Uma exposição para conhecer Kandinsky

31 01 2015

 

 

1370_kandinsky_onwhiteNo branco, 1920

Vasily Kandinsky (Rússia/França, 1866-1944)

óleo sobre tela, 95 x 138 cm

Museu do Estado Russo, São Petersburgo

 

 

Quem gosta de Kandinsky — um dos pais da pintura abstrata — ou quem não gosta de suas telas.  Quem é indiferente ou quem nunca ouviu falar desse pintor.  Ninguém deve perder a oportunidade de visitar a exposição Kandinsky: tudo começa num ponto, que abriu esta semana no CCBB [Centro Cultural do Banco do Brasil] do Rio de Janeiro. A exposição que veio de Brasília, sai do Rio de Janeiro no final de março, em direção a Belo Horizonte, para depois ir para São Paulo.

Dizer que essa exposição é extraordinária não é um exagero.  Se você tem interesse em saber mais sobre a arte moderna, sobre a evolução das correntes da arte moderna dê a si mesmo um presente: reserve de duas a três horas de um dia, e siga esta exposição de início ao fim. Vá com sapatos confortáveis.  Traga um xale ou um casaco leve.  Por contraste com a temperatura ambiente no Rio de Janeiro pode-se sentir frio no museu.  Não reclame da temperatura baixa, ela preserva as telas para futuras gerações. Em nome de seus descendentes, proteja-se do frio e se delicie com uma aula minuciosa,  interessante, compreensiva, cobrindo muitos aspectos das raízes do trabalho de Kandinsky e com isso das raízes da arte moderna do século XX.

Não perca!  Uma das mais importantes exposições que eu já vi não só no Rio de Janeiro, mas em outros lugares do mundo. São obras de Kandinsky e muitos de seus compatriotas que não estão facilmente acessíveis nem mesmo nos museus na Europa ocidental. Há muitas de artistas de grande calibre cujo trabalho nos é menos familiar.   A maioria delas veio da Rússia e outras de coleções europeias.  Obras que jamais foram vistas nas Américas. Há filmes, slides e interatividade. Há também a imersão na obra, uma exposição em 3D.  Visite esta parte por ultimo — na Rotunda — para melhor apreciar a obra. Mas há sobretudo nessa exposição um contexto para a obra do pintor que pode ser digerido em diversos níveis. É um privilégio ter a oportunidade de visitar essa exposição.

O Carnaval está chegando e com ele muitos dias de férias.  Esqueça por um momento a folia e encha os olhos e preencha as lacunas da sua educação artística com essa exposição.

O CCBB está de parabéns. Na minha opinião esta exposição supera a de M. C. Escher que também foi de primeira categoria.

 

SERVIÇO

Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto
Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro – Rua Primeiro de Março, 66, Centro – Rio de Janeiro/ RJ
(21) 3808.2100
De 28 de janeiro a 30 de março 2015

ENTRADA FRANCA

Como bem lembrou um de nossos leitores: O CCBB do Rio de Janeiro fecha às terças-feiras!

 





Flores para um sábado perfeito!

31 01 2015

 

Carmen Arruda,Vaso de Flores,71 x 71 cm - OSTVaso de Flores

Carmen Arruda (Brasil, 1934)

óleo sobre tela, 71 x 17 cm





Rio de Janeiro, comemorando 450 anos!

30 01 2015

 

 

???????????????????????????????Enseada de Botafogo, 1835

Emeric Essex Vidal (Inglaterra, 1791-1861)

aquarela sobre papel, 17 x 25 cm

Museu Imperial de Petrópolis





Papagaio um fetiche sensual? — algumas observações sobre pin-ups

29 01 2015

 

 

936full-bradshaw-crandellIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

O papagaio, representante de terras distantes e exóticas, adquiriu o simbolismo da luxúria no século XIX. A tendência vinha desde o século anterior, quando a Europa despertou para o mistério dos países sob domínio do Império Otomano. Um dos mais conhecidos exemplos da arte erótica que inclui o papagaio é a tela de Gustave Courbet , Mulher com papagaio, datado de 1866. Na verdade, o tema que ressurge nessa época, não sucumbe de todo até os anos 30 do século XX, período em que nas artes gráficas a melindrosa acompanhada de um papagaio é frequente.

