Receitas e outras interrupções irrelevantes na literatura

14 08 2016

 

 

 

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Moda? Tendência?  Já notou como está na moda a sequência de notas totalmente irrelevantes ao desenvolvimento de uma narrativa, no meio de um texto?  Digamos um romance?  Não consigo imaginar a razão desse fenômeno.  Há alguns anos parecia uma característica de um ou outro escritor, mas agora, talvez por coincidência, parece que estou rodeada desses textos.  Nessas férias li dois livros seguidos com interrupções da narrativa para a apresentação de receitas culinárias.  Para quê?  Para parecer mais real?  Por que tenho que ler como se faz um risoto de aspargos quando os personagens de A delicadeza, de David Foenkinos, estão num restaurante conversando sobre outras coisas, não relacionadas à culinária?  Por que de repente me encontro com a receita do prato que eles pediram para o garçom?  Por que  isso é relevante?   Por que gastar a energia e a atenção do leitor quando esse detalhe não terá nenhuma relevância na história?

O mesmo ocorre com o recém-lançado Etta e Otto e Russell e James de Emma Hooper,  onde de repente, na página 54, não é suficiente sabermos que “Otto pegou  um cartão da seção de café da manhã/lanches” – e fez pãezinhos de acordo com a receita que encontrou.  Não.  Temos que gastar o nosso tempo de leitura com toda a receita, verbatim, de Pãezinhos de canela, para  logo em seguida, na página 56, sermos apresentados à receita de Testar o fermento, para os referidos pãezinhos.  Nada além disso irá acontecer a respeito desses pães.  Ninguém vira padeiro, ninguém é envenenado.  É uma aparição gratuita.

Não se trata em nenhum desses casos da história de um personagem envolvido numa cozinha, cozinheiro, ajudante de cozinha, ou alguém num programa de televisão de culinária.  Não.  São personagens com outras profissões. Com outros problemas. Não se trata de obras como A festa de Babette,  filme de 1987, onde o próprio fazer de uma refeição é o ponto central da trama.

Entendo que é uma moda: a mistura de receitas com texto.  Mas há que haver uma razão para isso, como houve  em  2011.  O oficial dos casamentos, livro do inglês Anthony Capella é um exemplo.  Um romance leve sobre o finalzinho da Segunda Guerra Mundial na Itália.  Havia receitas no texto, mas havia também uma cozinheira que era um personagem principal.

Reclamo de toda essa informação  descartável, desnecessária, desimportante que atola a imaginação do leitor com dados  insignificantes e totalmente desprezíveis.

Emma Hooper abusa do truque da informação irrelevante.  Depois da personagem Etta receber uma carta, a autora lista verbatim, cada carta resposta possível que Etta não escreveu. São sete as cartas começadas com a seguinte introdução:  “Quando Etta respondeu, não disse, [seguida de uma carta].  Sete vezes esse detalhamento do que não aconteceu.  Na oitava versão, a introdução: “O que ela disse foi, [páginas 140 e 141].  Ora pura preguiça de narrar e selecionar o que  é importante.

Espero que passe logo essa nova estética de “reality show” na literatura. Porque se eu quisesse novas receitas, acreditem ligaria a televisão nos canais especializados em culinária e aprenderia a fazer um jantar com os melhores professores, não iria ser um romancista a me dar aulas de pãezinhos ou risoto.  Posso aprender com os grandes chefes, diretamente de suas cozinhas.

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2 responses

14 08 2016
Gilberto Ortega Jr

Eu não sei se é impressão minha, mas isso ai parece com uma coisa que eu penso dos escritores estarem tentando narrar tudo,e acabam perdendo a noção daquilo que é mesmo importante…um tempo atrás li um livro do Mia Couto chamado e se Obama fosse africano ? onde ele transcrevia palestras dele, fiquei pasmado, o livro é mediano, mas fiquei pensando meu Deus os escritores perderam a noção de que tem coisas que o mercado editorial pode passar sem…..

14 08 2016
Maria Madalena

Concordo com você Ladyce, e isso só serve para aborrecer o leitor.

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