As fases da vida: “O verão sem homens” de Siri Hustvedt

17 07 2013

602px-Gustav_Klimt_020As três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1918 )

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna, Roma

Há uma fase em que a maioria das mulheres se encontra na difícil posição de Mia Fredrickson, personagem principal em O verão sem homens: presa entre pais octogenários e filhos adolescentes ou jovens adultos, todos requerendo atenção.  Além disso,  essas mulheres precisam  gerenciar suas carreiras, lidar com as mudanças físicas da menopausa.  Dúvidas sobre a própria sensualidade pós-climatério são muitas vezes acentuadas pelo conformismo de um longo casamento, onde o parceiro já nem sempre está atento, carinhoso ou interessado.  O terreno é fértil para qualquer novelista e em grande parte, Siri Hustvedt consegue explorar bem os diversos aspectos dessa fase.

Sua estratégia foi colocar Mia Fredrickson, personagem principal do romance, poeta laureada e professora, abandonada pelo marido depois de 30 anos de casados, rodeada de mulheres nas mais diversas fases da vida, por um verão.  Para se restabelecer do choque da separação Mia aluga uma casa numa pequena cidade onde sua mãe mora num asilo para idosos e arranja um  trabalho de verão, dando aulas de poesia para um grupo de adolescentes.  Sua única amizade fora este círculo é com a vizinha, mãe de dois filhos pequenos, entre eles uma adorável menina.  Um arranjo perfeito:  todas as fases mais importantes na vida de uma mulher representadas.  Ótima idéia.  Da menina sonhadora  de poucos anos,  filha da vizinha ao grupo de adolescentes sensíveis e maldosas ;  da filha de Mia começando uma carreira artística à  vizinha, mulher m fase reprodutora, casada; da poeta já na menopausa e à mãe no final da vida, todas as fases da vida de uma mulher estão  representadas e dialogam entre si.   Como o título sugere este é um livro sem homens, ainda que muito aconteça por causa das ações dos homens vislumbrados.  Digo vislumbrados porque são representados sem profundidade, quase caricaturalmente.

O_VERAO_SEM_HOMENS_1370368538P

Sarcástica, mordaz no humor, Siri Hustvedt tem momentos brilhantes na narrativa.  E confesso que li ávida e com muito prazer os primeiros dois terços do livro.  Mas Mia Fredrickson não cativa como personagem.  Lá pelas tantas não me interessava mais o que aconteceria com ela.  Foi aí que percebi que muito mais importante do que uma história bem  contada, para a autora, o que  importou foram as teorias sobre o comportamento feminino nas diversas etapas da vida, examinadas com frieza intelectual.

Há momentos de grande sensibilidade e clareza, principalmente as precisas observações sobre o envelhecer.  Mas  tanto o grupo de adolescentes quanto o grupo de senhoras do asilo são caracterizadas de maneira simplista e é difícil de mantê-las separadas.  Sabemos os nomes de todas, mas seus perfis não se salientam o suficiente para se tornarem  personagens fora do grupo.  O texto é intercalado também de  muitas citações literárias.  Relevantes.  E há também diversas formas narrativas, inclusive, a de direcionar observações ao “Caro Leitor”, que nem sempre deixa o texto correr imune à interferência.  Aos poucos a Siri Hutsvedt, intelectual analítica, aparece demais, deixando de lado a voz narrativa da romancista.  Mas há, nesse pequeno livro, uma interessante descrição sobre diferenças entre os sexos, além da menção de diversos estudos científicos.  Isso, no entanto, enfraquece o impacto do texto.

SiriHustvedt-small6Siri Hutsvedt

Híbrido, nem romance,  nem ensaio.  O resultado é a combinação de uma tese sobre a condição feminina e um romance: nem um nem outro totalmente.  Se ensaio peca pela ficção e pela abundância de personagens.  Se romance peca pelo distanciamento intelectual, pelas inúmeras citações científicas e literárias. Acaba afetado e artificial, quase pretensioso.  O que o salva o texto são o humor de algumas passagens, e a série de citações de artigos científicos que suportam o texto, que é de um  feminismo, suave, de terceira geração, que se apoia nas diferenças de comportamento entre os sexos.   Apesar disso é uma história de leitura leve, perfeita para um verão na praia, com ou sem homens.


