No cinema, um romance epistolar indiano que encanta: “The Lunchbox”

27 03 2014

Christine Comyn -- contemplaçãoContemplação

Christine Comyn (Bélgica, 1957)

Aquarela sobre papel

Em 2008 quando terminei a leitura de A Trégua de Mário Benedetti sabia que havia lido um romance que me afetara profundamente. Mas não tinha imaginado que de quando em quando, me lembraria dessa obra pequenina e potente do escritor uruguaio.  Hoje, passados seis anos, sua presença ainda se faz sentir.  Sábado, quando saí do cinema depois de ver o filme indiano The Lunchbox, quase imediatamente me lembrei dos pequeninos capítulos, quase parágrafos únicos, verdadeiras pedras preciosas de sutileza, que compõem  A Trégua, fazendo do romance a joia rara que me encantou.

Há inúmeros paralelos entre o filme indiano e o romance uruguaio. Ambos são brilhantes. São sutis nas emoções que revelam. E tratam de ritos de passagem.  Em geral usamos esse termo para descrever a literatura centrada em um adolescente que por uma determinada aventura se torna adulto, como no livro de J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio. Mas aqui trata-se de homens adultos à beira da aposentadoria, que por motivos diversos se encontram em situações semelhantes, capazes, talvez, de reencontrar o gosto pela vida. Em ambas as obras, mesmo que por diferentes meios, a sutileza dos sentimentos é tocante.

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Em meio a pilhas de papéis nas mesas dos escritórios, vivendo em um estado quase mecânico, em total solidão, os personagens principais do livro e do filme passam pela vida quase desapercebidos, resignados, incapazes de reivindicar uma existência melhor.  Competentes, mas com suas vidas sem brilho.  E eis que por uma pequena intervenção do destino um raio de luz passa por uma porta entreaberta trazendo a possibilidade de outra vida.  Talvez.  A narrativa em ambos os casos é por meio de elipses, no texto são as entradas no diário de Martín Santomé; no filme são os recados deixados por Irrfan Khan no papel de Saajan Fernandez. Irmãos na delicadeza dos sentimentos, na sutileza da narrativa essas duas obras primas dificilmente são esquecidas.

No filme a extraordinária interpretação de Irrfan Khan, que preenche o seu papel com uma simples mudança no olhar precisa ser ressaltada. E a beleza de Nimrat Kaur, um boa atriz com certeza, não pode ser ignorada. Um belíssimo filme,  poesia em imagens.  Se tiver a oportunidade, não perca.


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2 responses

28 03 2014
Nanci Sampaio

Querida Ladyce:

Em primeiro lugar, obrigada pela indicação do filme – aqui em SP apenas uma sala o exibe e, para minha frustração, fica bem longe de casa. Mas diante desse seu texto e do paralelo com “A trégua”, que considero igualmente inesquecível, sinto que não posso deixar a oportunidade passar.

Vou repetir um trecho seu que considerei primoroso “uma pequena intervenção do destino: um raio de luz passa por uma porta entreaberta trazendo a possibilidade de outra vida” e fixá-lo na memória até assistir The lunchbox, torcendo para que ele saia em dvd.

Obrigada & bom fim de semana,
Nanci.

29 03 2014
peregrinacultural

Nanci, com a facilidade que temos de baixar filmes, talvez essa opção possa ser usada. Aqui no Rio também um único cinema,com o filme brasileiro “Alemão” (sobre a tomada da favela do mesmo nome) ocupando uma enormidade das salas no RJ, também tive que ir a uma região bem contramão para mim, para ver o filme. Resolvi fazer um programa TOTAL. Fui à região, fiz umas pequenas compras, tomei café em um novo lugar da moda antes de me dirigir ao cinema. Acabei levando uma tarde inteira. Além do filme que por si só já teria valido a viagem, foi um tarde diferente. Eu já havia lido uma resenha favorável e decidi mudar os meus hábitos por uma tarde. O sucesso do filme anda de boca em boca por aqui e é possível, quem sabe, que vá para um cinema mais “arte” de menor porte. Fique de olho. Esse rodeio de filmes indo de um cinema mais comercial para outro mais “arte” deve existir em SP também. Beijo,

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