A realidade supera a imaginação: “A vida não é justa” de Andréa Pachá

7 08 2013

gaudi_mainFachada da Casa Batlló, construída em 1875-1877

Reformada por Gaudí entre 1904-1906

Antoni Gaudí (Espanha, 1852-1926)

43 Paseo de Grácia, Barcelona, Espanha

No Ano Novo, uma decisão que parecia pequena e inconsequente: ler mais não-ficção durante o ano acabou sendo, de todas as decisões que tomei e que ainda espero cumprir, a que mais tem-me agradado e já penso em repeti-la, porque há momentos, como da leitura de A vida não é justa de Andréa Pachá, juíza da 1ª Vara de Família de Petrópolis, em que o contato com o mundo real, além da ficção, tornou-se muito prazeroso.

Neste pequeno livro de vinhetas  jurídicas, vemos a crônica do dia a dia brasileiro e com ela delineia-se um retrato da criatividade nativa quando a tarefa é encarar os tropeços da vida. A narradora, a juíza, tem um toque suave na linguagem, acarinhado por humor comedido e afável no relato dessas fatias de vida real.  Mas acima de tudo Andréa Pachá tem compaixão.  E por causa disso, muitos dos casos, que, de outra feita, poderíamos ignorar passando os olhos superficialmente, tornam-se pontos de apoio para a reavaliação da nossa gente,  do nosso sistema de valores, da nossa brasilidade.  Estamos a nos olhar no espelho.  E a surpresa é boa, muito melhor do que o esperado.

a_vida_nao_e_justa_-_capa_frente_1

Depois dessa leitura parece que a realidade é mais fantasiosa do que a imaginação dos romancistas. No entanto, o escritor, qualquer escritor de ficção, é uma só pessoa e tem como limite sua experiência. Na leitura dessa coleção de crônicas, com cada página virada, vemos uma miríade de comportamentos que retratam variadas narrativas de vida; uma pluralidade de soluções, por vezes desencontradas, mas vividas por personagens reais, cada  qual  interpretando a vida com seu próprio vernáculo.O resultado final para o leitor é ser testemunha, junto com Andréa Pachá, da imensa riqueza do comportamento humano, além da profunda solidão encontrada no âmago de todos nós.

andrea_pachaAndréa Pachá

A metáfora que encontrei para descrever o resultado da leitura foram as fachadas dos prédios do arquiteto espanhol Antoni Gaudí, cuja Casa Batlló ilustro acima.  Formadas por mosaicos de objetos nem sempre belos (garrafas, cacos de vidro, cacos de cerâmicas, canecas, pratos de louça do diário) essas fachadas tornam-se padrões de beleza universal quando assimiladas, em conjunto, e superpostas de maneira estética.  Assim também vi a nossa gente, o nosso  povo retratado por Pachá. Nem sempre tomadas individualmente essas pessoas são belas, por dentro. Mas cada qual com sua maneira de viver, de sofrer, exerce a atividade mais cara que nos é dada, a liberdade de interpretação da vida: pode ser a mulher que por seguir os preceitos de sua nova fé não se aninha mais na cama do marido, ou o amigo de uma mãe solteira que adota o filho dela como seu, sem compromisso matrimonial. As razões e as soluções são inesperadas, às vezes deselegantes, frequentemente inacreditáveis, mas o resultado no todo é belíssimo. Triste. Mas belo. E me deu o que às vezes tem-me faltado: confiança no ser humano. Fé em um futuro melhor. Imprevisível, mas provavelmente melhor.


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2 responses

7 08 2013
Marilda Romani

Ladyce, uns poucos possuem a estranha mania de ter fé na vida e a esses é dada a dor e a delícia de ser o que são.

7 08 2013
peregrinacultural

Marilda você tem razão. Que bela observação. Obrigada!

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