Das perdas do divórcio…

21 06 2015

 

 

divorcio, willliam hogarthDivórcio

William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)

Gravura

 

 

Das perdas do divórcio…

Pouco se fala nas perdas emocionais do divórcio, fora o casal e seus filhos, se esses existirem. O vazio, a perda vai muito além do parceiro ou parceira. Com o divórcio perde-se também a família maior: os sogros, cunhados, sobrinhos, tios, todos que, um dia, foram considerados membros de uma unidade, de um universo familiar. Esses podem desaparecer de um momento para o outro como se engolidos por um buraco negro. Lá se afunda, no meio do nada, uma constelação de contatos, de alianças, de pontos de amizade e camaradagem.

Ontem soube que a mãe de meu primeiro marido, minha sogra, faleceu. Ela desocupou a posição oficial de minha sogra há muito anos, mas o coração é grande e em uma parte dele ela sempre reinou. Diferente do estereótipo cultural, eu gostava dela. Tomei-a como exemplo não só durante os nove anos do casamento, mas também nos anos que se seguiram, muito tempo depois, quando eu já fazia parte de outro círculo familiar, resultado de um casamento muito mais feliz.

Conheci minha primeira sogra, quando eu tinha dezesseis anos e namorava seu filho mais velho. Quatro anos depois, quando nos casamos, ela soube participar dos preparativos e ao mesmo tempo se distanciar quando necessário.

Depois de casada encontrei nela fonte de muitos conselhos práticos, de muita orientação da cozinha às costuras. Aprendi também o valor dos pequenos rituais; de viver sem dar extrema importância ao que os outros pensam; assim como o dar-se permissão por se ter um gosto diferente, um ponto de vista único. Minha sogra tinha um excelente senso de humor; era independente e determinada e ocupava-se nas ações filantrópicas com a mesma energia que dedicava à família. Era justa. Nos quase quatorze anos de convivência, tive momentos de grande aproximação, principalmente nos meses em que morei com ela, enquanto meu marido, fora do país, começava seu curso de doutoramento e eu, aqui, terminava o ano de estudos no Rio de Janeiro. Ela sempre me tratou bem, com carinho, atenção, respeito, camaradagem e cumplicidade. Por uma questão de afinidade, ela se tornou, de fato, membro do meu cosmos familiar.

O divórcio, fora do Brasil, de um casal sem filhos, trouxe um abismo sem fundo nesse relacionamento. Os filhos trazem com eles a obrigação de sempre se estar em contato com a família que era. No meu caso isso não foi necessário. Novos casamentos dos dois lados solidificaram a ausência. Ela, meu sogro, meus cunhados desapareceram. Levaram com eles parte das memórias da minha adolescência e todos os meus vinte anos. Minhas reflexões sobre aqueles quatorze anos estão indubitavelmente marcadas por essa família, em parte porque desde cedo me adaptei, por gosto e inclinação, a uma variedade enorme de atividades que nada tinham a ver com a minha família natural, mas que fizeram parte do meu dia a dia como membro desse clã. Perdi, assim como muitas outras pessoas em um divórcio, um bocado das referências pessoais. No meu caso da adolescência até ao adulto maduro.

O vácuo permaneceu como um ponto fraco e dolorido, até a minha volta ao Rio de Janeiro. Um dia, por coincidência, em uma livraria de Copacabana (minha sogra gostava de ler), ouvi a mocinha da caixa tomar o nome da senhora que estava à minha frente na fila. Era ela, minha primeira sogra. Chamei-a, nos reconhecemos e nos abraçamos. Lágrimas e sorrisos se misturaram, as duas se emocionaram. Muitos anos haviam se passado. Mas tanto foi dito naquele abraço! O meu foi repleto de saudades e de carinho. O encontro não durou muito tempo, o bastante para sabermos que ambas haviam sentido falta uma da outra e que ocasionalmente ponderávamos sobre a outra. Honramos nosso passado em comum. Trocamos pequenas informações e alguns telefonemas depois desse dia, nada mais do que meia dúzia, para desejar um Feliz Ano Novo ou Feliz Aniversário. Mas daquela tarde em Copacabana cheguei em casa feliz.  Era disso que eu precisava: nosso encontro finalmente fechou aquele ciclo da vida do qual participamos juntas. Tivemos a oportunidade do adeus. Não foi uma vida, nem tampouco uma semana. Quatorze anos contam, principalmente para uma adolescente à procura de modelos de vida e de comportamento que melhor expressem o seu íntimo. Minha primeira sogra foi importante nessa busca. Por isso mesmo sei que fui privilegiada em conhecê-la. Que a paz esteja com a senhora, D. Léa.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2015.

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10 responses

21 06 2015
Regina

Como você, Ladyce, eu gostava de minha sogra. Mesmo depois de divorciada mantivemos a amizade. A existência de filhos, ressalto, ajuda na aproximação com a família que deixamos, mas não na amizade que é, na verdade, o que dura e o que conta. D. Nete me ligava pra conversas triviais ou aquelas do fundo da alma. Meu sogro também ficou meu amigo quando eu já não fazia mais parte daquele grupo. Ambos se foram muito cedo e eu não tenho outros sogros.

21 06 2015
peregrinacultural

Que bom Regina. Acho que há muitas pessoas como nós que gostavam de suas sogras. Que experiência maravilhosa manter esse contato. Obrigada. Beijo,

21 06 2015
Gilberto

Ladyce seu texto está ótimo, adorei, viu como não doeu sair da casinha ? 😉
Sobre o divórcio a MM ( que não é nenhum Proust, mas entende bem de relações humanas) disse que acha interessante, pois mostra que estamos sendo mais sinceros ao assumirmos que não estamos felizes ou satisfeitos em alguma relação.

21 06 2015
peregrinacultural

Sim, sem dúvida, permanecer num relacionamento sem ser feliz é desonesto. Mas acho que poucas pessoas param para pensar nos bons aspectos que levaram ao casamento, aos anos em que o relacionamento ainda era feliz. Para muitos esses momentos são jogados fora com todo o resto. Também é desonesto.

21 06 2015
Gilberto

Depende , acho que dá para se viver na maioria dos casos mantendo o respeito por aquela história em comum que se teve, não quero dizer com isso que vão virar amigos do shop pq isso é meio estranho… mas dá para deixar aquilo que foi vivido em uma fase que passou.
E só respondendo novamente com MM
https://www.youtube.com/watch?v=qvyu7TVwdx0 do 1:57 a 2:00 acho muito válido , não ?

22 06 2015
peregrinacultural

Vi o primeiro dos filmes, não esse. Muito bom. Sim, há sempre que se respeitar o que foi vivido. É a única maneira de sermos honestos conosco, com os nossos sentimentos. Obrigada Gilberto.

21 06 2015
Valéria Miguez (LELLA)

O bom é que o destino lhe deu oportunidade de uma despedida com ela em vida!

Meus sentimentos!

22 06 2015
peregrinacultural

Foi bom mesmo! Foi um momento mágico. Obrigada Lella,

29 08 2015
Maria Helena Oswaldo Cruz

Que bom q. vc. fechou bem esse ciclo de vida! Um ótimo texto que diz tanto! Bjs.

29 08 2015
peregrinacultural

Obrigada Lenah!

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