Imagem de leitura — Ernest Anders

2 03 2014

ernest-andersUm momento de quietude, 1878

Ernest Anders (Alemanha, 1845-1911)

óleo sobre tela

Coleção Particular, Düsseldorf





Uma descrição primorosa na obra de Hilary Mantel

2 03 2014

William Kay BlacklockEnsinando a irmã a coser ou A lição, s.d.

William Kay Blacklock (Inglaterra, 1872-1922)

aquarela e guache sobre papel

Nem todos os escritores se dedicam a uma boa descrição.  Hilary Mantel é uma extraordinária artesã no texto descritivo.  Fiquei particularmente fascinada com a caracterização que ela faz de uma mulher — a mãe da narradora do romance Um experimento amoroso.  São dois parágrafos sucintos, mas de grande riqueza. Ao final dessa leitura, conhecemos a personagem descrita.  Vejam:

“Meu pai era escriturário; eu soube desde muito cedo em minha vida, por causa do hábito de minha mãe de me dizer: “seu pai não é apenas um escriturário, sabe.” Toda noite ele fazia um jogo de palavras cruzadas. De vez em quando minha mãe lia livros da biblioteca ou folheava revistas, que também chamava de “livros”, mas mais fequentemente fazia tricô ou costurava, a cabeça inclinada sob a lâmpada do abajur. O trabalho dela era requintado: a tapeçaria, o trabalho de bainha aberta. Nossas fronhas eram bordadas, branco sobre branco, com rosas esparramadas de talos longos, com ramalhetes em cestas trançadas, com laços em guirlandas de nós graciosos. Meu pai tinha um blusão de lã tricotado diferente para cada dia da semana, se quisesse usar. Todas as minhas, cortadas e feitas por ela, tinham babados de renda na bainha e – e também na bainha do lado esquerdo – um bordado com o mesmo tema representando a inocência: um botão-de-ouro,por exemplo, ou um gatinho.

Posso ver que minha mãe,  como pessoa, não era nada requintada. Tinha o queixo firme e uma voz alta, ressonante. O cabelo estava ficando grisalho e era rebelde, preso por pregadores de mola. Quando franzia o cenho, uma nuvem passava sobre a rua. Quando erguia as sobrancelhas – como fazia com frequência, espantada a cada hora pelo que Deus esperava que ela suportasse –, um sistema de trilhos de bonde de cidade pequena surgia em sua testa. Ela era brigona, dogmática e esperta; sua maneira de falar era assustadoramente franca, ou então desnorteadamente cheia de rodeios. Os olhos eram grandes e alertas, verdes como vidro verde, sem nada de amarelo ou amêndoa neles; sem nenhum dos compromissos que as pessoas têm quando se trata de olhos verdes. Quando ria, ela raramente sabia porque, e quando chorava, sabia menos ainda. Suas mãos eram grandes, nodosas e cheias de calos, feitas para segurar um rifle, não uma agulha”.

Em: Um experimento amoroso, Hilary Mantel, Rio de Janeiro, Record: 1999, pp. 14-15





Domingo, um passeio no campo!

2 03 2014

CASEMIRO RAMOS FILHO - (1905 - 1976)Flamboyant, 1952, osm, 27x34Flamboyant, 1952

Casemiro Ramos Filho (Brasil, 1905-1976)

óleo sobre madeira, 27 x 34 cm








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