Qual é o valor da leitura literária?

6 02 2013

Christophe Vacher ( França) Estudo noturnoEstudo noturno, s/d

Christophe Vacher (França, 1966)

aquarela sobre papel, 23 x 34 cm

www.vacher.com

Uma questão antiga: qual é o valor da literatura para quem a lê?  O que ela faz?  Por que motivo devemos ler romances?  Essas perguntas voltam a ser debatidas no livro How Literature Saved My Life [Como a literatura salvou a minha vida] de David Shields, recentemente resenhado por André Alexis para o The Globe & Mail.  A pergunta central do livro de Davis Shields parece ser: o que acontece conosco quando lemos?  E a tentativa de responder a essa pergunta  uma, duas ou múltiplas vezes, produz a coletânea de pequenos ensaios esmiuçando o papel da literatura na vida do leitor.

André Alexis nota que o livro de Shields  começa com a frase: “Toda crítica é uma forma de autobiografia”, [“All criticism is a form of autobiography.”]. Concordo.  E isso me levou não só a ler o resto da resenha, como a colocar o livro de David Shields na minha lista de desejados.

Mas achei também interessante outras afirmações que aparecem no livro:

A literatura nos permite adquirir uma perspectiva sobre aspectos daquilo que é mais assustador no ser humano.

● A literatura mantem tudo — o que pensamos, queremos, sonhamos, tudo o que amedronta — no ar, em equilíbrio.

Essas questões me levaram a procurar entre minhas anotações, afirmações que ajudam a definir o papel que a literatura tem para o leitor.

Acho bastante pertinente e contemporânea a visão do professor de literatura Santi Tafarella, que no blog Prometheus Unbound, afirma que o que a literatura nos traz de importante:

● Des-familiarização e a linguagem carregada são duas das coisas que encontramos na literatura. [Defamiliarization and charged language: these are two of the things we go to literature for]. Desfamiliarização é a procura e o achado daquilo que não nos é conhecido.  Ou seja, travamos um diálogo com um mundo desconhecido. E linguagem carregada, é aquela em que cada palavra pode ter além dos valores tradicionais e convencionais, aqueles emotivos em que o contexto e as variações trazem nuances ao entendimento que nos enriquecem.

chulovich-marina-v

Sem título

Marina V. Chulovich (Rússia, 1956)

óleo sobre tela

Por outro lado a crença de que a literatura preserva os ideais do ser humano tais como amor, fé, liberdade parece ser generalizado e um conceito que alguns imaginam voltar até o período grego.

O autor inglês C. S. Lewis, é citado como tendo dito que,

● A literatura soma à realidade, não a descreve simplesmente.  Ela enriquece a vida cotidiana e a alimenta; e sobre esse aspecto, ela irriga os desertos em que nossas vidas se transformaram.

E se não me engano Horácio na Arte Poética, diz que:

a literatura une o útil ao agradável: deleita e instrui ao mesmo tempo.

Há muitas maneiras de se ver como e porque devemos dedicar nosso tempo à literatura. Cada um tem uma opinião, cada época vê o papel da literatura na vida do homem de uma maneira diferente.

Você tem uma opinião?  Gostaria de dizer por que a literatura é importante para você?  Que papel ela tem na sua vida?  E que papel ela tem na vida de todos?


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2 responses

9 02 2013
Nanci Sampaio

Querida Ladyce:

Que tema para reflexão e debate! Desde que li seu post [sempre a par dos lançamentos internacionais] e várias resenhas, trechos e o prólogo desse novo livro de David Shields, não penso em outro assunto. Perdoe-me pelo exagero, mas é o tema no qual mais me pego pensando desde então, inclusive enquanto leio literatura – o que não necessariamente me ajuda na elaboração de uma resposta clara: o meu desejo seria escrever algo assim!

Simpatizo com os que enxergam em um livro qualquer, retirado da estante a esmo, seu oráculo. Apesar de achar a ideia encantadora, não é o meu caso. Considero a possibilidade de comparar a ficção a uma viagem, mas tampouco reflete o significado da literatura na minha vida. Como responder e explicar o poder de salvar que essa arte exerce sobre mim? De que perigos, ruínas ou dificuldades, a ficção me afastaria?

David Shields me parece melancólico ao mencionar que na infância preferia observar os meninos de sua idade jogando beisebol a jogar com eles. Atribui a seu comportamento expressões como “distância”, “afastamento das coisas”; “a vida como um murmúrio”… Neste contexto, e transportando o sentimento do ato contemplativo ao gosto pela leitura, me arrisco a imaginar que compartilho desse suposto sacrifício, que é o de deixar de viver a vida, para ler a vida. Por outro lado, tampouco essa dedução me satisfaz, pois é resposta incompleta.

De fato, este tema é vastíssimo e por ora me limito a tentar entender não o poder (ou sua ausência) de transformação que um livro exerce sobre mim, mas o que acontece com minha mente e meu corpo durante uma leitura: pois meu cérebro me permite ocupar apenas uma pequena parcela de atenção ao objeto lido – com o restante, posso ouvir música, pensar em diversos assuntos; enquanto leio, meu corpo se manifesta com risadas, choro, movimentos e até verbalizações, sem que o livro seja o único responsável: a leitura sequer me parece um momento de fuga da realidade, uma vez que a VIDA REAL é composta também por outros mundos (que são de acesso restrito ao seu dono), como é o caso dos sonhos, da consciência, da subconsciência, da imaginação… Assim, acredito que me é possível entender a literatura como um estilo de vida e não um passatempo, já que possuo abertura e interesse por outros mundos internos.

A literatura me é vital! Sei que não leio em busca de serenidade ou alegria. A contrário, tenho de estar serena e concentrada para apreciar um livro, que nem sempre traz temas agradáveis, o que não impede ou diminui o prazer da leitura. Recentemente, José Castello escreveu em uma crônica que não lemos se estamos exasperados e que preferencialmente a leitura exige o silêncio de uma biblioteca, que ele definiu nesse texto como “esse acervo íntimos de sonhos e de relatos e de interrogações, é algo que carregamos dentro de nós.” Sem a pretensão de explicar se a literatura me salvou (da solidão humana?), e pegando o gancho da biblioteca interna, diria que não espero o que o livro pode me acrescentar, mas o que ele tira (ou suscita) de mim.

PS Ladyce, muitíssimo obrigada pela dica de “How literature saved my life”* – – só falta você me falar qual o papel da literatura para você e me informar onde posso conseguir esse livro, depressa :))

11 02 2013
peregrinacultural

Nanci, que bela reação ao tema. Não lhe respondi de imediato por ser Carnaval e as coisas andarem fora de prumo e sem muita paz de espírito.

Tenho pensado nessa questão e acho que a resposta tem que ser múltipla. Não me lembro de ter vivido por muito tempo sem ler. Todos liam na minha família. Ler era uma atividade diária, corriqueira, feita por pai, mãe, avós, tios, etc. Por isso mesmo vejo a literatura como acompanhante de diversas fases de minha vida e em cada uma delas teria tido um papel diferente.

Prometo escrever sobre isso no blog, porque deveria refinar esses pensamentos. Muito obrigada pela belíssima controbuição.

Um grande abraço,

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