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2 responses

17 07 2013
algosolido

Boa tarde Ladyce,

Gostaria que pudesse citar algumas passagens do livro que você gostou. Não sei se lembra, eu fiz um comentário, no seu texto “Preoonceitos e wikipedia”, e com isso, você saberá o que eu acharia interessante. O que é feminismo de terceira geração ? Pretendo em breve, escrever sobre machismo e feminsmo, e já deixei claro que repudio os dois. Não é saudável esse olhar que vê o homem como vilão e causa do sofrimento da mulher, embora ISSO OCORRA E SEMPRE OCORREU COM UMA FREQUÊNCIA GIGANTESCA. Acontece, que tudo isso é mostrado sobre uma ótica sentimental. Da parte do homem, um sentimento dominado pela promiscuidade, e da parte da mulher, um sentimento dominado pelo ódio e desejo de vingança. Quando puder me dedicar mais à escrita, quero fazer um trabalho e prol da família, trilhando o caminho mais difícil: Não elegendo vilões. Sou contra a cultura de que “mulher é tudo….” e “homem não presta”. Parabéns pelos seus textos. São de um equilíbrio incomum… ( em tempo: minha noiva leu a sua resposta ao meu comentário do texto em que fala da sua mãe e gostou muito…) MAIS UMA: Eu comentei brevemente na última vez que escrevi sobre a Revista Seleções – que gostava muito e hoje caiu imensamente a sua qualidade ( aquelas reportagens sobre dietas e execicios fisicos para depois dos 40….ora,. não precisamos de uma “Seleções”, para isso….kkkk ). Já escreveu sobre essa revista aqui ? Abraços…

Eduardo

17 07 2013
peregrinacultural

Obrigada pelo comentário Eduardo.

Gostei de muitos aspectos do romance, principalmente das ironias. Vou lhe dar um exemplo: Boris, marido de Mia, casado com ela há 30 anos, se enrabicha por uma francesa e diz para a Mia, que acha que o casamento deles merecia uma pausa. Mia, como se pode imaginar, não gosta. Fica ferida. Nunca sabemos o nome da francesa, porque daí por diante ela é referida como Pausa. Esse é um pequenino detalhe, de uma “vingança” quase infantil que muitas vezes torna-se engraçadíssimo por causa da maneira em que a palavra Pausa é usada.

Há uma senhora no asilo, amiga da mãe de Mia, que borda. Faz belíssimos bordados. Sempre os fez. E tem muito prazer de mostrá-los à Mia. Essa senhora que não me lembro da idade exata, mas deve estar beirando os 90 anos, borda, no lado do avesso, cenas picantes que nada têm a ver com os bordados bem-comportados que todos vêem. É uma maneira gentil e engraçada de ver a rebeldia dessa senhora sobre todos os comportamentos esperados de uma mulher.

O romance é muito cheio dessas pequenas ironias, que fazem a leitura suscitar o bom humor do leitor.
Quanto ao feminismo de terceira geração, é o feminismo dos anos 90. Nele aceita-se que há diferenças pertinentes entre homens e mulheres e aceita-se também um maior divergência em como o feminismo pode ser expressado, sem se ater aos rígidos modelos do inicio do movimento.

Siri Hustvedt oferece uma boa coleção de referências sobre o estudo das diferenças entre homens e mulheres . Vale a pena passar olhos sobre o assunto. Talvez valha a pena saber, que ninguém fica sem homem depois do verão. Pausa e Boris não dão certo e a grande dúvida é se Mia o aceitará de volta [solucionado no último parágrafo]; o casamento da vizinha que parecia periclitante também continua vivo ao final do livro.

Um grande abraço, e vá em frente com o livro que você quer escrever. Nenhuma hora melhor do que o AGORA. Mande um beijinho para sua noiva,

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