Sobre artistas , escritores ou pintores, texto de Ian McEwan

30 10 2016

 

 

botero-fernando-nun-readingFreira reclinada, lendo, 1986

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

óleo sobre tela

 

 

“Certos artistas, escritores ou pintores, florescem em espaços confinados como os bebês em gestação. Seus temas estreitos podem desconcertar ou desapontar algumas pessoas. Rituais de fazer a corte entre os membros da pequena nobreza do século XVIII, a vida sob os velames de um barco,coelhos falantes, lebres esculpidas, retratos de gente obesa, de cachorros, de cavalos, de aristocratas, nus reclinados, milhões de cenas da natividade, crucificações, subidas ao céu, tigelas com frutas, flores em vasos. E pão e queijo holandeses com ou sem uma faca ao lado. Alguns escritores de prosa cuidam apenas de seus egos. Também no campo científico há quem dedique a vida a uma caramujo albanês ou a um vírus. Darwin consagrou oito anos às cracas. E, mais velho e mais sábio, às minhocas. Milhares de pesquisadores passaram a vida correndo atrás do bóson de Higgs, uma coisinha de nada. Estar  circunscrito a uma casca de noz, ver o mundo em cinco centímetros de marfim, num grão de areia. Por que não, quando toda a literatura, toda arte e a iniciativa humana não passam de uma partícula no universo das coisas possíveis? E mesmo nesse universo pode ser uma partícula numa infinidade de universos reais e possíveis?”

 

Em: Enclausurado, Ian McEwan, São Paulo, Cia das Letras: 2016, tradução de Jorio Dauster, páginas 69-70;

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3 responses

31 10 2016
anisioluiz2008

Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

31 10 2016
Eduardo Pereira

Boa tarde, Ladyce,

Não sei se interpretei corretamente, mas o autor parece fingir ridicularizar a lente de aumento com que certos artistas imprimem à sua visão particular e subjetiva, para no fim, exaltar justamente o que parecia querer desqualificar…Eu ficaria um pouco com a primeira parte, principalmente no tocante a boa parte da literatura brasileira.

Como se percebe nos últimos anos, a visão marxista ( ainda majoritária) da cultura, não só da política, tem percebido que seu espaço, outrora monopolizado, tem sido “invadido” por pensadores, digamos “conservadores”, mais precisamente alinhados com a tradição Judaico-Cristã Ocidental, tão combatida a partir de fins dos anos 60.

Críticos literários, como Rodrigo Gurgel, Martim Vasques da Cunha ( autor do interessante “”A poeira da glória”, filósofos como Roger Scruton e Theodore Darlymple ( autor do excelente: “A Nossa Cultura… ou O que restou dela…), Economistas como Thomas Sowell, tem sido descobertos e lidos por jovens, e mesmo que em pequena parcela, contribuíram para a virada política no Brasil, nos últimos 3 anos…

Voltando para a literatura brasileira, me fizeram notar – não fui eu que percebi, mas concordei que é muito verdadeiro – que nossos escritores escrevem para si mesmos, com uma visão subjetiva, uma linguagem rebuscada e desnecessária, dentro mesmo de suas pequenas “cascas de noz”. Essa seria a razão porque a literatura brasileira seja tão chata.

Macunaíma é o Top da chatice. Parece que, se somos incapazes de criar um romance como “Os irmãos Karamazov”, com sua reflexão universal, ou mesmo “Guerra e Paz”, mostrando numa estória de amor, o que era a Rússia de 1917, nossos autores preferiram – por inveja – se deter entre o ridículo e grotesco de uma estória suja e a auto-contemplação de escritores ( há exceções) narcisistas que jamais serão universais, que embora, traduzidos, o são, penso eu, apenas pelo gosto do “exótico”…

1 11 2016
peregrinacultural

Eduardo, você tem toda razão. Houve uma espécie de lavagem cerebral feita pela esquerda que atingiu em cheio os nossos intelectuais. Numa tentativa de corrigir algumas lacunas em branco na cultura brasileira, levaram o pêndulo cultural para um ponto de extremismo anteriormente impensável. Muitos chegaram ao cúmulo de tentar dissociar a cultura brasileira das tradições judaico-cristãs que fazem parte de todas as culturas ocidentais, e certamente da cultura brasileira predominante.

Acho muito do que é escrito no Brasil no momento muito chato. Voltados para si mesmos esses autores “badalados” pela imprensa e pela maioria dos críticos produz uma literatura patética, intragável. Perece que todos pensam que para serem considerados importantes precisam ser herméticos. Um grande número das traduções de que você fala têm sido sistematicamente ajudadas pelo Ministério da Cultura no Brasil que subsidia parte do custo. [Até o governo passado]. Não são editoras privadas que investem seu próprio dinheiro apostando que a literatura brasileira contemporânea irá agradar seus leitores. Há exceções.

Os ventos estão mudando. Por incrível que pareça acredito que a farta comunicação entre culturas permitida pela internet tem ajudado a aerar o estado das coisas no Brasil. Mas estamos longe de termos na literatura, na poesia, nas artes plásticas, a pluralidade que um país gigantesco como o nosso deveria fomentar. Ainda há falta de educação formal.

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