Um alerta a tempo? Resenha: “Submissão”, Michel Houellebecq,

30 07 2015

 

Batalha de Poitiers, em outubro de 732, 1837, Charles de Steuben, (Alemanha, 1788-1856),ost, 542x465cm,Palacio de VersalhesOutubro de 732, Batalha de Poitiers, 1837

Charles de Steuben (Alemanha, 1788-1856)

óleo sobre tela, 542 x 465 cm

Palácio de Versalhes, França

 

 

Há livros que se lê pelo prazer da prosa, da trama, do suspense.  Submissão de Michel Houellebecq não é nenhum desses.  É um livro que força uma reflexão sobre o momento atual da Europa, da França, especificamente. É uma fantasia tão plausível, tão próxima da realidade, que o leitor se vê forçado a considerar possibilidades improváveis como quase certas, e o impensável torna-se realidade.  É chocante. O romance, passado por volta de 2022, ou seja meros 7 anos no futuro, de maneira racional, considera a possibilidade da eleição de um governo muçulmano na França.

Talvez o que seja mais desconcertante nessa narrativa é a lógica.  Por exemplo, quando Houellebecq menciona as forças armadas francesas necessitando de milhares de novos recrutas a cada ano e simultaneamente considera que a população tradicional francesa cada vez tem menos filhos, enquanto a muçulmana tem muitos, a lógica nos leva a admitir que em futuro próximo as forças armadas francesas serão em sua maioria muçulmanas. Esse é um aspecto da realidade francesa que nunca havia cruzado os meus pensamentos.

 

Capa Submissao_Alfaguara para novo padrao.indd

Isso é complexo?  Estranho? Desagradável? É.  Por que?  Porque teocracias como as defendidas pelos regimes islâmicos estão diametralmente opostas à herança cultural do oeste.  Temos que considerar se é esse é o futuro que se quer ter.  É essa a guinada que queremos dar no nosso presente?  O que ganhamos com ela?  Como mulher criada no ocidente, com valores de autoconfiança, de respeito próprio, com dedicação a uma profissão, que vota, dirige, se veste como quer, que se acha no direito de escolher o parceiro de vida, não acredito que venha a me adaptar às limitações de qualquer  uma das variações das teocracias islâmicas.  E não estou exagerando. Basta lermos relatos que aparecem diariamente nos jornais, livros como Infiel de Ayaan Hirsi Ali, entre outros para saber que o conflito cultural seria ou será gigantesco.

 

Michel HouellebecqMichel Houellebecq

 

Submissão não é uma obra para ser julgada pelos seus méritos literários.  Em geral, romances que defendem uma causa têm a tendência a serem enjoados, porque explicações são necessárias e rapidamente diálogos se tornam solilóquios didáticos.  Ainda que Houellebecq flerte com esse pecado, sua habilidade em fazer paralelos entre o escritor Huysmans e a própria vida do professor universitário que narra o romance esvazia um tanto o dogmatismo inerente desse tipo de criação.  Mas há passagens bastante aborrecidas, principalmente para leitores não familiarizados com a obra do escritor, ensaísta, crítico de arte francês Joris-Karl Huysmans.

Apesar dessa reserva recomendo a leitura como uma obra que ajuda a compreender parte do dilema europeu deste século.  Que haverá um embate entre essas crenças e filosofias de vida parece inevitável.  Resta saber quando.


Ações

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2 responses

30 07 2015
Alexandre Kovacs

Também li recentemente este “romance” e a situação que você descreveu muito bem é agravada pelo declínio da cultura européia na França e no ocidente de uma forma geral. Enfim, parece que o homem continuará os seus conflitos em nome de uma religião, mas com outros objetivos em mente.

31 07 2015
peregrinacultural

É assustador, Kovacs!

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