O intocável, de John Banville: retrato do homem, do espião e de uma era.

3 02 2013

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O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]

Nop Briex (Holanda, 1965)

óleo sobre tela

www.briex.eu

Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt.  Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art.  Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele  foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5  para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado  Cinco de Cambridge [Cambridge Five]  ainda era debatido e questionado.  Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão.  A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta.  Como?  Porque?   Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos  imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico,  tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?

John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico  baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell.   Fazem parte do enredo também  Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’.   Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas.  Este é o estudo profundo de uma personalidade.  Talvez um dos personagens mais tridimensionais  da literatura atual.  É  vívido. Parece real.  A história é sedutora  e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião,  dentro dos parâmetros sociais e de época.

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Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”.  Para uma compreensão mais apurada do texto,  um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também.  Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt.  Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial –  homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso  adicionará uma pitada de interesse.   E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo,  ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período:  Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar),  Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que  Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra.  Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias.  A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em  relação à vida, como Anthony Blunt é retratado.  Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível,  ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.

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No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe?  Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve?  Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.

Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin:  A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto  à  sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa?  O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos.  Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.


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One response

21 10 2015
Luiz Alberto Felix

Pela minha humilde interpretação amadora, a única coisa decente presente na personalidade do personagem Victor foi a extrema lealdade dele para com seus amigos. De resto, era apenas um plebeu bêbado, viciado e orgulhoso, metido a burguês, com vergonha dos seus pais devido às suas origens humildes. O processo de raciocínio dele é extremamente irritante, julgando-se sempre superior, desdenhando aqueles que lhe ofereciam afeto ou gratidão, traindo inescrupulosamente sua esposa e negligenciando seus filhos, e por fim, se justificando com tanta frequência, que eu perdi totalmente o interesse quanto ao que o motivou a “abraçar a causa” antes mesmo da metade do livro. A grande ironia do livro é a de que para contrabalancear a grande lealdade dele para com os seus amigos, teria de haver, na mesma medida, deslealdade dos amigos para com ele. Fechando assim a equação de equilíbrio entre o bem e o mal à qual gira todo o “estoicismo” da história. Só o que me empurrou até o fim do livro foi a minha curiosidade acerca do estado de espírito britânico durante e após a II Guerra. Creio que a qualidade do seu romance é a mesma do seu personagem romancista “Querell” cujos romances vazios e sombrios faziam sucesso entre os ingleses graças a atmosfera da época.

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