Resenha: “Imperatriz Orquídea” de Anchee Min

17 09 2016

 

 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÓpera de Beijing, o mestre dos fantoches

Zhang XuanZheng (Huxian, China,1954)

aquarela, guache sobre papel de arroz, 25 x 25 cm

 

 

 

Não conheço a história da China. Como qualquer pessoa do século XX, mais ou menos educada, sei dos principais eventos da história recente do país. Mulheres de pés amarrados, milhões de bicicletas no trânsito, aquarelas, Hong Kong skyline, finíssima porcelana, Ano Novo fora de época, papel de arroz, I Ching, peões de chapéus pontudos no campo, dragões, Mao, O livro vermelho, homens de rabichos, a muralha, pandas, comida deliciosa, chá,  perspectiva axonométrica, crisântemos, Charlie Chan e seu filho nº 1 são alguns dos dados que correm pela minha imaginação quando penso na China.  Sobre o país li muito pouco. Ainda adolescente li da biblioteca de minha mãe, alguns livros de Pearl S. Buck: Pavilhão de mulheres, Vento leste, vento oeste, Mulher imperial.  Mamãe também era fã de Lin Yu Tang;  dele só li Um momento em Pequim. Encontrei Jung Chang, recentemente, autora de Cisnes Selvagens: três filhas da China, até hoje um dos meus livros favoritos e Qiu Xiaolong, cujas obras centradas no Inspetor-chefe Chen Cao,  detetive, filósofo e poeta, passaram a ocupar a prateleira da leitura preferida – The Death of the Red Heroine, A Loyal Character Dancer,  When Red is Black, A Case of Two Cities.  Mais recentemente enveredei pelas obras da jornalista Xinran: Enterro Celestial, uma obra de impacto pela espiritualidade, e As Boas Mulheres da China.  Fiz a curadoria de uma exposição de aquarelas chinesas recentes, pós anos 60, produto de um esforço do governo comunista de dar uma ocupação a peões do campo ociosos durante o inverno.  Essas imagens e mais algumas resumem o meu conhecimento sobre a China, nada especial e absolutamente incompatível com o tamanho e a importância do país.

Essa introdução contextualiza minha incredulidade sobre boa parte desse romance histórico enaltecedor da mulher manchu, Yehonala, concubina do Imperador Hsien Feng. A Imperatriz Orquídea, como ficou conhecida ou “Tzu Hsi” – Imperatriz do Palácio Ocidental –figura controversa em qualquer verbete enciclopédico — reinou sobre a China como regente de seu filho Tung Chih, que era infante ainda, quando se tornou órfão do imperador Hsien Feng.  Yehonala sobreviveu a um atentado de golpe, às Guerras do Ópio, à Rebelião Tai Ping em Nanquim, e à Rebelião Boxer e morreu em 1908.

 

 

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Anchee Min tinha nas mãos um excelente assunto. Pela própria figura controversa, tinha um número razoável de opções de narrativas. Talvez para agradar a uma fatia específica do mercado, transformou a história dessa regente, numa variação de Cinderela: menina pobre descoberta pelo príncipe encantado e escolhida para ser sua concubina.  Apimentou a narrativa fazendo a jovem concubina, ainda despercebida pelo imperador, fugir da Cidade Proibida para receber aulas de sedução num prostíbulo.  Mesmo para quem pouco sabe a respeito da história da China, imaginar que uma jovem já dentro da Cidade Proibida, escolhida pelo imperador, mantida a sete chaves na companhia de observadores eunucos, pudesse fazer isso é algo inimaginável. Anchee Min aproveitou-se de dados nebulosos  sobre a vida de Yehonala, para tecer um romance fantasioso que compromete o resto de sua pesquisa história.

Como se precisasse nos seduzir pelo exotismo, passamos quase metade deste romance focados nos rituais da corte chinesa, a cada virada dedicados a sabermos dos mais infinitésimos detalhes, das descrições detalhadas de bordados de flores na túnicas usadas, aos noventa e nove pratos de comida servidos unicamente para ela, concubina — uma de muitas — a  detalhes sórdidos que não contribuem para a história, a não ser chocar, como o fedor que acompanhava as centenas de eunucos que ao serem castrados são incapazes de controlar o esvaziamento da bexiga.  Para quê?  Meio livro gasto nessas elucubrações, nas fantasias do dia a dia da concubina. Na segunda metade do livro, quando Yehonala se torna regente do país e enfrenta inimigos dentro e fora da corte, terreno mais fértil e de maior interesse histórico Anchee Min deixa o detalhismo contundente de lado e usa de pinceladas corridas para pintar um cenário impressionista sobre essa mulher que surpreendeu o mundo por sua habilidade política e pelo enfrentamento que teve com os poderes europeus e aqueles de dentro de sua própria corte. Passa-se do detalhismo do luxo à simplificação e superficialidade de eventos conhecidos envolvendo a Imperatriz Orquídea.

 

anchee-main_telegraphAnchee Min

 

Para fazer justiça ao leitor da resenha preciso anunciar que minha opinião foi a mais radicalmente contra essa leitura num grupo de vinte leitoras que gostaram do livro. Se você se aventurar a lê-lo tenha em mente que a classificação Ficção Histórica, neste caso está mais para a ficção do que para a história. Desapontada, de cinco estrelas dou três, simplesmente porque cheguei até o final.

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Ações

Information

2 responses

17 09 2016
Letícia Alves

Que coisa né? não existe outro livro que fale da Imperatriz? nem vou me dar ao trabalho de colocar na minha lista infinita.
Beijos!

18 09 2016
peregrinacultural

Pois é, a minha frustração foi grande. Obrigada pela confiança.

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