A visita à escola, texto de Mário Sette

25 03 2013

Escola em 1879, Morgan Weistling, ost,100x150cm

Escola em 1879, s/d

Morgan Weistling (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 100 x 150 cm

www.morganweistling.com

O pano de fundo da semana que passou foi a inépcia do ENEM e de todos os nossos dirigentes quanto ao estado desastroso da educação no país.  Não fugindo a um dos objetivos desse blog (auxiliar a quem se dispõe a melhorar o ensino no Brasil) hoje posto um texto, talvez folclórico, talvez não, escrito por um escritor brasileiro que também se preocupava com a educação.  Além de ser um bom texto escolar, ele lembra aos nossos governantes que um pouco de humildade e de consideração para com o povo brasileiro estão entre as menores das requisições que ainda fazemos deles.  Que visitem as suas escolas e que se lembrem da confiança que depositamos em suas mãos quando os elegemos. A melhoria da nossa educação não é para o futuro, nem para hoje.  É para ontem…

A visita à escola

Mário Sette

Era uma escola humilde de arrabalde: sala ligeiramente caiada, movéis toscos, um desbotado mapa na parede, um crucifixo sobre a banca do professor.

As crianças, filhas de gente humilde, algumas descalças haviam chegado,tomando seus lugares, abrindo os livros, dispondo os cadernos e as canetas.

A manhã nascera ensolarada e bonita.

Pouco depois, o mestre, um senhor esguio, de maneiras calmas, batera palmas como sinal do início dos trabalhos escolares.

Um menino veio dar sua lição de leitura. Outros faziam contas nas pedras.

E, como sempre, o tempo ia passando naquela suave tarefa de aprender, no doce silêncio do arrabalde, raro a raro quebrado pelo pregão de um vendedor de frutas, pelo tropel de um cavalo.

Inesperadamente um carro parou à porta da escola. Aberta a portinhola, desceu primeiro um velho de fardão, e em seguida um homem de sobrecasaca  e cartola, de barba loura, com ares muito simples.

O professor, que o vira pela janela, ergueu-se surpreso, exclamando:

— É Sua Majestade o Imperador!

Sabia, como toda gente, ser Pedro II hóspede de Pernambuco, havia dias; não ignorava que o monarca andava visitando os estabelecimentos de ensino, sempre interessado pelo estudo.  Mas supor que fosse a modesta escola que regia também honrada com aquela visita, isso nunca supusera. Um recanto de subúrbio, tão longe da cidade, tão pobre!

O Imperador, de chapéu na mão, seguido pelo  ministro, entrara na sala, cumprimentara  ao mestre e fizera questão de se sentar ao seu lado, como simples inspetor, a fim de assistir a um pouco da aula.

Mostrava-se atento a tudo e balançava a cabeça, risonho, quando os alunos se saíam bem.

Depois, ele próprio, chamou o menino, perguntou-lhe:

— Qual o rio maior do Brasil?

E a outro:

— Faça-me esta conta de dividir.

Ainda a outro:

— Quais são os mandamento da lei de Deus?

Obtidas respostas certas, o monarca, passeando entre as bancas, examinara os cadernos de exercícios, corrigira uma letra, gabara um cursivo, acarinhara as cabeças das crianças que o olhavam cheias de espanto.

Um rei era assim tão bom e tão amigo dos pobres?! Faziam uma idéia diferente da realeza!

Afinal, o Imperador despediu-se, elogiando o professor,  prometendo-lhe melhoramentos para sua escola.

Ao sair, o professor quis beijar a mão do soberano, em sinal de respeito, mas o Imperador, com ar de bondade, dispensou-o daquela homenagem dizendo-lhe:

— Os mestres é que precisam de que os alunos lhe beijem as mãos.

Em: Encantos Literários: antologia, organizado pela Professora  Deomira Stefani,  São Paulo, Ática: s/d

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Mário Rodrigues Sette (Recife, PE 1886 — 1950) professor, jornalista, contista, cronista e romancista.  Veja: www.mariosette.com.br

Obras:

Ao clarão dos obuses, contos, 1914
Rosas e espinhos, contos, 1918
Senhora de engenho, romance, 1921
A filha de Dona Sinhá, romance, 1923
O vigia da casa grande, romance, 1924
O palanquim dourado,  romance, 1921
Instrução Moral e Cívica, didático, 1926
Sombra de baraúnas, contos,  1927
Contas do Terço, romance, 1928,
A mulher do meu amigo, novela, 1933
João Inácio, novela, 1928
Seu Candinho da farmácia, romance, 1933
Terra pernambucana, didático, 1925
Brasil, minha terra! , didático, 1928)
Velhos azulejos, parábolas escolares, 1924
Os Azevedos do Poço,romance, 1938
A moça do sítio de Yoyô Coelho, contos, s/d
Maxambombas e maracatus, crônicas, 1935
Arruar, crônicas, 1948
Anquinhas de Bernardas, 1940
Barcas de vapor, 1945
Onde os avós passaram, s/d
Memórias íntimas,s/d


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