Resenha: “Enclausurado” de Ian McEwan

15 12 2016

jovem-gravida2010-dimitri-kozma-servia-1944-tecnica-mistaJovem grávida, 2010

Dimitri Kozma (Sérvia, 1944)

técnica mista

Enclausurado é uma história de suspense.  Um casal de amantes planeja um assassinato.  A vítima é o ex-marido da futura assassina, e irmão de seu parceiro no crime.  Há, no entanto, uma testemunha desses planos: o feto que a mulher leva na barriga, narrador da improvável história

Todos os personagens do livro são detestáveis, com exceção dele, inocente, observador e participante à revelia da trama. Este não é um feto qualquer, já teria passado no ENEM caso pudesse ter feito a prova.  Ele entende de tudo, do meio ambiente ao melhor vinho.  Não porque sua mãe converse com ele, como hoje mães fazem, ouvindo música clássica para o futuro bebê nascer com memória musical engendrada; falando inglês, francês ou japonês para que ao nascer a criança já conheça a estrutura verbal da língua.  Não, não se trata dessas mais novas teorias aplicadas.

Trata-se ao contrário, de mãe desregrada que bebe constantemente apesar da gravidez, dando ao feto sofisticado gosto por vinhos, capaz de eleger o de que mais gosta.   É um feto que aprende sobre o mundo da ecologia à genética graças aos programas de entrevistas, documentários, podcasts  favoritos da mãe. Quando entediado o feto – que não tem nome – chuta a barriga da mãe no meio da noite para acordá-la e levá-la aos programas no rádio ou televisão de onde tira seus conhecimentos.

enclausurado_1471830770604654sk1471830770b

O pai, um poeta caricatural, preocupado com o amor em letras maiúsculas, não se apercebe da trama em que se vê envolvido.  Mas não é uma vítima que nos toque emocionalmente. Nenhum personagem adulto é simpático.  Só mesmo o feto, essa voz dominante que não consegue detestar sua mãe, ama-a, de fato, mesmo sabendo de seu mau caráter.  Mas que mais poderia fazer?  Sua vida depende dela. De particular senso de humor são as opiniões que o feto tem de como deveria ser educado; o que poderá vir a ser prejudicial ao seu crescimento, o que os pais não deveriam fazer.

Contando no humor, McEwan realiza um grande feito narrativo, de controle inigualável. E uma vez aceita a premissa do  feto pensante, inteligente, com um rico vocabulário, não há como não simpatizarmos com esse futuro bebê. Até mesmo quando de maneira patética ele considera a fragilidade de seu próprio destino. Nossa solidariedade é engajada, desde o início e torcemos para que tudo dê certo no final, que é surpreendente e lógico.  Gratificante.

ian-mcewan-014Ian McEwan

É um trabalho memorável de técnica narrativa. É uma obra de pequeno porte, meras 196 páginas, de leitura fácil, descomplicada, com assuntos do dia a dia. No entanto, não deixa de ser um trabalho de um único truque, ou melhor, de uma única piada.  Ou seja, limitado por sua própria  estreiteza temática. Por isso, e só por isso não chega, na minha opinião, a ser tão grandioso quanto os críticos literários de renome o consideram, mesmo que aluda, aqui e ali, à obra maior, de Shakespeare: Hamlet. Não encontrei nessa obra nem a profundidade, nem o panorama filosófico tão aclamado.  É um livro divertido, que nos leva a considerar o mundo por ponto de vista inusitado. Diverte. Dá para apostar que o autor se divertiu imaginando a trama.  Um bom presente de Natal, para qualquer leitor.

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar


Ações

Information

3 responses

15 12 2016
mariel

Parece bem bem bom. Vou dar de natal pra esse que vos escreve

17 12 2016
Maria Faria

Olá! Já queria muito ler e sua resenha acabou aguçando ainda mais minha curiosidade!

19 12 2016
peregrinacultural

Ai, ai, ai, fico muito apreensiva quando sei que tomam decisões baseadas nas minhas resenhas, rs. Por experiência com meus grupos de leitura sei que meu gosto não é o mais popular, nem o mais abrangente. Sou um pouco exigente, e não gosto muito de emoções à flor da pele. Até pareço meio britânica porque gosto de sentir as emoções sem que elas sejam descritas para mim. A maioria dos críticos adorou este livro, não evitando uma enormidade de bons adjetivos. Eu já encontrei algumas limitações ainda que reconheça que diverte. Vamos ver o que você acha. Um ótimo 2017. Estou tirando umas férias, saindo do RJ neste fim de ano e apesar de colocar algumas postagens pré-programadas, não pretendo estar ao alcance do computador com frequência, nem mesmo através do telefone. Férias são férias. Quero um pouco de distância, alguma leitura e muita arte no meu caminho. Mas volto em meados de janeiro. Boas festas e que 2017 traga mais justiça e paz para todos nós.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: