Palavras para lembrar — Christopher Morley

16 02 2013

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Leitora, 2008

Guy Baron (França, 1946)

Óleo sobre tela, 40 x 80 cm

Guy Baron

“Quando você vende um livro a alguém você não vende só 12 onças de papel, tinta e cola – você lhe vende uma vida completamente nova.”

Christopher Morley





Como escrever um romance, texto de Katherine Pancol

16 02 2013

François Fressineir, Belles_Heures

Ponto alto, s/d

François Fressinier (França, 1968)

Técnica mista com pintura a óleo

www.françoisfressinier.com

“Olhou para o computador, um lindo laptop branco que esperava por ela de goela aberta sobre a mesa da cozinha, cheia de livros, faturas, canetas hidrocor, Bics, folhas de papel, migalhas do café da manhã. Seu olhar deslizou sobre o círculo amarelado deixado pelo bule de chá, a tampa do pote de geléia de damasco, um guardanapo enrolado como uma serpente branca…Precisava abrir espaço para poder escrever e deixar sua tese de habilitação de lado. Precisava de tanta coisa, tanta coisa, suspirou, repentinamente cansada diante da idéia de todo o esforço que teria de fazer. Como escolher o tema de um livro? Como criar os personagens? A história? As reviravoltas? Elas se originam nos acontecimentos exteriores ou na revolução dos personagens? Como começar um capítulo? Como organizá-lo? Devia reler seus trabalhos e pesquisas para evocar as façanhas de Rolland, Guilherme, o Conquistador, Ricardo Coração de Leão, Henrique II, pedir ao espírito de Chrétien de Troyes que baixasse sobre ela? Ou se inspirar em Shirley, Hortense, Iris, Philippe, Antoine e Mylène, vesti-los com um hennin medieval, um par de polainas ou tamancos, instalá-los no campo ou no castelo? O cenário muda, as oscilações do coração perduram. O coração bate, idêntico, em Leonor, Scarlett ou Madonna. As pregas de um vestido, as cotas e malha de ferro se desfazem em poeira, mas os sentimentos permanecem. Por onde começar?, repetia Josephine consigo mesma, observando a intensidade da luz daquele mês de janeiro baixar suavemente sobre a cozinha, iluminar com luz pálida aborda da pia e morrer no escorredor. Existe alguns livro de receitas para escrever? Quinhentos gramas de amor, 350gr de referências históricas, um quilo de suor… deixe cozinhar em fogo brando, em forno quente, mexa para evitar que grude ou forme caroços, deixe repousar três meses, seis meses, um ano. Stendhal, segundo dizem, escreveu o Cartouche de Parma em três semanas, Simenon finalizava seus romances em dez dias. Mas durante quanto tempo eles carregaram essas obras consigo e lhes deram alimento ao levantar de manhã, vestir as calças, beber seu café, recolher correspondência, observar a luz da manhã se espalhando sobre a mesa do café da manhã ou contar os grãos de poeira num raio de sol? Deixar o tempo agir. Encontrar seu modo de usar. Beber café como Balzac. Escrever em pé como Hemingway. Encerrada como Colette, quando Willy a trancafiava. Fazer pesquisa como Zola. Usar ópio, um bom tinto, hachiche. Vociferar como Flaubert. Correr, devagar, dormir. Ou não dormir como Proust. E eu? O tecido encerado da toalha da mesa da cozinha, o face a face com a pia, o bule de chá, o tique-taque do relógio, as migalhas do café da manhã e as prestações a pagar! Léautaud dizia: “escreva como quem escreve uma carta, não  releia; não aprecio a grande literatura só gosto da conversação escrita.” A quem posso enviar uma carta? Não tenho nenhum amante me esperando no parque. Não tenho mais marido. Minha melhor amiga mora no mesmo andar que eu.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.198-199.








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