Resenha: “Deserto” de Luís S. Krausz

1 03 2017

 

 

 

sera-knight-regentstreet_zpsc7f525ceRegent Street, por Sera Knight, aquarela sobre papel.

 

 

 

Amin Maalouf  é minha referência toda vez que penso em questões de memória e identidade, um assunto que me fascina há anos.  Com ele aprendi que o desenvolvimento da memória familiar é um importante passo para pessoas que perderam pátria, família, pontos de referência cultural.  A memória coletiva acaba fornecendo eixo sólido para  identidade.  Há muito, a comunidade judaica conhece e pratica a lembrança do passado por maneira oral ou literária, como meio de fidelidade cultural. Enraizado nessa tradição, Luís Sérgio Krausz nos premia com uma deliciosa memória de adolescência e amadurecimento, no livro Deserto, seu segundo, onde acompanhamos o relato de um rapazinho de dezesseis anos que saiu do Brasil na década de 1970, para a experiência de viver temporariamente numa escola agrícola em Kfar Silver, uma aldeia de jovens, fundada em 1957, pelo educador Aryeh Kotzer. Essas memórias começam com o nosso adolescente prestes a desfrutar de uma aventura ainda mais excitante do que a estadia em Israel:  uma viagem à Inglaterra, com um gostinho de transgressão.

Israel é um país de vinte e poucos anos quando nosso herói o visita. Sua estadia, seis semanas ajudando na colheita de grapefruit, contava também com aprendizado sobre a história do país, mas vinha com ressalva da instituição organizadora: nenhuma viagem à Europa deveria ser feita por qualquer participante, na semana livre, a última, antes do retorno ao Brasil. No entanto, os próprios familiares do nosso adolescente, vindos de uma família que abraçara o judaísmo reformista, mais liberal,  organizara a desobediência do jovem, providenciando uma visita a Londres, onde conheceria membros distantes da família com quem iria se alojar; teria uma visão cidade e da vida europeia; e trataria de encomendas feitas pela família para trazer de volta a São Paulo.

 

 

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É cativante a aventura do nosso jovem, rapaz observador, curioso e sonhador.  Acho que me encantei com ele assim que descobri sua preocupação com a bolsinha de crochê, feita pela avó, presa com alfinetes à cueca, onde guarda dinheiro, passaporte e passagens. Adolescente típico, de família cuidadosa e unida, rememora a aventura britânica em detalhe, notando bibelôs, verificando o gosto musical,  examinando a biblioteca, admirando os laços de amizade que encontra junto aos seus anfitriões. Educado por imigrantes ele conhece os valores europeus que os unem e consegue manter distância suficiente para gozar da companhia que eles lhe oferecem, assim como observá-los mantendo devida imparcialidade.

A narrativa de Luís Krausz é impecável.  Ao descrever o que o jovem viajante imagina, observa e conclui, usa de tom encantatório, detalhado, inteligente, com observações pertinentes que descrevem não só a experiência como a atmosfera do ambiente; não só as expectativas como os desapontamentos.  Além disso, a narrativa é riquíssima em alusões culturais, literárias e musicais que aparecem no texto naturalmente, sem interferência de fluxo ou de simpatia.  Gostei até das expressões em hebraico ou iídiche, com respectivas notas de rodapé.  Por minha experiência com o inglês americano, repleto de expressões nessas línguas, que expressam conceitos nem sempre encontrados na América, sei que só temos a ganhar com a inclusão dessas palavras.

 

 

luis-sergio-krauszLuís Sérgio Krausz

 

 

Encantada com a voz narrativa de Krausz, li em voz alta para meu marido muitas passagens.  Parei em ocasiões, interrompendo o que ele fazia, com um “olhe só, que maravilha”, e lá vinha uma passagem sobre alfaiates em Londres ou uma visita ao Victoria and Albert Museum.  Devo ter lido mais de trinta páginas para ele, de um total de cento e cinquenta.  É um livro riquíssimo em história, em visões europeias e em cultura ocidental.  É uma memória que deleita o leitor e o enfeitiça. Pouca ação.  Muita reflexão.  Lindo!  Absolutamente cativante.  Tornou-se um dos meus livros favoritos logo após sua leitura.  Recomendadíssimo!

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2 responses

1 03 2017
renataamemiya

Obrigada pela indicação. Vou anotar e procurar. Bjs.

2 03 2017
peregrinacultural

De nada! Vale a pena!

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