 

gravura 1903Gravura, Mulher com papagaio, França, 1903.

 

Com a facilidade adquirida de reproduzir imagens coloridas no final do século XIX com técnicas inovadoras nas artes gráficas aos poucos tornou-se mais comum vermos gravuras e ilustrações nas primeiras décadas do século XX de mulheres sensuais, ainda que muito estilizadas, para consumo e prazer de uma plateia masculina.

 

gerda wegener dinamarcaSAUTDELITIlustração de 1914 por Gerda Wegener (Dinamarca, 1889-1940).

 

Inicialmente as “meninas travessas” do início do século XX apareciam em cartões postais de fotografias como esse francês, abaixo, que mostra uma moça vestindo ou despindo um espartilho, em um postal colorido à mão.

 

 

 

1910s-pinup-postcardCartão postal, [sem papagaio] c. 1910.

 

Mais tarde, com as mudanças de comportamento pós-Grande Guerra, os postais mostraram imagens mais arriscadas. Nessa época o pássaro preferido dos artistas visuais era o pavão, cujas penas se prestaram a decorações elaboradas das gravuras Art Nouveau.

 

Cartao 1920Cartão postal francês,[sem papagaio] década de 1920.

 

Billy Devorss (EUA, 1908-1985) artista gráfico chegou a combinar, na gravura para anuncio de 1928, “Penas e Pérolas” ambos os pássaros exóticos frequentemente associado às belezas tentadoras.

 

BILLY DEVORSS PINUP GIRL ART DECO FLAPPER BEAUTY WITH PARROTIlustração Billy Devorss (EUA, 1908-1985), Penas e Pérolas, 1928.

 

Foi durante a Segunda Guerra Mundial que as meninas provocantes, sensuais, que nunca mostravam nenhuma parte do corpo explicitamente, só aludiam a uma possível descoberta, tornaram-se mais populares nas folhinhas de oficinas mecânicas, nos bares de sinuca e nas trincheiras da guerra, quando lembravam, à rapaziada com baioneta nas mãos o que lhes esperava de volta à casa.

 slide_372646_4324662_freeExemplo de folhinha de 1930, de Rolf Armstrong (EUA, 1889-1960) para a  Brown & Bigelow.

 

Muitos artistas gráficos se distinguiram nesse período, um dos mais famosos, foi Alberto Vargas (1896-1982), nascido no Peru, emigrado para os EUA, que ficou famoso a partir da década de 1940, quando começou a desenhar essas moças em situações provocantes para a revista Esquire. Ele que provavelmente conhecia uma arara em seu habitat natural, parece não ter se dedicado ao tema. Não encontrei nenhuma imagem por Vargas de uma moça com papagaio.  Isso não quer dizer que ele não tenha feito, apenas que a minha breve pesquisa não encontrou nenhum desenho composto de moça e arara, mas seus colegas de profissão aderiram ao tema.

 

menina com papagaio crandelIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Poucos no entanto se dedicaram com tanta persistência ao tema, do papagaio como Bradshaw Crandell.  Há a típica pin-up dos anos 40 como a desenhada para uma folhinha pelo artista americano H. Weston Taylor (1881-1978) abaixo.  Digo típica porque aqui se repete o que Dian Hanson descreveu em seu livro “The Art of the pin-up” lançado no ano passado, em edição de luxo, editado pelo historiador cultural Sarahjane Blum. “uma imagem provocadora mas nunca explícita de uma mulher atraente criada especificamente para consumo público em meio ambiente masculino“. [ A tradução é  minha].

 

weston-taylor pin up, 1942, para folhinha C MossIlustração de H. Weston Taylor (EUA, 1881-1978), para folhinha 1942.

H. Weston Taylor é um daqueles, trabalhando em meados do século, a usar o papagaio como acompanhante da jovem pin-up.

 

bradshaw crandell --Ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Ou ainda nessa versão do tema “alimentando a arara” — que aqui leva o título de “Encontro para Jantar” [Dinner Date] de Bradshaw Crandell.

