Nossas cidades — Aracaju

9 03 2015

 

Tintiliano, (Brasil, 1981) Cidade à noite, aquarela sobre tela, 30x40, 2008 aracajuAracaju à noite, 2008

Titiliano (Brasil, 1981)

aquarela sobre tela, 30 x 40 cm





Luca Bastos, você fará falta

9 03 2015

 

 

11025775_10153095080115937_7759736406572558142_nLuca Bastos [Luiz Arnaldo de Gusmão Bastos, RJ, 22-5-1945 — SP, 8-3-2015]

 

 

Em uma família temos gerações definidas independente de idade: avós, tios, primos, filhos e sobrinhos, e netos. Não importa a diferença de idades entre eles. São grupos, camadas, que se sobrepõem umas às outras, que se tornam mais perceptíveis nas grandes reuniões familiares dos natais, dos casamentos, das festas de formatura, aniversários, bodas, quando a família inteira se encontra. Nesse momento os grupos se descobrem e acham um cantinho para a roda das conversas. Só aí temos maior noção de quem é mais velho e de quem é o pirralho. Na minha família, os encontros eram frequentes. Parte da família morava no mesmo bairro e não era raro sairmos primos e tios para um passeio juntos no Jardim Botânico ou para um sorvete de frutas no Morais, em Ipanema, em noites de verão. Os laços se estreitavam e nem percebíamos.

Nos Estados Unidos é comum as famílias fazerem um esforço especial para se encontrarem pelo menos uma vez por ano. Pode ser no feriado de Ação de Graças, [Thanksgiving] mas há outras soluções. Na vida americana pessoas se mudam com frequência. Isso provoca um distanciamento físico grande. No passado, anterior às comunicações digitais, era mais difícil manter a comunicação. Na família de meu marido havia uma tradição: todos os irmãos do pai dele se encontravam numa cidade praiana (a mesma todos os anos) no estado de Delaware, onde a família em gerações passadas tinha tido uma casa de veraneio. Encontravam-se para um reencontro familiar. Cada núcleo dos oito irmãos alugava uma casa e os encontros diários por uma semana entre irmãos e primos se faziam à beira-mar. Era sempre a mesma semana e a mesma cidade, todos os anos. Os familiares contavam com isso e faziam planos durante o ano. Dessa forma meu marido se criou conhecendo os primos quaisquer que fossem as idades ou estados em que moravam.

Crescer no Rio de Janeiro foi diferente, meu contato com tios e primos e tios de meus primos e primos de meus primos, foi muito maior. Até a geração de meus pais todos que nasciam aqui, por aqui ficavam, casavam, tinham filhos e comemoravam juntos as datas de grande ou pequena importância. Além dos aniversários, fim de ano, das férias, não faltava ocasião para nos reunirmos, pois também nos encontrávamos para os jogos da Copa do Mundo, para o Carnaval e assim por diante. Tínhamos a certeza da amizade duradoura não importando as características sociais e políticas que nos diferenciavam, os bons e maus alunos, os levados, os santinhos. Sim, havia brigas, discussões enérgicas, depois que crescemos, principalmente a respeito de política, mas havia pazes também, porque afinal o próximo aniversário do tio tal chegava logo, ou um primo se formava, ou nos víamos quando uma prima ia ao palco para uma dança na escola primária.

Os tempos mudaram para a minha geração. Eu mesma saí Rio de Janeiro para São Paulo, para depois sair do Brasil, meus dois irmãos também saíram do Rio. Um morou em Curitiba e depois São Paulo, o outro também acabou indo morar em São Paulo. Mais tarde retornaram ambos ao Rio de Janeiro. Tive um primo, Luiz Arnaldo, mais conhecido como Luca, que foi para São Paulo e ficou. Por lá criou raízes e a filha. Por isso mesmo nos encontramos menos vezes. Nos natais, principalmente. Mas a cada Natal passado juntos, na tradição familiar da festa celebrada na casa de nossa tia Maria-Emília e depois na casa de seu filho, Murilo, o conforto de conversar com ele reaparecia com ecos da infância, da adolescência, das incontáveis vezes que conversamos no passado. Havia aquele bem-estar da familiaridade que só se consegue através de muitos anos e de muito papear. Sempre o admirei. Mesmo sabendo que nossas visões políticas eram muito diferentes. Luca era uma das pessoas mais criativas que conheci, saindo-se tão bem na informática quanto na poesia, um engenheiro que amava Fernando Pessoa. E ele escrevia também. Mostrou recentemente seu grande senso de humor em uma série de contos em uma competição na internet da qual também participei. Suas narrativas ficcionais lhe garantiram grande popularidade no núcleo bem jovem de futuros escritores. Era um homem de grande senso de humor, apaixonado pelo mar, por veleiros, romântico num sentido mais largo da palavra, atleta, aventureiro e muito carinhoso. Reinventou-se muitas vezes, a cada virada trazendo para o presente as diversas experiências passadas. Acabou como um palestrante, e era muito bom nisso porque ajudava sua plateia a se questionar: “Ser rico para quê? Cuidado com objetivos medíocres” ; “A vida é muito curta para aturar chatos” ou “Não trabalhe no que não gosta. Pra que? Ir atrás de dinheiro para fazer o que gosta no futuro? E se não houver futuro?” Deixava sempre algo para que pensássemos no que fazíamos. Ontem, para ele, já não haverá futuro entre nós. Deixa saudades porque tocou a todos nós com sua experiência e carinho. Faleceu jovem demais, ainda tinha muito para dar.

E assim volto a pensar nas gerações da família. Quando crescemos dentro de cada grupo sabemos que há uma ordem: alguns mais velhos, outros mais jovens do que nós. Deste lado da família estou bem no centro da geração dos primos. Mas isso, como aprendi, não conta. Isso não quer dizer nada. Não se morre na ordem de chegada. ELA, a morte, nos surpreende, mesmo quando se anuncia no horizonte, em seu cavalo branco e foice ceifadora em mãos. Estarrecidos, nos olhamos com amargura. A sensação de abandono se instala.  A vida nos parece injusta. E é.





Grandes começos, IV de XII, escolha de Ana Maria Machado

9 03 2015

 

 

Interior-benson-greyroomA sala cinza, 1913

Frank Benson (EUA, 1862-1951)

óleo sobre tela, 64 x 78 cm

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.”

 

Érico Veríssimo, Saga

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.








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