” A língua portuguesa”, José Eduardo Agualusa

31 03 2015

mb_1894_cam2A redenção de Cam, 1895

Modesto Brocos (Espanha/Brasil, 1852-1936)

óleo sobre tela, 199 x 166 cm

MNBA [Museu Nacional de Belas Artes], Rio de Janeiro

“A verdade é que ainda persiste em Portugal uma certa saudade imperial e, sobretudo, uma enorme ignorância no que diz respeito à história do próprio idioma. É sempre bom recordar que antes de Portugal colonizar a África, os africanos colonizaram a Península Ibérica durante oitocentos anos. A língua portuguesa deve muito ao árabe. A partir do século XVI, com a expansão portuguesa, a língua começa a enriquecer-se, incorporando vocábulos bantos e ameríndios, expressões e provérbios dessas línguas, etc.. A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, caboverdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil, generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.”

Em: “Um brinquedo de criar prodígios“, José Eduardo Agualusa, O Globo, 30/03/2015, 2º caderno, página 2.


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8 responses

31 03 2015
Regina

Ladyce, estou lendo – encantada – As Mulheres do meu pai, do Agualusa. Nele o autor diz que Moçambique é uma festa de mistura: africanos, portugueses, árabes, indianos. Além da diversão tenho aprendido enormemente com os luso africanos. Fã de carteirinha dos que conheço. Gostei de ler essa sua postagem. Já me bateu curiosidade…

4 04 2015
peregrinacultural

De Agualusa já li três títulos. Gostei de todos. Ondjaki, idem… Mia Couto é uma caixinha de surpresas com seus vocábulos poéticos… Germano de Almeida é um machadiano maravilhoso… gosto luso-africanos… cada qual à sua maneira adiciona um tempero gosto para esse angu.

31 03 2015
RAA

Cara Ladyce, ia escrever um longo comentário, porque não me reconheci, nesse excerto que postou.
Fui ler o texto, e a coisa ainda é pior do que eu pensava, por isso decidi escrever um post a propósito no Abencerragem.
Deixo-lhe aqui só duas notas: a afirmação que ele faz é tão válida como eu dizer “A verdade é que ainda persiste em Angola (ou no Brasil, se quiser) um complexo de inferioridade de colonizado.”
Seria supinamente estúpido da minha parte fazer essa generalização; é supinamente estúpido o que o Agualusa escreve, precisamente porque generaliza.
A observação tem que ver com o Acordo Ortográfico (ou aborto ortográfico, como alguns de nós costumamos dizer) e não tem nada que ver com o Brasil ou as outras antigas colónias.
Essa extrapolação só pode fazer-se por desconhecimento (que não é, de todo, o caso do Agualusa) ou por desonestidade intelectual.
Aliás, um dos mais estrénuos adversários do “aborto ortográfico” é o «Jornal de Angola» e os seus editorialistas.
Será que o «Jornal de Angola» também está acometido por “saudade imperial”?
Lamentável, o Agualusa.

4 04 2015
peregrinacultural

Ricardo achei o comentário, com sua metáfora mulata, belíssimo, sensível e instigante. Já tive oportunidade de conversar com você sobre alguns aspectos dessas nossas diferenças e apesar de não colocar pés em Portugal desde a década de 90, lembro-me de ter sentido em alguns comentários sugestivos um pouquinho de irritabilidade lusitana contra muito do que naquela época passava por influência das novelas.

Não percebi nenhum comentário sobre o acordo ortográfico. Eu, se pudesse não o adotaria. Acho que cada uma de nossas línguas deveria seguir os caminhos que melhor se lhes parece. Assim como o inglês da Inglaterra não é nem o falado nos EUA, nem o da Austrália e no entanto todos se entendem. Mas essa batalha no momento me parece perdida, pelo menos cá pelas minhas bandas, onde qualquer programinha de computação já vai corrigindo a grafia de acordo com essas regras ridículas.

Prezo Agualusa. É um bom escritor, faz um trabalho de categoria .

31 03 2015
Annete Lopes Sejópoles Modesto

Verdade linda o que disse José Eduardo Agualusa, O Globo, 30/03/2015. Nossa língua é mesmo esse sincretismo que se revela no comportamento, atitude, fé e cultura genuínos no Brasil dentro de muitos brasis…Nossa alegria mal interpretada, nosso jeito afetuoso de ser. Tudo isso é consequência dessa língua assanhada, brejeira e mulata!

4 04 2015
peregrinacultural

Também gostei Annete!

4 04 2015
Muda Germinada de Jardins Alheios

Que delícia! Essa linda língua, tão mestiça, é mais linda ainda no mestiço Brasil – tempero bom que faz palavra cantar e gente do mundo todo se encantar.

4 04 2015
peregrinacultural

Saboroso mesmo esse comentário do Agualusa!

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