 

Bradshaw Crandell, dinner dateIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Outro artista famoso por suas meninas travessas, foi Enoch Bolles (EUA, 1883-1976) que produziu esta jovem beijando um papagaio para a capa da revista Film Fun, de novembro de 1936.

 

Enoch BollesIlustração de 1936, por Enoch Bolles (1883-1976).

 

Mas Bradshaw Crandell retorna ao tema, uma, duas três vezes.

lets-be-friendsIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Vamos ser amigos? é o nome dessa ilustração de Bradshaw Crandle.  A  ilustração com a jovem segurando o papagaio com a mão esquerda lembra a ilustração seguinte, anterior, do ano de 1929.

 

4426215661_6afd6aa37d_z.jpgbradshaw crandellIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Titulada “Bela loucura” [Pretty Folly] ela foi usada para o calendário da companhia de seguros de Peoria Illinois, para o ano de 1929.  Na verdade, a expressão em inglês pin-up vem justamente dos calendários. Significando arte para dependurar — pin-up art — essas ilustrações travessas eram frequentemente parte das folhinhas mandadas para os clientes de negócios como lembrança de boa festas, ao final do ano.

14401522_2_lCalendário com ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Só mais tarde, nos anos 40 do século passado, essas ilustrações sensuais passaram a fazer parte das revistas que tinham como principais fregueses a ala masculina da sociedade.

 Bradshaw Crandell - araraIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Ou a arara ajuda a leitura do bilhete de amor que a moçoila recebeu — como sei que era um bilhete de amor? Olhe para os olhos brilhantes da jovem… Ou ela ajuda à sofisticação do cetim dourado do vestido desse trabalho anterior que leva o nome de Penas Refinadas.

 

Penas refinadasIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Recentemente veio a leilão um dos guaches de Bradshaw Crandell para a ilustração Por Favorzinho [Pretty Please] que vemos abaixo produzido na década de 1930:

 

POR FAVORZINHO decada de 1930Ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

O guache preparatório nos oferece uma pequenina janela no processo de criação:

 

Bradshaw crandell, auctionIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Ainda que sua carreira estivesse no auge depois da Segunda Guerra Mundial, Bradshaw Crandell não parece ter retornado ao tema do papagaio com a moça sexy na década de 1950.  Nessa época dois outros desenhistas de pin-up girls ainda exploraram o tema do papagaio mas nem sempre com a sensualidade de Crandell.

 

elvgren_noyoudont_1956_30x24_oiloncanvas.jpg feather and fashions,Penas e Modas [Feathers and Fashions], 1956 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

A ilustração acima de 1956 por um dos mais conhecidos artistas de pin-up o americano Gil Elvgren (1914-1980), já tem menos romantismo, mas mais humor. Mesmo assim Elvgren, como Crandell, tem uma série grande de moças com papagaios.  Eis alguns seus outros trabalhos:

 

untitledO minimo necessário [Bare Essentials], 1957 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

É interessante notar que todos os títulos dessas ilustrações usam de trocadilhos. Freud já havia há muito tempo explorado o humor como porta de entrada para o inconsciente.  Nada mais justo então que ele seja explorado justamente em imagens que apelam aos mais íntimos desejos do público masculino.

Elvgren cracker capers 1960 Jogo do biscoito, [Cracker Capers], 1960 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

RUFFLED_FEATHERS_1967_1_.jpgGIL ELVGRENPenas eriçadas [Ruffled Feathers], 1967 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

elvgreenOutra ilustração de Gil Elvgren, mas desconheço o título e a data.

Mais ou menos da mesma época e com um estilo próprio temos um exemplar do artista gráfico Earl Moran (EUA, 1893-1984). Aqui a nossa pin-up girl está cansada do matraquear do papagaio.

 

earl moran, papagaioIlustração de Earl Moran (EUA, 1893-1984).

 

Houve outros artistas de pin up que também se dispuseram a desenhar situações engraçadas de moças sensuais com araras ou papagaios. Destacam-se:

 

Peter DribenPapagaio esperto [Clever Parrot]  Ilustração de Peter Driben (EUA, 1903-1968), desconheço a data.

 

joyce ballentyneIlustração de Joyce Ballentyne (EUA, 1918-2006), desconheço a data.

