Rembrandt, anotações de Murilo Mendes

12 03 2015

 

 

100portrHendrickje Stoffels à janela, 1657

Rembrandt van Rijn (Holanda, 1606 -1669)

óleo sobre tela, 76 x 60 cm

Staatliche Museen, Berlim

 

 

Rembrandt

 

♦  Sustentado por ácidos e ásperos instrumentos de pintura e de gravura, atento aos corpos sucessivos de Saskia ou Hendrickje e às metamorfoses de Tito, investiga o objeto, os sentidos, a vida imediata ou alegórica — lá fora ou no interno da Bíblia; rejeitando a alternativa do bem e do mal, sob a tensão constante dum pensamento ordenador do caos. Navios da Europa e do Oriente trazem-lhe ouro, pedras raras, telas, tapeçarias e outro símbolos fora da palavra. Depois de abraçar a faixa dos séculos, pela ciência do claro-escuro divide-a. Segurando a vida, explode-lhe energia. Assiste à crucificação, logo depois aborda o Cristo na  tenda de Emaús.

 

♦ Até que circundado de credores, expulso dos florins e das categorias do supérfluo, alinha-se entre párias, despedidos, judeus, renegados,  contestadores da lógica. Esgotados os dissensos do filho pródigo e o catálogo dos corpos asteroides ou não, assume ao máximo a densidade da condição humana. Prosseguindo a linha da posteridade de Jó sem assistência no diálogo, procurando em vão, através numerosos autorretratos, identificar-se, entrevendo no último instante o moinho do seu pai a moer o tempo, Rembrandt van Rijn morre, abolido pela restrita memória dos homens que nas ruas aguadas e curvas de Amsterdã repetem este outro mal-entendido: a técnica insistente da palavra “viver”.

 

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.216.

 





Grandes começos, VII de XII, escolha de Ana Maria Machado

12 03 2015

 

Edouard Vuillard, Lucy Hessel Reading (1913), oil on canvas, (Photo by The Jewish MuseumLucy Hessel lendo, 1913

Édouard Vuillard (França, 1868-1940)

óleo sobre tela

Museu da Cultura Judaica, Nova York

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.”

 

Clarice Lispector, A hora da estrela

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.








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