Imagem de leitura — Reynaldo Fonseca

28 02 2017

 

 

 

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A leitora, 2011

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm





Máscaras sem Carnaval: Reynaldo Fonseca

27 02 2017

 

 

 

menino-com-mascara-1973-reynaldo-fonsecaMenino com Máscara, 1973

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

 

 

Nós todos temos favoritos: escritores, pintores, poetas, compositores. Sou eclética na leitura e por força da  minha profissão sou eclética sobre meus artistas plásticos favoritos.  Conhecimento, tenho certeza, leva ao entendimento e muitas vezes à preferência por um artista.

 

 

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Menino mascarado, 2008

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 70 x 50 cm

 

O pernambucano Reynaldo Fonseca está entre os meus pintores favoritos.  Há calma em suas telas. Há mistério.  Mesmo quando pinta personagens sem máscara. Suas imagens são explicitas, claras, não deixam dúvidas sobre o que é retratado.  Mesmo assim há mistério.  Seus quadros nos convidam a resolver uma charada cujos paradigmas não conhecemos. Ou será que estamos frente a uma parábola? Quem frequenta este blog já conheceu muitas obras de Reynaldo Fonseca.  Hoje, por estarmos no meio do Carnaval, concentrei-me naquelas em que a máscara aumenta o enigma.

 

 

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Mascaradas com gato, 2003

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

Reynaldo Fonseca foi aos onze/doze anos aluno ouvinte na  Escola de Belas Artes de Pernambuco, em 1936. Depois, por um breve período, foi aluno de Portinari, tendo estudado anteriormente com Lula Cardoso Ayres. Eventualmente, aos vinte e três anos, em 1948, vai à Europa.

 

 

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Mulher de vestido vermelho com máscara, 1973

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela 46 x 38 cm

 

Seu conhecimento da arte ocidental pode ser sentido.  Há um nítido aceno à arte da Renascença Italiana, sobretudo aos pintores do século XV, tais como Antonello da Messina, Giovanni Bellini, Boltraffio, Domenico Ghirlandaio, Filippino Lippi entre outros retratistas, florentinos em sua maioria, trabalhando antes de 1500.  Outro detalhe aproxima essas telas da pintura renascentista é a maneira como Reynaldo Fonseca assina seus trabalhos: muitas vezes com monograma com suas iniciais, ou com o nome escrito em grandes maiúsculas como Dürer fazia, bem no centro da tela, ou ainda, numa etiquetas pintada na tela, num rótulo.  Desde cedo ele tem a intenção de deixar a sua marca.

 

 

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Mascarado, 2007

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela,  60 x 80 cm

 

Mas o conhecimento dos mestres que o precederam não fica por aí. Seus quadros têm a força dos ícones bizantinos, com segundos planos simples, muitas vezes divididos em duas cores como na tela acima, espremendo visualmente as figuras entre o plano visual do espectador e a parede perceptível  mais atrás que não deixa o olhar fugir para outro plano mais distante.  As figuras, o que é representado, então, toma característica de importância e nos obriga a dialogar com o que vemos.

 

 

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Mulheres de máscaras e leque, 2006

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

Mesmo quando há uma janela ou uma porta no segundo plano como na tela acima, ela ou é fechada por uma parede mais além ou é em grande parte ocupada por um personagem  olhando para dentro, ou retorna o nosso olhar, olho no olho. Além do pequeno campo de visão atingido através dessa maneira icônica de pintar, a palheta reduzida a tons de terra, e dourados, com o uso de branco, vermelho ou negro, em cores sólidas, para contraste, auxiliam na lembrança dos ícones bizantinos.

 

 

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Família, 2000

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

 

Poucas são as telas com muitos personagens como acima.  Elas aparecem com maior frequência nas últimas décadas dessa longa carreira do artista e em geral representam uma família ou membros de uma família. Mesmo nesse caso continuamos a sentir sua impenetrabilidade. As pessoas parecem não se comunicar, ou fazê-lo de maneira comedida, silenciosa, circunspecta, como se participassem de um ritual sacramentário que nos elude.

 

 

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Flautista mascarado, 1970

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 73 x 50 cm

 

 

Mesmo os muitos personagem retratados sós, como o flautista mascarado acima, nos parecem impenetráveis ainda que façam algo que conheçamos, como tocar um instrumento musical, brincar com um pássaro; ou uma criança brincar com um velocípede, correr pela rua com um aro, fazer o dever de casa, caderno na mesa e lápis em punho.  Essas cenas que poderiam facilmente serem chamadas de pintura de gênero, ganham peso e importância, pela solenidade com que são apresentadas. E pela solidez, massa mesmo, de seus personagens.