 

Nem mesmo Joyce Ballentyne uma das poucas mulheres e artistas gráficas desenhistas de pin-ups escapou do tema como vemos na ilustração acima.  Harry Ekman (EUA, 1923-1999) é outro artista de pin-up girls de quem tenho o desenho original anterior ao produto acabado e publicado. Com o nome de Penas e Pérolas [Feathers and Pearls] ele nos apresenta um jovem sensual entretida com uma arara — um papagaio — que segura uma fio de pérolas com o bico.

 

harry ekmanIlustração de Harry Ekman (EUA, 1923-1999).

 

ParrotandPearls_previewDesenho preparatório a lápis, com instruções, para a ilustração Penas e Pérolas, de Harry Ekman (EUA, 1923-1999).

Note-se que o título desta ilustração é o mesmo da ilustração Billy Devorss (EUA, 1908-1985), Penas e Pérolas, 1928, bem no início desta digressão sobre papagaios e sensualidade. Tenho certeza de que ainda há muitos outros a serem descobertos.  Inclusive entre os artistas gráficos ainda vivos.

Como também Baron von Lind (EUA, 1937), que se assina simplesmente Baron.

 

Baron von Lind (American, 1937)Desconheço o título e a data.
Baron von Lind (American, 1937) - erinDesconheço o título e a data.

Agora, digam-me: devo aconselhar as moças solteiras que conheço que adotem um papagaio como animal de estimação para melhor atraírem o sexo oposto?

Se não, podem me explicar a ligação entre sensualidade e as araras?

 

— Currupaco!




Imagem de leitura — Alfred Leslie

28 01 2015

 

 

newspaperAlfred Leslie (1927)O jornal, c. 1967

Alfred Leslie (EUA, 1927)

óleo





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

28 01 2015

 

mangas-espada-1-flc3a1vio-freitasA tela Mangas Espada, acrílica sobre tela 116 x 116 cm, é do artista plástico, velejador e trompetista Flávio FreitasMangas-espada

Flávio Freitas (Brasil, 1961)

acrílica sobre tela, 116 x 116 cm





Magritte, texto de Murilo Mendes

28 01 2015

 

 

promenadesofeuclidLes Promenades d’Euclide, 1955

[O passeio de Euclides]

René Magritte (Bélgica, 1898-1867)

óleo sobre tela, 162 x 129

The Minneapolis Institute of Art.

 

 

 

Tomemos “Les promenades d’Euclide“, uma das telas fundamentais de Magritte, versão aperfeiçoada de uma outra anterior, “La condition humaine“.

A cortina pesada alude a um cenário onde algo vai ser “representado”. São estas as dramatis personae: em primeiro plano além da cortina o cavalete e a larga vidraça. O cavalete é posto em grande destaque no conjunto: sujeito e protagonista em função do qual o ambiente — inclusive a paisagem —  subsiste; um dos objetos-símbolos capitais do ofício de Magritte pictor. Este o secciona para sobrepor à tela original uma segunda, ao mesmo tempo libertada dele e integrada na parte inferior da vidraça, que corresponde à janela dividindo o espaço nos quadros dos antigos pintores flamengos.

Em segundo plano a torre, o arvoredo, o casario, duas minúsculas figuras isolando-se numa avenida deserta; e a linha do horizonte demarcada com rigor. Domina a tela um céu nuvioso. Todos esses elementos reunidos em absoluta consciência criam uma profundidade especial a que o espírito adere: texto de poesia ótica, não-literária. O seccionamento de duas partes do cavalete, a rarefação da segunda tela, a infinitude da perspectiva da alameda, que poderia remontar a Van Eyck ou Memling; a sobriedade da linguagem cromática em suas dominantes marrom, verde, branco e cinza, a justeza do desenho paciente, tudo isso forma uma atmosfera poética onde a mais alta fantasia se submete à planificação. O astro subterrâneo levanta-se, e, para maior segurança do seu itinerário, assume a ordem, a régua e o compasso, determinando relações de surpresa num contexto lógico de objetos familiares. Ajunte-se a isto, também de acordo com a linha dos antigos flamengos, a notação do silêncio, do respiro, da pausa funcionando como dramatis personae.

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.187-8.








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