. Dyla Sylvia de Sá, Centro Calouste Gulbenkian]; museus estaduais [Museu do Ingá, Casa de Oliveira Viana, Carmen Miranda, Museu dos Teatros, Casa de Euclides da Cunha, Museu da Imagem e do Som, Escola de Artes Visuais, Casa França-Brasil]; bibliotecas Populares da Prefeitura [Botafogo-Machado de Assis. Campo Grande-Manuel Ignácio da Silva Alvarenga, Ilha do Governador—Euclides da Cunha, Maré – Jorge Amado, Irajá—João do Rio, Jacarepaguá—Cecília Meireles, Santa Teresa – José de Alencar, Tijuca – M. Marques Belo]; bibliotecas estaduais [Niterói]; lonas culturais [Gilberto Gil, Elza Osborne, Sandra de Sá, Renato Russo, Terra, Jacob do Bandolim, Herbert Vianna, João Bosco, Hermeto Pascoal e Carlos Zéfiro]; locais em funcionamento, sem alvará, sem permissão do Corpo de Bombeiros.

Lembrei-me então de uma postagem antiga nesse blog que gerou controvérsia, leva o título Museus nos Estados Unidos Passam por Mudanças, lá defendo que temos centros culturais em demasia no Rio de Janeiro, que não podemos continuar usando a cultura como guarda-chuva de proteção a prédios antigos.  Muitas associações de bairro, com medo de que um construtor compre casa e terreno em área nobre,  e com isso aumente o número de pessoas em bairros selecionados, pedem que casas antigas, algumas delas com valor arquitetônico questionável, sejam transformadas em centro cultural.  É praticamente só nessa hora que nos lembramos da cultura.  Ela serve de mãe generosa, ama de leite, justificativa única, contra empreendimentos imobilários na cidade. Não estou com isso defendendo o crescimento sem controle da área urbana da cidade, mas este deverá ser restringido de outra maneira.

NELITO CAVALCANTI( 1933 - 2008),MPB 538, ast,51 x 60cmMPB 538

Nelito  Cavalcanti (Brasil, 1933-2008)

acrílica sobre tela, 51 x 60 cm

Não se trata só de descaso da prefeitura.  Muita dessa responsabilidade, eu diria até mais da metade, é nossa.  Não só porque continuamos a eleger pessoas que estão mais interessadas em seu próprio benefício do que na sociedade.  Não é isso, unicamente.  É que fechamos os olhos: ” não vou me meter, pra quê?  Está bem assim..” é uma resposta natural, porque reclamar e fazer alguma coisa dá trabalho.  Até escrever este texto dá trabalho, não é copiado, tenho que pensar e sentar aqui e reclamar. Mas a mentalidade de “Para quê arranjar sarna para me coçar?” é generalizada.  E se você reclama muitas vezes é vista como uma pessoa cri-cri, que não tem mais o que fazer, que quer impedir uma excelente causa, que quer colocar freios na cultura, nas ideias dos outros.  Temos uma história imoral com a manutenção nessa cidade.  Manutenção de qualquer bem, público ou privado.   Deixamos que tudo aconteça. O problema é sempre dos outros, de preferência do governo. Se esse não fosse o caso, como então explicar marquises desabando de edifícios em ruas movimentadas, como  aconteceu há cinco anos na  Nossa Sra de Copacabana no Rio?  Janelas despencam de edifícios na cidade.  Sabemos que o desastre do Edifício Liberdade no centro do Rio de Janeiro, poderia ter sido evitado, caso o síndico tivesse feito seu papel. Fato é que fazemos vista grossa.  Todos nós. A sociedade carioca é responsável por esses crimes.  Porque temos que exigir dos nossos síndicos, temos que contribuir com as taxas extras para manter fachadas, manter calçadas, manter as saídas de incêndio abertas, manter os extintores de incêndio com manutenção em dia.  É nosso interesse, não podemos simplesmente dizer que os bombeiros não vieram aqui, portanto não vou fazer nada.  Agora, me digam como pode o Teatro Sérgio Porto, no Humaitá, funcionar sem autorização dos bombeiros há cinco anos?  Como pode o dono de uma boate — uma das casas mais populares de Botafogo,  —  dizer que não tem alvará porque é quase impossível conseguí-lo, quando sua competição tem? De acordo com a prefeitura são 374 boates, casas de shows e casas de festas com alvará de funcionamento ativo na cidade. Como que ele não consegue? Ninguém quer assumir responsabilidade.

VIDAL,Sérgio,Café carioca,2008,ast,120 x 80

Café Carioca, 2008

Sérgio Vidal (Brasil, 1945)

acrílica sobre tela, 120 x 80 cm

A decisão de voltar a discutir o assunto de casas de cultura foi também em solidariedade com os empresários da Lapa que temem uma caça às bruxas.  Acredito que assim como o Patrimônio Histórico pode proteger as fachadas de bairros como a Lapa, poderia também apresentar soluções de como fazer com que essas construções possam ser utizadas para os fins que seus donos desejam.  Não adianta só proibir.  Tem que mostrar como solucionar o problema, que é de todos nós, é a nossa herança cultural.  Não queremos que os edifícios da Lapa se deteriorem, queremos que sejam protegidos mas usáveis.  Quando passeei pela Espanha — e vou usar a Espanha como exemplo, porque fiquei muito impressionada com o trabalho de preservação arquitetônica lá —  vi diversas soluções que poderiam muito bem ser aplicadas a conjuntos arquitetônicos como os da Lapa.  Há de haver vontade de todas as partes envolvidas.  O empresário não é só um monstro, como tende-se a pensar por aqui.  Sem ele muito do que nós consideramos “alma carioca” não existiria.  Não há mal algum em se ganhar dinheiro, em explorar um filão cultural.  Temos sim que ter responsabilidade.  E essa tem que ser de todos nós.  A coisa mais irritante na nossa cidade é pensar que cultura só pode ser fomentada pelo governo, pelo dinheiro público.  Cultura pode e deve ser mantida pelo dinheiro particular.  O dinheiro público deve ser colocado na educação.  Com educação, temos pessoas que consomem e gastam com a cultura.  Sem ela, não temos nada.


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