Da minha mesa de trabalho

29 08 2016

 

 

DSC01323Minha mesa de trabalho, semana 28.08.2016 — margaridas singelas.

 

 

O ponto alto do meu fim de semana foi um casamento. Um casamento diferente. O casal em questão já estava casado no civil há 21 anos.  Na época a situação financeira não permitia nada além do cartório. Mas ficou a vontade da cerimônia religiosa.  Apesar do convívio diário por décadas, os noivos estavam emotivos.  Era uma reafirmação de seus votos, dessa vez perante uma autoridade maior.  A filhota de 18 anos entrou com um dos tios, irmão da noiva: padrinhos. Sua irmã, onze anos mais nova, cobriu a passadeira até o altar com pétalas de rosas vermelhas e brancas.  Duas princesas orgulhosas por seus papeis na vida familiar. A cerimônia transcorreu como qualquer outro casamento, mas o aplauso da plateia de parentes, amigos e vizinhos foi emocional após os votos de fidelidade enunciados e jocosa quando o padre permitiu o beijo nupcial. O clima na igreja,no entanto, foi diferente daquele a que estamos acostumados nos casamentos jovens, de primeira viagem. Não havia aquela tensão dos familiares de um lado ou de outro que se desconhecem. Não havia a esperança de que os noivos pudessem levar o comprometimento por alguns anos.  Como numa cerimônia de bodas de prata todos ali já se conheciam, já tinham se tornado família e amigos do casal, já formavam a unidade familiar que inclui os dois lados, todos se conheciam e conseguiam brincar uns com os outros. O que diferenciou este casamento de outros foi a realização de um sonho de muitos anos, adiado, postergado, frustrado, malogrado pelo sobreviver, pelo trabalho, pelas doenças dos pais, escola para os filhos, pelo bem-estar do núcleo familiar. Por isso o júbilo, a alegria ebuliente, que contagiou a todos.   A festa foi modesta pelos padrões de hoje, mas a alegria e o bom convívio foram genuínos. Estão de parabéns os noivos e suas duas filhas.

Voltei para casa feliz e só na manhã seguinte, refleti  sobre minha reação ao evento.  Por que achei a realização de um sonho acalentado através das intempéries naturais da sobrevivência tão emocionante?  Inusitado mesmo. Por que me emocionei com a realização de um sonho tão pessoal de outra pessoa? Por que achei os votos trocados neste altar mais sérios do que os de outros casamentos que testemunhei?  Havia ali verdadeiro comprometimento e honestidade. Pensei na grandiosidade dos casamentos de hoje, verdadeiros eventos de multidões de convidados, bufês e música até a manhã seguinte. Haveria com isso uma banalização do compromisso que perde a berlinda no meio de tantas distrações?  Ou talvez seja porque acho cada vez mais difícil encontrar aqueles que genuinamente se dedicam aos compromissos que têm com os outros e consigo mesmos. Será?

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16 responses

29 08 2016
Maria Faria

Olá! Que mesa de trabalho inspiradora, linda mesmo!
Eu vejo nos casamentos atuais um espetáculo sem graça, acho tudo muito teatral e desgastante. Acredito que isto seja porque não acreditamos mais que duas pessoas persistirão juntas, vamos ao espetáculo crentes que os noivos não passarão nas provas da vida. No casamento que você menciona, além da simplicidade agradável, a diferença está no fato de que os noivos já provaram sua persistência. Vocês estavam ali assistindo a uma cerimônia da verdade e não do que poderá ser. Pode acreditar que não foi só você que teve esse sentimento. Abraço!

29 08 2016
peregrinacultural

Você tem razão. Os meios de comunicação se transformaram e hoje todo mundo vive como num palco, pronto para ser fotografado, filmado e ciente do melhor ângulo do qual a câmera deverá perpetuar a imagem de seus feitos.

29 08 2016
Valéria Miguez (LELLA)

Que mesa de trabalho inspiradora, linda mesmo! [2]

Meus pais casaram apenas no civil. Fizeram um almoço para celebrar… Tudo porque o dinheiro que seria gasto numa cerimônia religiosa usaram na casa que iriam morar… E viveram por 61 anos de casados. Onde a morte do meu pai que os separaram.

