Resenha: “Três Cavalos” de Erri de Luca

20 06 2017

 

 

The Woodcutter by Camille Pissarro (oil on canvas, 35x45-3-4 CourtO lenhador, 1879

Camille Pissarro (França, 1830 – 1903)

óleo sobre tela, 89 x 116 cm

The Robert Homes a Court Collection, Perth, GB

 

 

Nunca tinha ouvido falar de Erri de Luca até receber de Nanci Sampaio, uma amiga conhecedora dos meus gostos, esse livrinho chamado Três Cavalos.  Levei algum tempo até abrir suas páginas.  Dizem os budistas que as coisas acontecem na hora certa.  Então aconteceu agora esse amor pela obra do escritor italiano, cuja lista de publicações é longa e abrangente: o autor é jornalista, romancista e poeta.

 

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Sua prosa é seca e precisa. Concisa.  Mas de imagens vívidas e maneira de ver as coisas simultaneamente poética e inesperada.  Eu me encontrei relendo muitas passagens, marcando no texto, dois, três parágrafos pela beleza ou pela surpresa.  E como um poema, este é um livro pequenino que passa uma poderosa história em dois tempos, presente no sul da Itália e passado na Argentina.  Há também o paralelo entre dois amores, o de então e o do momento.  Duas mulheres perturbadoras que conquistam o coração quase inocente de um homem  que agora, aos cinquenta anos, leva a vida de jardineiro.

 

Erri_De_LucaErri de Luca

 

Ainda que este seja um romance com descrições da perseguição política na Argentina, o tema serve  de pano de fundo.  Maior que ele é o amor, força que impulsiona atos impensáveis. Também fala de amizade e da honra entre amigos.  A honra entre o narrador e seu amigo africano Selim, um trabalhador temporário que vai e volta da África e tem o dom da divinação. São 108 páginas concisas, repletas de poesia e determinação.  E emoção. Emoção contida como cabe a um europeu.  Mas lá está para nos puxar página após página ao seu surpreendente final.  Uma obra poderosa, marcante.  De grande impacto. Excelente leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Christine Reilly

20 06 2017

 

 

Christine Reilly (Australia, contemporanea) Free Time,o e acr sobre tela, 50 x 60cmHora de lazer

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela, 50 x 60 cm





Sobre árvores: Erri de Luca

20 06 2017

 

 

vangoghcypresses1889Ciprestes, 1889

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 93 x 74 cm

Metropolitan Museum, N.Y.

 

 

” Vou pelo campo com uma nova muda de macieira para plantar.

Deposito-a no chão, viro-a, olho seus ramos mal esboçados tentarem lugar no espaço em torno.

Uma árvore precisa de duas coisas: sustança sob a terra e beleza fora. São criaturas completas mas impulsionadas por uma força de elegância. Beleza necessária a elas é vento, luz, pássaros, grilos, formigas e uma meta de estrelas em direção às quais apontar a fórmula dos ramos.

A máquina que nas árvores impulsiona linfa para cima é beleza, porque só a beleza na natureza contradiz a gravidade.

Sem beleza a árvore não quer. Por isso para num ponto do campo e pergunto: “Aqui, quer?”

Não espero uma resposta, um sinal no punho em que seguro seu tronco, mas gosto de dizer uma palavra à árvore. Ela sente as bordas, os horizontes e procura um lugar exato para se erguer.

Uma árvore escuta cometas, planetas, nuvens e enxames. Sente as tempestades do sol e as cigarras sobre ela com a mesma urgência de velar. Uma árvore é aliança entre o próximo e o perfeito longínquo.

Se vem de um viveiro e tem de enraizar-se em solo desconhecido, fica confusa como uma jovem camponês no primeiro dia de fábrica. Assim levo-a a um passeio antes de escavar-lhe o lugar.”

 

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Berlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 26.








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