Resenha: “Debaixo de algum céu” de Nuno Camarneiro

5 08 2015

 

Buildings in Buarcos, Portugal, Claire Nelson-Esch, Pencils, Ink, watercolour on paper, 13.5 x 21cm  ©Claire Nelson-Esch. httpclairelovesyouthismuch.blogspot.com.brEdifícios em Buarcos, Portugal

Claire Nelson-Esch (África do Sul, contemporânea)

Lápis, bico de pena, aquarela sobre papel, 13, 5 x 21 cm

©Claire Nelson-Esch.

Claire Nelson-Ech

 

 

Esta foi a minha apresentação ao escritor português Nuno Camarneiro, ganhador do Prêmio Leya de 2012, com esse livro. Tenho mantido contato próximo com autores lusitanos publicados aqui no Brasil. Acho que a literatura publicada além-mar anda muito interessante e não me canso de experimentar novos escritores. Por isso mesmo, mergulhei em Debaixo de algum céu com muita expectativa. Talvez mais expectativas do que deveria.

A ideia central de Nuno Camarneiro é muito interessante e rica em possibilidades: seguir a vida, por uma semana, de um grupo de pessoas que têm em comum habitarem o mesmo edifício de apartamentos. Rico em possibilidades, em caracterização de personagens de diversos caminhos, o tema é fascinante. A limitação de tempo e de lugar, onde muitos personagens exibem suas características não é estranho à literatura nem ao cinema. De Anjo Exterminador de Buñuel ao edifício de apartamentos, personagem do romance A beleza do Ouriço, de Muriel Barbery, exemplos abundam. Todos trabalhos de sucesso. Sucesso esperado por essa coletânea de histórias de Nuno Camarneiro, quase um conjunto de contos, não fosse a ocasional interação entre os personagens residentes do prédio.

 

Índice

Nuno Camarneiro preenche seu texto com uma série de frases de efeito, que certamente encontrarão lugar nos livros e sites de citações, frases inspiradas. No entanto a narrativa é fria. Controlada demais, quase sem interação de personagens, diálogos. Nem mesmo entre membros de uma família no mesmo apartamento há diálogos. Só ocasionalmente. Todos os personagens são taciturnos, reservados e sigilosos. Não há um que seja mais expansivo, não há um que quebre estrondosamente as regras. E, no entanto, apesar de vidas cerradas e quietas, nenhum deles se dá a indulgência de um hábito secreto, transgressor, uma mania, um comportamento fora do eixo, em sua intimidade, características que fazem qualquer personagem tridimensional. Resultado: todos são figuras de papelão. A presença do narrador se impõe em demasia tirando qualquer leveza do texto, qualquer mobilidade dos personagens. Tudo é visto e contado com a mesma voz em monótona narrativa, sem humor, sem ironia, demasiadamente contida e estereotipada. Por isso mesmo os capítulos são legendados para que se saiba quem narra aquele trecho.

 

Nuno_camarneiroNuno Camarneiro

 

A narrativa, mesmo assim, é ritmada e bem feita. Cheguei ao fim do livro com facilidade, sempre esperando que algo acontecesse de proporções adequadas às minhas horas de dedicação à leitura. O desfecho foi um tanto anticlimático. A rigorosa mão do autor pode ser sentida forjando acontecimentos que nem sempre parecem ser a consequência natural dos personagens. Vamos ver o que mais Nuno Camarneiro poderá trazer ao público, no futuro. Tenho a impressão de que o autor precisa se soltar. Com esse pulso de ferro, seus personagens não têm chance de crescer e nos surpreender e quem sabe surpreender até ao próprio autor?


Ações

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One response

5 08 2015
Gilberto

Eu gostei deste livro, mas sei lá o pq achei a primeira metade bem melhor do que a segunda.

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