Tal mãe, tal filha?

3 07 2013

Cassatt_Mary_The_Bath_1891-92

Banho infantil, 1893

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

Óleo sobre tela, 100 x 66 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

Há datas que são indeléveis para cada um de nós.  O aniversário de minha mãe é uma delas, para mim.  Hoje ela faria 88 anos.   E é só agora, 6 anos após sua morte que começo a vê-la no espelho que me reflete pela manhã.  Sempre fomos muito diferentes, minha mãe e eu.  Física e emocionalmente.  Dois dias antes de seu falecimento, e após viver comigo e com meu marido pelos últimos cinco anos em que lutava contra doença incurável, minha mãe, num gesto de boa vontade, nos chamou para dizer: “sim, eu poderia ter vivido com vocês.”   Como se  até então não o tivesse feito.  Era uma admissão final de que havíamos encontrado uma área comum, uma faixa em que nossos comportamentos, por mais divergentes que fossem, haviam se mesclado e atingido uma zona de conforto.  Eu me surpreendi. Para mim nunca houve qualquer resistência em ter minha mãe comigo, muito pelo contrário, sempre gostei de sua companhia.  Era uma mulher inteligente, informada, sensível.  Só não aprovava grande parte do meu comportamento.  E porque saí de casa muito cedo, para ela, eu provavelmente parecia mais estranha do que realmente era.  Mesmo que tivesse vindo visitá-la nos últimos 20 anos antes do meu retorno oficial ao Brasil, por um mês, uma ou duas vezes por ano.  Ter morado no exterior e adquirido hábitos mais estrangeiros do que brasileiros certamente contribuiu para que ela sentisse um estranhamento que não era recíproco.

Enquanto ela era muito linda, com cabelos naturalmente negro-azulados, olhos verdes com uma estrela amarelo-dourada dentro deles e a pele branco-leite, um tipo comum na Europa do norte, principalmente na Irlanda; eu nasci de cabelos vermelhos cor de cenoura que, depois de caírem, viraram louros e mais tarde louro-escuro bem cor de chumbo; olhos azuis, pele muito clara,  mais para o dourado.   Enquanto nela, as cores lilás e tons frios de azul e rosa caíam bem; em  mim essas mesmas cores tornavam a pele amarelada; só os tons de terra, o verde-musgo, os beges, coral e marrons coloriam favoravelmente.  E, no entanto, hoje ao acordar e me olhar no espelho, com freqüência vejo minha mãe refletida,  a olhar-me de volta.  Temos algo em comum,  a idade anda nos fazendo semelhantes. O cabelo de repente é igual ao corte que ela usava?  Ou será que é a maneira como as rugas aparecem em volta dos olhos?  Temos a mesma boca, isso é verdade, larga, pronta para o riso, nós duas ríamos com facilidade. É de família.  Mamãe era mignon, ombros pequenos, mãos alongadas como as de sua mãe, unhas ovaladas.  Eu tenho as mãos de papai, largas e quadradas, ombros largos; e não demonstro fragilidade.  E, no entanto, sou eu a “manteiga derretida”, cujas lágrimas são incontroláveis quando me machucam emocionalmente. À moda inglesa, — que ela não era – mamãe conseguia manter o famoso “stiff upper lip” que me escapa.  Nas dores físicas fomos semelhantes, duras e sem choros.  Não sou ciumenta; não escondo o jogo; detesto manipulação emocional.  Não me incomodo com o que os outros pensam de mim; não faço grandes sacrifícios pela vaidade; não tenho medo de médico, de dentista e nunca vou a eles acompanhada.

???????????????????????????????Nós duas, Praia do Flamengo, Rio de Janeiro

Mamãe contava uma história que leu quando era criança na Revista Tico-tico.  Era sobre um menino pobre que vivia no andar térreo de um edifício e que tinha por vizinho de cima um menino rico.  Da janela o menino pobre via os papéis de bala coloridos que o menino rico jogava fora e para não se sentir mal, o menino pobre imaginava os papéis de bala serem borboletas, que voavam coloridas pelo jardim.  Essa historieta infantil descreve as diferenças entre mãe e filha.  Mamãe era uma sonhadora.  Seus pés finos e pequeninos  a mantinham levemente presa ao chão; eu por outro lado provavelmente teria colecionado os papéis coloridos do menino do andar de cima.  Tenho os pés quadrados, largos, romanos, que fazem meus sonhos serem bastante atados à realidade que me cerca.   Sou aventureira, flor selvagem, rústica; mamãe era flor de estufa, delicada e caprichosa.