 

 

 

reynaldo-fonseca-1925-flautista-com-mascara-chapa-industrializada-ass-e-datado-1996-cie-e-verso-55-x-33-cmMenina flautista, 1996

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre placa de madeira industrializada,  55 x 33 cm

 

A forma dos corpos retratados por Reynaldo Fonseca parece baseada em alguma equação matemática, em princípios geométricos que nos escapam. Essa técnica lembra a dedicação que Piero della Francesca tinha  à geometria, lá nos idos do século XV.  Enquanto que a solidez das formas cilíndricas, dos círculos e  meios círculos, tem precedência na arte brasileira de outro pernambucano, Vicente do Rego Monteiro, o grande pintor cubista brasileiro.

 

 

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Menino com máscara, 1971

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 73 x 50 cm

 

A tendência de reduzir formas naturais a geométricas convive bem com outros tipos de abstração na arte contemporânea.  Temos pintores como Inos Corradin que levaram essa maneira a um extremo, passando antes por Aldemir Martins entre outros.  Fora do Brasil, também contemporâneo há o pintor colombiano Botero.

 

 

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O pequeno mascarado, 1976

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre placa,  22 x 16 cm

 

O retrato de seus personagens-esfinge vem desde o final dos anos 60 em suas obras, mas nessas primeiras décadas, ainda havia um jardim ao fundo, vegetação e céus azuis como nos primeiros retratos renascentistas, como no retrato do menino mascarado acima de 1976, ou no que abriu esta postagem, do menino de 1973.  A perda de espaço visual entre a superfície da tela e o fundo, tornando cada tela num verdadeiro ícone,  foi sendo estabelecida aos poucos ´durante a década de 1970.

 

 

reynaldo-fonseca-brasil-1925-caminhantes-1969-ostCaminhantes, 1969

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

Coleção Gilberto Chateaubriand

 

A obra de Reynaldo Fonseca merece um estudo detalhado.  Ele é um dos nossos grandes pintores do século XX.  Não se deixou influenciar por modismos.  Traçou seu caminho e não se desviou.  Criou uma linguagem própria e seu próprio espaço.  Tem muitos discípulos que aos poucos trabalham seus próprios caminhos.  Sua influência é clara e tenho certeza que será marcante no futuro. Obras como as dele não morrem.  Estão sempre refletindo nossos próprios segredos, elas nos lembram daquilo que não conseguimos entender mas sabemos existir. Reynaldo Fonseca nos presenteia com um misto de metafísica e surrealismo, numa linguagem autêntica, própria a ele  mesmo e nos toca porque sabemos que ele também perscruta o universo à procura das respostas do mundo que lhe fogem.

 

 

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Figura com máscara e cachorrinho, 1970

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

.óleo sobre tela, 100 x 73 cm

 

reynaldo-fonseca-mulher-de-mascara-e-leque-80-x-60-cm-ost2009Mulher com máscara e leque, 2009

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

 

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Figura feminina com máscara, 2002

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

pastel sobre papel, 70 x 50 cm

 

 

reynaldo-fonseca-brasil-1925-mulher-com-mascara-oleo-sobre-papel-70-x-50-cm

Mulher com máscara

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre papel, 70 x 50 cm

 

 

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Homem mascarado, 1972

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre placa de madeira industrializada, 16 x 22 cm

 

 

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Mãe e filha mascarada com espelho, 1997

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 101 x 82 cm

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Nossas cidades: Arraial do Cabo

27 02 2017

 

 

 

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Arraial do Cabo, ao fundo Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, 1986

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela, 30 x 30 cm





Imagem de leitura — Georges van Houten

26 02 2017

 

 

 

van Houten, Georges, 1888-1964; Portrait of a Seated Lady in Yellow and Green Reading

Sra. em amarelo e verde lendo, 1927

Georges van Houten (Bélgica, 1888–1964)

óleo sobre tela

Examination Schools, University of Oxford

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A máscara, de Ladyce West

26 02 2017

 

 

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Mulher com máscara, 2005

Lucia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

A máscara

 

Ladyce West

 

 

Máscara?

Que máscara?

Somos todos mascarados.

