Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990





Imagem de leitura — Géza Vörös

13 02 2013

Géza Vörös, na sala1

Na sala, s/d

Géza Vörös (Hungria, 1897-1957)

óleo sobre tela

Geza Vörös nasceu em Nagydobrony, na Hungria em 1897.  Estudou na Academia de Belas Artes de Budapeste. Aos 19 anos expôs seu primeiro trabalho.  Morou em Nagybánya e Szolnok, ambas colônias de arte na Hungria. Foi nesse período que conheceu sua futura esposa, Anna, que se tornou o principal modelo para suas pinturas de figurativas. Fez bastante sucesso com as suas naturezas-mortas e  pinturas de interiores também. Em 1927, foi a Paris, a estudo.  Lá conheceu Matisse que daí por diante exerceu  grande influência sobre ele: veja os contrastes ousados de cores e os detalhes ornamentais. Morreu em Budapeste em 1957.





Montando uma livraria, texto de Penelope Fitzgerald

13 02 2013

BOOKS Got book worm by Camille Engel

Tem traças?

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira,  30 x 30 cm

www.camille-engel.com

“Os livros novos vinham em séries de dezoito, embrulhados em fino papel marrom. Enquanto os separava , eles foram encaixando-se em sua própria hierarquia social. Os pesados e luxuosos livros  sobre casas de campo, os livros sobre as igrejas de Suffolk, as memórias de estadistas, em vários volumes, ocuparam o lugar que era seu por direito de nascimento na vitrine da frente. Outros indispensáveis, mas não aristocráticos, ocupariam as prateleiras do meio. Era o lugar para os Livros do Automóvel – do Austin ai Wolseley –, obras técnicas sobre polimento de seixos, mapas locais e guias.  Entre estes, as populares reminiscências da guerra, com sobrecapa em tons cáqui e vermelho-sangue, encaravam-se como rivais, com eriçada hostilidade. Lá atrás, nas sombras, estavam os Stickers, em grande parte de filosofia e poesia, que ela tinha pouca esperança de chegar a ver o último. Os Stayers – dicionários, livros de referência  etc. – iriam direto para a parte de trás, junto com as Bíblias,  e livros-prêmio que , segundo suas esperanças , a Sra Traill, do Primário, daria de presente aos alunos bem-sucedidos. Finalmente vinham os engradados dos sovados remanescentes da Müller. Uns poucos eram até de segunda mão. Embora ela fosse treinada para nunca olhar dentro dos livros enquanto estivesse trabalhando, abriu dois deles – velhas edições do Everyman, com uma desbotada carta verde-oliva, estampada a ouro. Havia a caprichada guarda, que examinara cheia de perplexidade quando era menina. Um bom livro é a preciosa força vital de um espírito superior, embalsamado e entesourado com o objetivo de uma vida após a vida. Depois de alguma hesitação, ela o colocou entre Religião e Medicina Doméstica.”

Em: A Livraria, Penelope Fitzgerald, Rio de Janeiro, Bertrand Books: 2000, p.44, tradução de Sonia Coutinho.

O texto escolhido para apreciação hoje vem com uma nota sobre traduções. Todos nós cometemos deslizes.  Mas há algumas omissões em se tratando de traduções que às vezes podem modificar ou tirar o charme de uma passagem.  Este é o caso da tradução do inglês para o português desse texto acima.

Aí,  as palavras Stickers e Stayers, usadas no original com letra maiúscula,  para dar idéia das categorias de livros na imaginação da dona da livraria, foram erroneamente mantidas no original em inglês, como se tratassem de nome próprios, de nomes de uma coleção de livros.  Esse é o caso só da palavra mais adiante no mesmo texto, Everyman.  Esta, Everyman, se refere a uma coleção de textos, cuja publicação começou em 1906 com o editor Joseph Malaby Dent e existe até hoje, atualmente publicada também nos Estados Unidos com o mesmo rótulo.  A coleção publicava literatura que poderia ser apreciada por Todos os homens – Everyman – ou melhor ainda que Todos os Homens  devessem ler ou conhecer, nada muito diferente das publicações que de vez em quando aparecem aqui no Brasil, em geral sob o auspício de diários, jornais de boa tiragem.  A Everyman´s Library – Biblioteca do Homem Comum — é e foi, uma instituição na Inglaterra. Seu equivalente nos Estados Unidos é a Harvard Classsics – os Clássicos de Harvard, iniciada em 1909. Os títulos de ambas as coleções, de um lado ou de outro do Atlântico, nunca se esgotam, são publicações que se renovam. A tradutora fez muito bem de deixar Everyman em inglês, por tratar-se de uma marca.

No entanto as palavras Stickers e Stayers, nada têm a ver com marcas, com nomes próprios.  Elas, sim, revelam a maneira de pensar da heroína de Penelope Fitzgerald enquanto decide como organizar a livraria que estava para abrir.  Stickers, do verbo “to stick”, ficar, grudar, ficar encalhado  – que neste contexto são os livros que ficam, ou seja, os  que são raramente vendidos, mas que toda livraria séria precisa ter; enquanto que os Stayers,  do verbo “to stay”, permanecer, são aqueles livros que são o sustentáculo de uma livraria, os dicionários, uma coisa que todas as livrarias precisam ter.

São decisões difíceis essas que tradutores fazem. Nenhuma tradução é perfeita. Cada uma é um novo livro que se assemelha ao original como irmãos univitelinos, que à primeira vista parecem exatamente iguais, mas que com um olhar mais atento mostram suas pequeníssimas diferenças.








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