O que é um sucesso editorial no Brasil?

9 08 2013

Yan-Nascimbene-19 Yan Nascimbene

Ilustração Yan Nascimbene.

Nesta semana o jornal gaúcho Zero Hora publicou duas matérias de interesse para quem se preocupa com a baixa taxa de leitura no Brasil.  O foco de ambas as publicações foi o número de volumes impressos por título.  Nos grandes centros do Brasil, parece que a leitura anda aumentando.  Cá pela zona sul do Rio de Janeiro, ir a uma livraria no fim de semana é ocasião certa de encontrar dezenas de pessoas se acotovelando, como se livros estivessem sendo distribuídos gratuitamente.  Além disso, podemos ter a certeza de encontrar casualmente vizinhos, amigos, colegas de trabalho que, sem combinação prévia, acabam emendando a compra de um livro em um bate-papo informal no café da livraria ou no café mais próximo.  Quer a livraria fique num shopping ou tenha portas abertas para a rua, o burburinho no local é de aquecer o coração de quem se preocupa com a educação brasileira.

Mas observando o número de exemplares publicados nas nossas edições de sucesso, os números parecem ridiculamente pequenos para o tamanho da nossa população.  As maiores tiragens de livros no país são de 600.000 – seiscentos mil – volumes.  Nesse nicho ficam os autores de grandes vendas internacionais como a trilogia iniciada com o volume 50 tons de cinza de E. L. James. O último volume da trilogia, 50 tons de liberdade, já saiu com mais de 500.000 – quinhentos mil —  exemplares impressos. Parece muito não é mesmo?  Mas somos 197.000.000  — cento e noventa e sete milhões – 600.000 exemplares são equivalentes a  ⅓ de 1%.  Parece insignificante.  E essa é a maior tiragem de um livro no Brasil.  Triste.

adam_pekalski menino dragãoIlustração Adam Pekalski.

Grandes sucessos editoriais de autores brasileiros têm ainda menores tiragens.  Aqui focamos nos brasileiros. Os dois títulos de maior tiragem são elevados pelas religiões em que se firmam.

Ágape, do padre Marcelo Rossi – 500.000

Casamento blindado de Cristiane e Ricardo Cardoso – filha e genro do Bispo Edir Macedo – 230.000

Só depois é que encontramos o mega-seller Laurentino Gomes.

1889 – tem edição de 200.000

Seguido por:

Manuscrito encontrado em Accra de Paulo Coelho  — 100.000

Luís Fernando Veríssimo – novo título ainda não divulgado – sairá com 100.000 também

Carcereiros de Dráuzio Varella – 80.000

Guia politicamente incorreto da filosofia – Luís Felipe Pondé – 50.000

A graça da coisa de Martha Medeiros – 50.000

Mas há também o que poderíamos chamar de círculo vicioso.  De acordo com o Consultor Editorial Carlos Carrenho, as tiragens grandes não refletem só a expectativa das editoras.  As livrarias também preferem os livros com maior tiragem.  De acordo com ele “A primeira coisa que as livrarias perguntam é qual a tiragem inicial. Usam a informação para avaliar o tamanho da aposta naquele título.”

Assim fica difícil quebrar barreiras.  Se as livrarias não estão interessadas em tiragens menores, como pode o autor aumentar as suas vendas até que consiga um número razoável em volume de venda?  Porque diferente de outros países as nossas editoras não se dedicam a promover os títulos que publicam.  Comparo com os Estados Unidos, onde morei por muitos anos, e não vejo por aqui a dedicação que as editoras de lá dão ao promover os livros que publicam.  É claro que lá também se pede muito dos escritores.  Eles viajam de uma costa a outra do país dando entrevistas e se encontrando com leitores em livrarias, cafés, grupos de leitura, exaustivamente.  Isso não vejo acontecer por aqui fora do eixo Rio-São Paulo.  Ocasionalmente sim, mas não regularmente.

Temos ainda muito o que fazer no Brasil.

FONTES:

Saiba quais são os livros de maior tiragem no Brasil

Tiragens iniciais gigantescas de livros indicam tendências de mercado e estratégia de vendas


Ações

Information

11 responses

9 08 2013
AntimidiaBlog

Republicou isso em reblogador.