Mas então o que herdei dela para que a veja a me olhar do outro lado do espelho?  Dela, herdei  a sensibilidade para as artes visuais; a curiosidade, a necessidade de estar em dia com as notícias;  herdei também a facilidade para línguas, a necessidade de viver em um ambiente belo e confortável; a  impaciência, o humor quase apalhaçado e a dificuldade de lidar com bebês.  Nós duas sempre preferimos as crianças quando elas já sabem falar.  E, no entanto, há horas em que sinto que um gesto meu é um eco dela; que uma observação que faço, ela teria feito; que o modo como ando na rua reflete o andar dela.  É,  por mais diferentes que tenhamos sido, a semente não cai nunca muito longe da árvore.  Feliz aniversário minha mãe.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2013.


Ações

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23 responses

3 07 2013
Elis Meira

Parabéns para as duas. As relações entre mãe e filha são dignas de tanta reflexão e são tão curiosas. É engraçado como muitas vezes, algumas características ou comportamentos das mães que insistimos em evitar se replicam em nós.

3 07 2013
peregrinacultural

Obrigada Elis, você tem razão essas relações são únicas! E tão cheias de emoções! Orbigada pela gentileza do comentário, um abraço, Ladyce

3 07 2013
Vera Camara

Ladyce querida!
Gostaria de ter sido sua mãe por um instante: o tempo necessário para receber tão delicada homenagem! Fiquei muito comovida e, certa de que não há inspiração melhor que a emoção genuína. Mal posso esperar pelos próximos capítulos! bjs

3 07 2013
peregrinacultural

Vera, você tem sido uma mãe tão espetacular que certamente um dia receberá uma homenagem ainda melhor de seus filhos! Beijinhos,

3 07 2013
Marilda Romani

Ladyce, me encontrei em muitas partes do seu texto. Herdei da minha mãe, também tão diferente de mim, a paixão pela poesia, pela leitura. Também me vejo reprisando gestos, falas e até a risada agora é mais parecida com a dela. A imortalidade deve residir nisso, nessa repetição de comportamentos, maneiras de ser e de encarar a vida, tão naturais e inatas que às vezes não atinamos no quanto agimos iguais a elas. Belo texto, parabéns à árvore e à semente.

3 07 2013
peregrinacultural

Marilda, você sempre tão gentil e precisa nas suas observações… Obrigada. Acho que não é incomum. Às vezes acho que Harry lembra o pai dele… A primeira vez que me peguei agindo como minha mãe, foi educando Douglas, eu me lembrava dela falando as mesmas coisas que eu, mesmo que numa língua diferente! Mas pensei, na época que fosse algo só daquela fase, que eu estava repetindo a educação que havia recebido. Mas, vejo que esse traço se repete e provavelmente se repetiu muitas outras vezes em que eu não percebi. Muito obrigada pela resposta e pela sugestão que você me deixou no Facebook. Beijinhos,

3 07 2013
Romulo

Linda homenagem. Bjs.

3 07 2013
peregrinacultural

Obrigada! bj

3 07 2013
musicaefantasia

Parabéns pela sensibilidade. E parabéns pela elegância mesmo no falar de coisas muito pessoais e, eventualmente, sofridas. Isto que se chamava de aplomb, não ?

4 07 2013
peregrinacultural

Obrigada pela leitura sensível das entrelinhas. Nem todos percebem. Não me surpreende vindo de quem faz as suas postagens. Ladyce

4 07 2013
musicaefantasia

Olá ! Somos um grupo de amigos. Cada um deles (eu inclusive) vai achar que o elogio é exclusivo a ele. 😎

4 07 2013
peregrinacultural

Que bom! One size fits all!

4 07 2013
musicaefantasia

Um elogio agrada a todas vaidades. 😎

3 07 2013
Myriam

Que texto lindo! Em alguns momentos,é também a minha história com a minha mãe.

4 07 2013
peregrinacultural

Myriam, obrigada pela leitura. Esses relações são às vezes muito delicadas e é importante vermos que há pessoas que têm experiências semelhantes no todo ou em parte. um beijinho,

6 07 2013
Bárbara

Lindo texto, emocionante. Concordo com esta frase de fim, ” A semente nunca cai muito longe da árvore “. Acho que todos temos traços de nosso pais, pois mais tarde que eles nos apareçam.

