Dia 7: Um objeto inanimado, desafio da escrita, #PHpoemaday

7 06 2014

 

 

Good Housekeeping 1936-11Horace C. Gaffron m Ilustração de Horace C. Graffon, capa da revista americana Good Housekeeping, Novembro 1936

 

Tema: um objeto inanimado

 

 

Primeiro amor

Era um cachorro de pano. Chamava-se Tupi. Tinha longas orelhas marrom escuro e um focinho vermelho. O corpo azul-rei de bolinhas pretas contrastava com a coleira de couro enfeitada por estrelinhas de metal dourado. Não era muito fofo. Mas guardava meus sonhos, no macio do colchão, dormindo ao meu lado, naquele espaço estreito entre o meu travesseiro e a grade da cama. Tupi era o companheiro fiel de minhas travessuras. E eu o carregava de um canto ao outro de casa, pela orelha direita, que por isso mesmo já estava descosturando ou pelo rabo, um cotó emborrachado preto.

Na confusão da mudança de residência da família, dei por falta de Tupi e não sosseguei mais. Aqueles homens que empacotavam tudo, que colocavam pratos e copos em caixas, minhas roupas e os lençóis da minha cama em grandes caixas de papelão, deram cabo de Tupi, eu me convenci.

Durante a viagem de um canto a outro da cidade, por entre pacotes e sacolas da mudança, no carro de vovô, chorei. Chorei muito. Esperneei. Lágrimas quentes e soluços do fundo do peito pontuaram minhas falas. Berreiro. Papai dizia que se podia ouvir os meus gritos do Oiapoque ao Chuí. Eu não sabia o que era o Oiapoque, nem o Chuí, e não estava interessada em aprender. Escolhi ficar emburrada. Silenciosa. Ressentida. Não houve conversa dele, de minha mãe, de minhas tias que me contentasse. Passei aquela noite na casa de vovó, enquanto meus pais arrumavam a nova casa. Ninguém ouviu a minha voz. Eu não queria nada com ninguém. Nem mesmo a canja que vovó preparou, meu prato favorito às vésperas dos meus cinco anos, foi suficiente para me alegrar. Nem o jogo do burro, nem a pipoca fresquinha, com refresco de tamarindo. Só aceitei mesmo o colinho da vovó. Porque também ninguém é de ferro e ele era muito macio e quentinho.

Na manhã seguinte, papai veio me apanhar. No caminho me disse que estava tudo bem, que eu ia gostar da nova casa e que o meu quarto já estava arrumado. Disse também que tinha uma surpresa para mim. Quando chegamos, ainda segurando a mão de papai na porta do quarto, vi muitos animais de pelúcia sobre a minha cama, sobre o travesseiro, e no meio deles, escondido, havia um focinho vermelho, farejando o ar do novo quarto. Corri até a cama, me abracei com Tupi. E chorei. Chorei muito, silenciosamente. Papai veio conversar comigo. Acocorou-se, e numa voz baixa explicou como Tupi havia sido empacotado, com todo carinho… Continuei chorando em silêncio e um momento depois me dependurei no pescoço de papai, mantendo Tupi preso firmemente pela orelha. E sem mais demandas, fechei os olhos e dormi. Exausta. Segura. Protegida por meus dois guardiães.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 


Ações

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7 responses

7 06 2014
RAA

O meu primeiro cão, um boxer, chamava-se Tupi 🙂

8 06 2014
peregrinacultural

Mas que coincidência! 🙂

7 06 2014
renataamemiya

Mágico e terno…lembranças

8 06 2014
peregrinacultural

Obrigada, Renata! Que loucura é esta em que nos metemos?!

8 06 2014
renataamemiya

Nem fala….rssss

8 06 2014
Maria Helena Oswaldo Cruz

Mto lindo e cheio de emoção este texto! É um belo conto!

8 06 2014
peregrinacultural

Lenah, vindo de quem escreve tão bem quanto você esse é um verdadeiro elogio! 😉

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