9 08 2013
Regina

É cruel Ladyce, Existe razão técnica pra esse comportamento das editoras mas dificulta muito a ascensão de um outro livro à lista dos já mais vendidos. Mantém o ciclo vicioso.

9 08 2013
peregrinacultural

Pois é, Regina. E com a distribuição ruim (melhorou depois da internet) não há como deixar que as pessoas de outras cidades, menores, mais interioranas, cheguem a ter um contato com escritores ou autores de livros. Nada voa pra frente.

Tenho alguns amigos escritores que têm bons livros publicados e que reclamam da falta de atenção que as editoras lhes dão, sem nem darem uma precisão do número de livros vendidos. É uma falta de profissionalismo total. Há horas como hoje de manhã quando descobri pelo GLOBO que os brasileiros dedicam 6 minutos do dia à leitura, e quando me deparo na mesma manhã com essas notícias do Zero Hora, que me dá uma tremenda desolação, depressão e desânimo quando imagino o futuro da nossa cultura. Os brasileiros estão sendo roubados de sua cultura e não sabem; não têm conhecimento suficiente para saber.

E sinceramente não vai ser com essas revoltas de rua que as coisas vão melhorar, porque estão mostrando que serão tão autocráticos quanto ditadores. Estou muito sem paciência com o Brasil.

9 08 2013
Brunodsl

É triste pensar quão poucas pessoas tem o hábito de ler se comparado ao total da população. Eu realmente acreditava que os números eram maiores.

9 08 2013
peregrinacultural

Bruno somos a minoria de uma minoria. Ou seja a minoria daqueles que já têm conhecimento suficiente para poderem ou quererem ler. É uma penosa realidade, e não tenho ideias de como solucionar este problema. Porque é um problema. Reclamamos que a cultura americana domina, que os escritores ingleses (J.K. Rowlings) estão dando valores que não os brasileiros aos nossos leitores, etc. Mas desse jeito estaremos para sempre na posição de colônia cultural. Hoje dos EUA ou da Inglaterra. Já fomos da França. Você tem alguma ideia de como melhorar essa percentagem de leitura? Obrigada pelo comentário,

11 08 2013
Brunodsl

Acredito que as escolas devem trazer prazer na leitura para as crianças o quanto antes. Mostrar o mundo da leitura não deveria ser obriga-las a ler um livro padrão – como é feito, mais tarde também com obras clássicas dificílimas de digerir – mas a incentivar a descoberta de algum livro que elas gostem e com isso partilhar com os outros, mesmo nas séries mais avançadas.

Em um nível mais acima, acredito que precisamos mudar a nossa cultura de que o “malandro” é aquele que se dá bem, e de quem se esforça é o trouxa. Transformar o ato de estudar em algo bem reconhecido.

Acredito que é um processo que demorará bastante. E você, como acredita que podemos fazer?

12 08 2013
peregrinacultural

Bruno, estou com você. Acho que a leitura tem que ser incentivada a partir do que as crianças gostarem de ler. Tem que ser inicialmente um processo gratificante emocionalmente e não uma coisa obrigatória. E cabe aos professores, aos adultos responsáveis, aos pais, incentivar a leitura.

Você tem toda razão ao reclamar da cultura que protagoniza o “malandro” como o herói, que tudo consegue sem ter que trabalhar para isso, só na cantada, na fala sedosa. É um vício cultural que precisa ser eliminado e que acho vem dos tempos em que éramos colônia e o pessoal vinha para cá para “se dar bem”.

Você me pergunta como poderemos mudar. Francamente não sei, mas acho que começa na escola, logo nos primeiros anos. Os professores têm que mostrar interesse. Comigo, na minha casa, todos liam. Era uma questão de fazer o que todo mundo fazia. Mas sei que a maioria dos lares brasileiros não têm nenhum livro. Bibliotecas FUNCIONANDO — digo funcionando assim em letras maiúsculas — porque aqui no RJ no bairro em que moro, na zona sul da cidade, considerada uma das mais literatas — a biblioteca que na minha época de criança funcionava, e de onde peguei emprestado dezenas, centenas mesmo de livros ano após ano, hoje, essa biblioteca está em total abandono e tem uma bibliotecária,funcinária pública à espera da aposentadoria que parece nada fazer, nem mesmo dar apoio a projeto gratuitos. Então a reforma será muito demorada mesmo, porque há um total de posicionamentos que precisam ser mudados. Infelizmente ando desiludida. Obrigada pelo retorno, é bom saber que há os que se interessam pelo assunto. Um abraço, Ladyce

9 08 2013
Renato

Uma preocupação muito pertinente.