7 07 2013
peregrinacultural

Obrigada pelo comentário. Ocasionalmente posto um comentário mais pessoal. Por uma dessas coincidências, me encontro hoje responsável pela memória da família, isso tem-me ajudado a falar sobre ela de maneira ensaística. Muito obrigada pelas palavras carinhosas. Ladyce

8 07 2013
Eduardo Pereira

Ladyce,

Achei a sua reflexão sensível e sofisticada. Não sei se conseguiria escrever algo tão revelador.Os detalhes revelam amor, assim penso eu. Também penso na minha mãe. Está viva, mas sofre com a idade, mas tem meu pai e mais três irmãos além de mim. Minha namorada mora em Brasília e eu em São Paulo. Já decidi vender nosso apartamento e me mudar para a capital federal para casar-me com ela. Minha mãe e minha irmã são ciumentas, mas preciso ser feliz. Quando tomei a minha decisão de sair do meu estado para viver ao lado da mulher que me faz o mais feliz dos homens, lembrei-me de uma crônica que li numa edição antiga da Revista Seleções ( como caiu de qualidade essa revista!!!….). A crônica, era um relato de um homem que viajava de carro com sua esposa durante a noite, para ir ao funeral da sua mãe que morava longe. A Minha Linda ( futura esposa ) , me disse que não gostaria que fosse assim comigo, mas eu disse a ela que é a ordem natural das coisas, mas mesmo assim, peço a Deus longa vida para minha mãe, para que possa ver que estou feliz, e que a seu tempo, possa se encontrar com Deus, pois foi ela quem me deu a Fé.

Abraço.

Eduardo.

8 07 2013
peregrinacultural

Eduardo, que prazer tê-lo de volta aqui com um comentário tão significativo. Obrigada. Que belo sentimento você tem por sua mãe, cheio de carinho e amor. Há sempre consequências nascidas das escolhas que fazemos: ganha-se de um lado, perde-se do outro. Acho que a arte está em saber qual decisão trará satisfação emocional. Nem sempre acertamos, mas é preciso tentar. Nossos pais nos educam e nos ajudam a crescer, até o dia em que sozinhos saímos do ninho voando. Inicialmente sob o olhar cauteloso deles, depois por conta própria iremos nos aventurar e fazer nossos próprios ninhos. Realmente é a ordem natural das coisas. Nem sempre os lugares que encontramos para fazer nossos ninhos, crescer a família, está próximo do local de origem, mas isso não significa distanciamento emocional. É importante irmos atrás dos nossos sonhos, da nossa felicidade. Boa sorte para você e sua noiva. Um grande abraço e mande notícias, por favor! Ladyce

17 07 2013
Maria Helena Oswaldo Cruz

Já escrevi e minhas palavras se perderam no espaço virtual. Vou mandar um e-mail. Esta resposta está sendo um teste e só posso dizer agora que foi muito bonito o q. vc. escreveu.

27 01 2014
Maria Helena Oswaldo Cruz

Ladyce querida,
Não sei se vc. recebeu meu e-mail. Meu computador esteve até no CTI. Agora renovado, volto a ler seu lindo e comovente texto sobre sua mãe. Acho que a gente vai assimilando seus gestos, olhares, expressões verbais e absorvendo inconsciente e geneticamente o ser humano q. elas foram. numa estranha e misteriosa simbiose! e a eternidade é a continuação de tudo isso. Para ter uma filha como você, a gente sabe que ela foi uma pessoa excepcional e nós estendemos à ela o nosso carinho e admiração.
Bjs. da Lenah

29 08 2015
Maria Helena Oswaldo Cruz

Texto emocionante que sintetiza maravilhosamente a sua relação com a sua mãe, com quem você se parece muito, considerando as pequenas diferenças de tom de pele e cabelos. Havia muito amor nessa relação, para ela difícil de compreender com o seu desprendimento e a liberdade de escolha feita por você em viver em outro país! Mto lindo. Bjs.

8 05 2016
Letícia Alves

Lindo texto! Se amo você minha amiga, amaria facilmente sua mãe. Beijos e abraços carinhosos! Saudades!

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