Resenha: “Diário da queda”, de Michel Laub

5 06 2017

 

 

H. Weiss, NA escola, ost,Na escola

H.  Weiss (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

 

Que boa surpresa a leitura de Diário da queda de Michel Laub. Há uns poucos meses eu havia lido outro de seus livros: O Tribunal de quinta-feira. Apesar de ter chegado ao fim, foi um livro que não me entusiasmou. Mas, meu amigo Gilberto Ortega Jr insistiu que eu lesse Diário da queda, lembrando que este seria o primeiro de uma trilogia, da qual O Tribunal é a última obra.   Numa sala de espera comecei a leitura e não a deixei de lado.  24 horas foi o período necessário para ler o livro todo.  E o considero muito bom, muito bom mesmo!

É uma obra pequena, 152 páginas, densa, mas fácil de ler, abrangendo diversos tópicos complexos: a definição de amizade – de Aristóteles até hoje um assunto que ocupa filósofos no mundo inteiro;  duas passagens na vida de um homem — a adolescência (treze anos) e maturidade (aos quarenta),  a importância da memória e da herança cultural numa família, conflitos entre pais e filhos. É a vida. Algumas preocupações triviais, mas importantes pontuam o texto:  primeira traição,  primeira experiência sexual, dependência do álcool.

 

13083_gg

 

Michel Laub é iconoclasta na narrativa. Há capítulos com parágrafos numerados, outros discorrendo de modo tradicional. Há passagens com entradas interessantes de um diário positivo, de como as coisas deveriam ser num mundo idealizado. Há entradas em diários. Essa combinação transforma a narrativa num texto de grande vivacidade e fácil entendimento. Breve. Talvez o que mais surpreenda seja a força emocional que o texto carrega nas incansáveis repetições de incidentes que o narrador considera importantes marcos em sua vida.  A menção a certos fatos, a volta a eles, a análise deles, o retorno novamente aos momentos cruciais, cada vez de uma maneira, trazendo ao leitor uma ponta a mais de conhecimento do que aconteceu, mas sob um novo ângulo, uma gota de conhecimento, pequena  e essencial de informação desconhecida até então, tudo nessa construção do texto leva a uma angústia pulsante, à espera de que haja uma resolução ao que o personagem principal incessantemente descreve e destrincha.

 

Michel-LaubMichel Laub

 

É um texto intenso. Cuja ternura e carinho só se revelam no final, culminando de modo pungente.  Não soluciona problemas.  Como a vida, a história fica em aberto, mas a narrativa dá entendimento e provoca reflexão sobre a obsessão do autor cujos passos acompanhamos sem hesitar.  Nas duas últimas páginas completa-se um ciclo, fecha-se o todo. Percebe-se finalmente a força motivacional desse confessionário do qual participamos. E aí sim, percebemos a  força da carga emocional que define a história.  Os olhos umedecem.  O impacto é forte e excelente.

Agora vou ler A maçã envenenada, segundo volume da trilogia e reler Tribunal da quinta-feira. Quem sabe se não terei melhor impressão deste último tendo lido os anteriores?  Leitura recomendada, com ênfase.

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2 responses

5 06 2017
Letícia Alves

Adoro quando você fala apaixonadamente de um livro, isso significa que é muito bom! Claro, quando eu quiser ler algum livro que não tenho em casa, virei sempre aqui, como de costume. Beijos!

6 06 2017
peregrinacultural

Obrigada Letícia! Que przer saber que é assim! Beijinhos,

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