Ilustrando os entraves para uma boa educação

12 09 2013

amorepsicheEros e Psiquê, 1787-1793

Antonio Canova (Itália, 1757-1822)

Mármore

155 x 168 cm

Museu do Louvre, Paris

A lenda grega de Eros e Psiquê está entre as mais conhecidas por todos aqueles que se dedicam aos estudos humanistas,  das  artes visuais à psicologia. É uma história deliciosa, constantemente  referenciada na pintura, na escultura.  Também serve de pano de fundo ou de base de estudo para a psicologia – Freud, Carl Jung, James Hillman entre outros fizeram uso extensivo do mito para o entendimento do ser humano.

A versão mais difundida dessa lenda é de autoria de Apuleio, autor latino do século II  que escreveu o romance picaresco Metamorfose, ou como é mais popularmente conhecido O asno de ouro. Psiquê e Eros é na verdade uma das histórias contadas no livro de Apuleio, em que um homem, transformado em burro, precisa passar por diversos obstáculos a ele impostos para receber a graça de voltar à forma humana.  Mas sabemos que a lenda de Eros e Psiquê data dos tempos áureos da Grécia antiga.  Há representações desse romance por volta de 400 a.C.  Platão e Plotino entre outros pensadores de longa data também fazem referências à essa história.  Em suma, trata-se de um clássico da cultura ocidental, texto essencial para melhor conhecimento dos princípios humanísticos.

ZEUGMA MOSAICS (1st to 2nd century C.E.) in Gaziantep Museum, Gaziantep, Turkey The winged god Eros (Love) sits on a throne beside his wife Psykhe (Soul), or mother Aphrodite

Eros sentado ao lado de sua esposa Psyquê, séc. I-II d.C.

Mosaicos Zeugma

Museu de Gaziantep, Turquia

De todos os clássicos que li na minha formação como historiadora da arte O asno de ouro foi um dos pude ler sem quaisquer dificuldades de entendimento graças à belíssima tradução de E.F. Kennedy.  Sim, como estudei fora do país, fiz a leitura desse clássico, em inglês, The Golden Ass, na edição Penguin de bolso.  O meu volume, com anotações a lápis, com marcas em tinta amarela para ressaltar partes do texto, está caindo aos pedaços e subsiste preso com um forte elástico que mantém capas e recheio juntos.  Desfazer-me dele?  Nunca.  Este volume tem a história das minhas leituras.  Sendo uma edição de bolso, de custo mínimo, nunca pensei que poderia estar tratando casualmente demais uma obra que pudesse ser um dia tratada como rara. Era e é uma ferramenta de trabalho.

Fiquei escandalizada quando ao preparar minhas notas para a discussão em aula do quadro Primavera, 1478-82, de Sandro Botticelli [acervo da Galleria degli Uffizi, Florença] e procurei nas livrarias cariocas O asno de ouro de Apuleio.  Não existe.  Há no momento duas edições em português que, se interessada, eu poderia encomendar em Portugal.  Há a edição simplificada do romance original titulada: Conto de Amor e Psiquê, que reduz o livro de Apuleio justamente à história que dá nome à esta edição, publicada pela Biblioteca dos Editores Independentes, 128 páginas.  Para essa compra teria que esperar 70 dias para a entrega.  Esta beleza, sem custo de transporte, me custaria R$23,90.  Não gosto de clássicos reduzidos.  Perde-se a beleza do texto, ainda mais quando o texto já é traduzido [nesse caso traduzido do latim]. É como ler as notas chamadas BURRO, notas de resumos de obras clássicas para se dar a impressão se ser mais erudito do que se é.  Essas edições me lembram os anos em que eu estudava piano e no afã de mostrar que fazia progresso, muitas vezes tentei  as  “peças facilitadas” que nunca soaram bem: uma idiotice que não engana ninguém.

goldenassbO asno de ouro, c. 1530

Anônimo

afresco

Salle delle Gesta Rossiane

Rocca dei Rossi,  San Secondo, Itália

Há também a possibilidade de comprar O Burro de Ouro [sic] [Por que trocar o nome de um clássico?  No mundo inteiro a palavra usada é ASNO.]  da editora portuguesa Cotovia, 250 páginas, também levando 70 dias no mínimo para entrega.  Esta beleza leva o preço de R$113,90.  Ou seja, não é só o burro que é de ouro, as letras impressas também devem ser.  R$113,90 equivalem a 17% do salário mínimo brasileiro, sem o custo de transporte de Portugal para o Brasil.

ga30O asno de ouro, 1905

Henry Justice Ford (1860-1941)

Agora vamos a algumas considerações.  Portugal tem 10.000.000 – dez milhões de habitantes, o Brasil tem 198.000.000 – cento e noventa e oito milhões. Portugal tem duas edições do romance de Apuleio. O Brasil tem ZERO. Há algo de errado.  O Brasil tem 19 vezes mais habitantes do que Portugal.  Mesmo que tenhamos uma percentagem pequena que letrados, não se justifica que não tenhamos a possibilidade de acesso a um clássico de importância em diversos campos de estudos universitários, em português.  É inadmissível  que não se possa comprar por um preço razoável esse texto; que não haja uma única editora dedicada ao nicho dos clássicos; é bom lembrar que se trata de uma publicação do século IV, ou seja, em domínio público.  A tradução pode não estar em domínio público, mas quanto custa re-editar, quanto custa o pagamento de uma revisão da tradução já feita?