Sobre os casamentos de hoje… Sei de noivos que gastaram mais de cem mil com tudo – igreja e festa – sem nem ter onde morar… Enfim, cada um paga pelo seu prazer pessoal..

29 08 2016
peregrinacultural

Sim. Eu também só sou casada no civil.

Quanto às festas de casamento parece que alguns querem viver a fantasia, antes que ela acabe no casamento. Já testemunhei casamentos com festas espetaculares, com a união acabando em divórcio menos de um ano depois. Dois casamentos assim.

29 08 2016
Valéria Miguez (LELLA)

O final do meu comentário não foi crítica a ninguém! Embora eu não veja porque de muito dinheiro em festas, porque deveriam usar essa grana para viagens… Há quem gostem disso!

29 08 2016
peregrinacultural

A propósito da minha mesa de trabalho: há muitas semanas comecei a colocar fotos da minha mesa de trabalho na minha página pessoal do Facebook. Isso surgiu quando uma amiga minha se surpreendeu quando disse a ela que a encontraria um pouco mais tarde porque precisava passar na feira e comprar flores para a minha mesa de trabalho. Ela não acreditou que isso pudesse ser tão importante. Mostrei a ela como as flores são usadas e disse que para uma pessoa que passa a grande parte do dia em frente a uma tela de computador, ter essas flores é sempre um alento. É uma pequena quantia que me dá muito mais em retorno do que eu gasto em comprá-las.

Troco a foto no meu perfil particular toda segunda-feira, porque podendo, uso flores diferentes a cada semana. Elas são compradas às sextas-feiras e fotografadas aos domingos quando passo a escrivaninha por um processo ritualístico de limpeza, organizando papéis, jogando fora o que não é necessário.

29 08 2016
Eduardo Pereira

Estou agitado no meu trabalho, por causa das férias daqui a duas semanas. Mas não posso esperar 30 dias para comentar. Senão os 30, viram 300 ou nunca. Parabéns pelo Texto. Texto, não. Crônica. E de primeira…Daquelas que alegram o dia….

29 08 2016
peregrinacultural

Obrigada Eduardo. Você sempre me incentivando. Boas férias, tenho certeza de que são merecidas.

30 08 2016
Maria Helena Oswaldo Cruz

Tanto o texto quanto a foto são excelentes. Parabéns.

31 08 2016
peregrinacultural

Obrigada Lenah.

30 08 2016
Letícia Alves

Ladyce,

Adoro as fotos que você coloca da sua mesa de trabalho!
Agora com minha mudança, terei uma nova mesa, mas não terei flores, porém, tenho uns bibelôs que vou colocar perto de mim como alento à reta final da escrita da tese.
Quanto à sua observação sobre o casamento, assino embaixo.

Boa semana!

Beijos,

Letícia

31 08 2016
peregrinacultural

Obrigada duplamente Letícia. Passo 14-16 horas por 4 dias por semana no computador. Parece incrível e é. Tenho três dias de folga. Tenho dado aulas de 8 horas seguidas para cursos de pós que preenchem só os fins de semana. São maratonas não só para mim professora, mas para os alunos também. Por mais interessante que eu possa ser, 8 horas da mesma pessoa é DOSE! Isso requer muita preparação, ainda por cima, porque continuo dando as minhas aulas particulares para um grupo às quartas-feiras, pessoas que estão comigo há 4 anos. Daí o número de horas preparando slides de obras de arte, mapas, etc. Há horas em que penso em desistir… Trazer as flores para a minha mesa de trabalho tem ajudado a preencher a necessidade de pausa e o equilíbrio mental.

A ideia de colocar objetos de que você gosta deve atenuar de maneira semelhante esse período de PhD por que você passa. Acho que vai ser ótimo.

Boa semana, beijinhos,

30 08 2016
mariel

Casamento é um sim diário, hum?

31 08 2016
peregrinacultural

Ultimamente tem sido de hora em hora!

31 08 2016
mariel

Não consegui manter o sanduiche e o riso na mesma cena, se me entende.

31 08 2016
mariel

Para deixar claro. Rir e comer sanduiche não dá certo

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