Resenha: “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata

31 07 2015

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roario mangaRosario Mangá.

 

Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores.  Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece.  E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando.  Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas.  Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.

Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível.  Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.

 

 

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O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje.  Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição.  Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.

 

kawabataYasunari Kawabata

 

Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais.  Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente.  Não é uma questão de ser politicamente correto.  É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos.  É isso.


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5 responses

24 04 2017
Katharynny

Olá! Ótima resenha! Vi algo sobre esse livro em um site e decidi procurar algo sobre ele antes de decidir comprar para ler de fato. Você acabou de me dar uma boa razão para desistir da ideia, parece ser meio literatura erótica e não leio esse tipo de coisa (por não curtir mesmo).
Ainda hoje, apesar de todos os avanços e de algumas significativas políticas modificadas, o Japão e a Coréia do Sul são países muito machistas, é algo arraigado na sua história cultural, infelizmente. Valeu!

24 04 2017
peregrinacultural

Obrigada!

16 07 2017
Igor

Olá! Não sou um crítico literário. Longe disso. Mas deixou aqui a minha impressão sobre o livro (se é que ela pode contribuir de alguma forma).

Li o livro e também um pouco sobre o autor, o qual, até onde sei, tem um grande desprezo pela figura masculina. A meu ver, a obra não exalta a masculinidade, mas trata justamente do contrário, nos convidando a refletir sobre a violência masculina. Ao trazer um cenário de exploração sexual de mulheres,ela nos mostra o quão degradante é machismo, que quase sempre se escora numa suposta maior suscetibilidade do homem ao prazer e na sua suposta fragilidade e solidão decorrente da senilidade como justificativa para abusos sem remorsos. Nos são apresentados homens que sequer escutam as mulheres, ou melhor, que buscam mulheres sem voz e estas, por sua vez, se expressam pela voz masculina, impossibilitadas de expressar a sua própria dor, de deixar o seu olhar sobre as circunstâncias degradantes que vivem. Um dado histórico que me parece muito pertinente a essa história é a relutância do Japão em reconhecer os abusos sexuais cometidos por militares japoneses contra mulheres coreanas, durante a guerra, as quais eram utilizadas como escravas sexuais.

De fato o leitor acaba sendo convidado à complacência com a figura do homem e acho que esse é o ponto genial da obra. Isso porque quando nos damos conta de uma certa conivência com a conduta do protagonista, seja pela sua velhice ou solidão, percebemos o próprio absurdo que mora em nós mesmos e a nossa capacidade de sermos perversos ao justificarmos nossa perversidade. Acho que, enquanto homem, fui convidado à angústia e a refletir sobre o quão absurdo é ser homem em meio a uma cultura machista, sob a qual a figura feminina é explorada de diversas maneiras, sobretudo na sua indisposição com a própria voz das mulheres.

Enfim, foram só impressões que tive com o livro.

16 07 2017
peregrinacultural

Obrigada! Ótima contribuição para a discussão do livro!

10 08 2017
Regina Porto

Ladyce, há poucas horas terminei de ler a Casa das Belas Adormecidas. Me obriguei a terminar esperando uma reviravolta que amenizasse minha irritação.Não houve a reviravolta e eu, confesso, que detestei. Monótono, as descrições são muitas e se repetem a cada jovem. O conteúdo incomodou a ponto de eu não conseguir contextualizar. Cru e desumano demais e necessidade do protagonista se provar ainda com a virilidade de que gostaria. Em momento algum consegui ficar conivente com o protagonista, por causa de sua solidão. Só consegui ver a exploração das jovens… grrrrrrrrrr.

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