AWB1895

O rapto de Psiquê, 1883

Adolphe-William Bouguereau (França, 1825-1905)

óleo sobre tela, 209 x 120 cm

Coleção Particular

Porque eu  só tinha acesso ao meu texto em inglês, continuei querendo uma edição em que pudesse colocar as mãos sem ter que ir à Biblioteca Nacional.  Eu queria poder fazer uma citação em português para meus alunos e vendo-me exasperada com os 70 dias de espera e com o preço exorbitante, fui ao portal da Estante Virtual,  e as surpresas continuaram: há muitas publicações na seção infanto-juvenil – as tais facilitadas.  Há uma até na seção de Genealogia (essa eu também não entendi). Mas  só uma única publicação do texto integral à venda nesse consórcio de sebos brasileiros.  É de 1963, da editora Cultrix.  E pasmem: está classificada como LIVRO RARO, e custa a bagatela de R$99,90 + R$4,63 de frete de São Paulo para o Rio de Janeiro. E tem mais, não está lá em boas condições, segue a descrição no portal: Livro com sinais de uso, fitas adesiva na lombada devido a rasgos, manchas no miolo, lombada levemente descolando, manchas no verso da capa e da contracapa, sinais de desgastes, sinal de dobra na lombada, 235p. O livro Asno de Ouro é o único romance a ter sobrevivido inteiro da época do Império Romano, foi escrito em no século II d. C e conta a história de um rapaz chamado Lucius que foi transformado em asno por uma feiticeira. Esse livro serviu como inspiração para muitos autores clássicos como Boccaccio, Cervantes e Shakespeare.[o negrito é meu] Ah, eles também tem uma edição em italiano…

Para ter certeza de que não estava me revoltando sem razão fui a Amazon, onde encontrei um clássico de bolso, edição integral, igual ao meu volume, tradução de E.F. Kennedy,  por USD$ 10.89 [no câmbio de hoje, R$26,00]; encontrei também outras edições, um mundo de opções a preços muito tentadores: uma com a tradução de Sarah Ruden, a USD$ 12.60 [R$30,00], pela Yale University Press; uma edição com tradução do grande Robert Graves, da editora Farrar, Straus and Giroux, a USD $ 11.08 [R$ 26,00]; uma edição da Oxford University Press, tradução de P. G. Walsh ao custo de USD$ 10.45 [R$25,00]; Jack Lindsay é o tradutor na edição da Indiana University Press USD$ 14.40 [35,00];  a edição da Hackett Pub Co, com tradução Joel C. Relihan tem o preço de USD$ 13,30 [R$32,00], isso sem me ater ao livros que eu poderia baixar da internet, para leitura digital.

Cupid and Psyche (1st century, painting, Pompeii)Eros e Psiquê, século I

afresco

Pompéia

São muitas as edições a preços populares encontradas nos Estados Unidos.  Não devemos portanto nos surpreender da preferência que nossos alunos têm pelo uso constante do inglês; nem nos surpreender pelo desenvolvimento na maior parte das áreas de humanas e das ciências do nosso vizinho no norte.  Porque é de detalhes como esse, é da facilidade de se poder acessar informação que se faz uma cultura, que se distribui conhecimento.

Essa experiência demonstra uma das muitas dificuldades encontradas na educação brasileira. É lamentável.  É um exemplo pequenino que ilustra eloqüentemente as razões do nosso constante subdesenvolvimento intelectual.  Se esses volumes de obras clássicas não trazem lucro para as editoras, seria o caso de se abrir uma ONG com o intuito de publicar e distribuir clássicos no Brasil?  De cuidar que eles estivessem sempre nas prateleiras das nossas livrarias para venda?   Não tenho a solução. Tampouco acredito em soluções governamentais porque no Brasil elas não parecem ter continuidade.  Nossa salvação será a Penguin brasileira, talvez.  Mas deixaremos as decisões do que faz a cultura brasileira nas mãos de estrangeiros, mais uma vez. Pena.





Minutos de sabedoria — Pearl S. Buck

12 09 2013

Auguste de Chatillon, Auguste de Chatillon ( França 1808-1881) Leopoldina com o livro das horasLeopoldina Hugo, no dia de sua Primeira Comunhão*, 1835-6

[Filha do escritor francês Victor Hugo]

Auguste de Chatillon ( França,1808-1881)

óleo sobre tela, 60 x 73 cm

Museu Victor Hugo, Paris

* Esta tela também pode ser encontrada pelo nome: Leopoldina e o Livro das Horas.

“Quando cessa a vigilância e os esforços dos bons, os maus predominam”.

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Pearl S. Buck








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