9 08 2013
peregrinacultural

Renato, daqui a pouco REALMENTE teremos que importar cérebros para o Brasil. Não como políticagem — como no caso dos médicos — mas porque do jeito que vamos, não teremos cérebros suficientes para crescer. Obrigada pelo comentário. Hoje no jornal O GLOBO, notícia de primeira página: o brasileiro gasta 6 minutos por dia lendo… Lendo — não especificamente romances. LENDO. Isso quer dizer lendo profissionalmente também. Inacreditável.

12 08 2013
Renato

Sim, realmente lamentável e um dos reflexos mais cruéis da destruição do sistema educacional Brasileiro. Sem uma habilidade de leitura decente a capacidade de aprender qualquer outra coisa diminui muito. É como viver num país do qual não se fala a língua.

Não vejo esforço em se trazer novos autores ou se criar nichos de mercado. Morei na Inglaterra e uma das coisas que me deixava impressionado era a diversidade de publicações, coisa que não vemos por aqui.

A impressão em si é algo que vem sendo barateado nas últimas décadas, mas a distribuição é algo restrito, é outra barreira pesada a se superar.

12 08 2013
peregrinacultural

Sim, Renato, entendo sua surpresa. Até Portugal com seus 10.000.000 de cidadãos parece publicar mais do que nós. Proporcinalmente sei que publicam mais, porque afinal, temos 20 vezes a população deles.

Morei muitos anos nos EUA. Ouço por aqui muitas críticas ao sistema educacional americano. Não é perfeito, nem de longe. Mas há uma coisa lá que é muito boa. Todos ou quase absolutamente todos saem das escolas com uma cultura geral mais ou menos boa. Sim, podem não saber a importância do Brasil, mas importância é uma coisa relativa e se continuarmos com esse nível de leitura certamente ninguém saberá o que é o Brasil no futuro próximo.

O que eu vi lá, e tenho um enteado que passou por todo sistema americano de educação, é que as pessoas saem da escola sabendo se utilizar de bibliotecas, encontrar informações, sabendo fazer uma leitura mais ou menos crítica. Depois quer eles decidam continuar seus estudos na faculdade ou não é problema deles. Fui por mais de 15 anos lá proprietária de uma galeria de arte e antiquário. E pude verificar que o público em geral pode não ter frequentado uma boa faculdade, pode não ter mestrado ou doutoramento, mas eles sabem achar a informação de que necessitam. Assim, por exemplo, alguém é apaixonado por cerâmicas feitas no século XIX na Pensilvânia. Vão procurar, têm meios de procurar, tornam-se os maiores conhecedores do assunto e publicam livros sobre isso, Tudo sem terem frequentado os bancos da faculdade (isso é um exemplo). Mas é isso o que um ensino sólido dá: a habilidade da pessoa crescer por si só.

Aqui temos uma mentalidade muito fechada. Temos panelinhas por todo lado. Quem publica tem que conhecer o sistema por dentro. Veja o exemplo do Eduardo Sphor, como teve que batalhar por um livro que é sucesso! Pode não ser para todos, mas evidentemente havia uma porção da população que queria isso e nenhum editor quis publicar. Além disso há também a mentalidade de que você não pode ser um especialista se não for formado naquilo. Há algum tempo, não me lembro mais, dois, três anos, aqui mesmo no blog, mencionei o Laurentino Gomes, livro 1808. E alguém de pois outros alguém e depois mais outra pessoa queria debater o fato de que eu o chamei de historiador, quando na verdade ele nunca se formou em história. Ora batatas! O que ele fez? Pesquisa. Precisa ser historiador para fazer pesquisa? Essa mentalidade burocrática nos atrasa muito e a tendência a não querer arriscar. Ninguém quer arriscar. Às vezes nem mesmo os autores querem arriscar, ou se submeter a conselhos editoriais. Temos barreiras muito grandes. Temos que começar mudando muitas das nossas atitudes.

Muito obrigada pela sua resposta. Dá alento saber que há pessoas que também se preocupam. Um grande abraço, Ladyce

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