Cada qual com seu disfarce

Na passarela, no palco,

Na escola, na corte,

No hospital, no bar da esquina,

Na reunião em família,

Na lágrima sem dor.

No Bom Dia! Na Boa Noite!

No “foi bom para você”?

No obrigado ingrato.

Até os super-herois precisam de suas máscaras.

Não me venha com essa de tirar a minha máscara.

Você me reconheceria?

E ao espelho de manhã?

Fazendo a barba.

Tem certeza de que sabe quem está do outro lado?

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, dezembro, 2016.




Domingo, um passeio no campo!

26 02 2017

 

 

 

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Casario, década de 40

Alfredo Volpi (Itália/Brasil, 1896 – 1988)

óleo sobre tela colada em eucatex, 38 x 34 cm

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Resenha: “A resistência” de Julián Fuks

26 02 2017

 

 

 

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Figuras, 1956

Tomás Santa Rosa ( Brasil, 1909-1956)

técnica mista sobre papel, 50 x 66 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura se dividiu a favor e contra o livro A resistência, de Julián Fuks.  Somos vinte.  Foi meio a meio.  Para minha surpresa estou do lado dos que gostaram.  Surpresa porque eu e o Prêmio Jabuti temos tido através dos anos visões opostas de valor. Minha discordância tem sido sistemática.  Em geral, prefiro os segundo e terceiro colocados ou nenhum deles.  Portanto, já começo a ver Julián Fuks como exceção.  Ou será que meus parâmetros estão mudando?  Fica a dúvida.  Qualquer que seja a resposta, o fato persiste, li o livro, fui até o fim (acreditem-me não tenho pena de deixar livros de lado, se não gosto), e ao final gostei da experiência.

O que me pegou nessa pequena obra, foi o tom. Bom narrador, Julián Fuks navega com  destreza do início ao fim, através das inúmeras reflexões do personagem principal. Tom e voz narrativa são valores difíceis de quantificar, mas, para mim, são a porta de entrada para leitura. Além disso,  A resistência  combina o gênero da memória com reflexão, combinação que ao longo dos anos tem-se tornado um dos meios narrativos que mais me satisfazem.

 

 

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A história trata de uma obsessão: o narrador, Sebastián, quer entender o que levou o irmão mais velho a se afastar emocionalmente do resto da família na época em que se tornava um jovem rapaz. O narrador é um de três filhos de um casal de imigrantes argentinos que se estabeleceu em São Paulo. O filho mais velho foi adotado, ilicitamente, ainda na Argentina, no período em que o casal se esforçava, sem sucesso, para ter filhos.  Adotaram afinal um menino, na mesma época de instabilidade política no país que eventualmente os levaria a imigrar para o Brasil.

Acredito que no afã do marketing, na vontade de seduzir o leitor com um assunto politizado, de vanguarda,  tomou-se a infeliz decisão de enfatizar passagens da política argentina, como se fossem centrais à trama. Ainda que a palavra ‘resistência’ tenha tido um cunho político, principalmente durante governos ditatoriais, aqui a política não passa de evento circunstancial, cortina de fumo, distração ilusória que encobre a verdadeira trama, explicitamente colocada no primeiro parágrafo do livro. “…Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter.  Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.” Aí está toda linha dramática do texto. Quanto mais Sebastián pretende não aludir à adoção do irmão, mais ele é incapaz de esquecê-la; mais ele resiste. Como não pode se referir a ela, mesmo que essa adoção, seja conhecida  por todos os familiares, inclusive o adotado, ela se torna o elefante branco familiar, invisível e não reconhecido problema, estatelado no dia a dia da família, imóvel e ocupando um grande espaço, aquilo que todos resistem a admitir.

 

 

 

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Julián Fuks

A procura pela memória, pelo fatos, ações, circunstâncias do passado que justificariam o comportamento do irmão mais velho, fazem com que o narrador desenvolva uma linha narrativa primorosa, revendo mais de uma vez, por diferente ângulo não só os eventos do passado como suas próprias reações, questionando-se sempre. Evoca e medita sobre o passado em comum com Sebastián e com a família e explora as possibilidades daquilo que lhe é desconhecido. Esmiúça tudo, sem resultado plausível. A resolução vem do próprio irmão adotado, numa catártica explosão, muito bem desenvolvida. Este é um belo livro.  Meditativo.  Reflexivo.  Um livro que extrapola a história contada. Recomendo.

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