Flores para um sábado perfeito!

21 10 2017

 

 

TULIO MUGNAINI. Copo de leite - o.s.t. - 55 x 45 cm - assinado e datado 1971 no cid.Copos de leite, 1971

Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)

óleo sobre tela, 55 x 45 cm





Espelho literário

21 10 2017

 

 

claudio dantas, iluminadaIluminada

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

 

Leio hoje de Tahar Ben Jelloun , o livro Partir. Trata-se de um autor francês de origem marroquina.  Dele já li O último amigo uma pequena joia literária um quase um conto.  Como há tempos me interesso sobre a questão de imigração,  escolhi ler Partir, publicado no Brasil em 2007 pela Bertrand Brasil, cujo tema é justamente o desejo de emigrar para lugares onde se possa viver com decência.

A situação econômica, social e política no Rio de Janeiro tem feito muitos de meus conhecidos emigrarem: Portugal, EUA, Espanha, Israel são alguns dos países de preferência.  Reconheço que a ideia já passou por mim, mas acho que ainda tem jeito, que não é hora de desamarrar o barco.  A decisão pode até ser mais fácil para quem, como eu, viveu a maior parte da vida adulta fora do Brasil, mas é sempre complexa. Por isso mesmo emigração,  ser imigrante em terra alheia, a questão da identidade cultural são todos temas ricos e importantes para mim.

Mas eu não contava, ao ler sobre o Marrocos, de me encontrar diante de um espelho do Brasil. Já logo entre a primeiras 30 páginas, vi detalhadas cenas da realidade marroquina, que levam o personagem principal a tentar emigrar.  Elas parecem descrever o Brasil.  Aqui duas passagens nas páginas 23 e 24.

“Os partidos políticos lamentavelmente fracassaram, não souberam ouvir o que lhes dizia o povo.Eles passaram ao largo disso. Tenho raiva principalmente dos socialistas, que acreditaram numa mudança do governo, que jogaram o jogo do poder e nada fizeram para que a coisa mudasse.”

“É intolerável que um doente que se dirige aos hospitais do Estado seja abandonado porque o hospital está sem recursos. É por isso que intervimos concretamente nos lugares onde o Estado é falho. Nossa solidariedade não é seletiva. É preciso que este país seja salvo; está com comprometimento demais, corrupção demais, injustiça demais e desigualdades. Não pretendo resolver todos os problemas, mas não fazemos outra coisa senão ficarmos de braços cruzados esperando que o governo se ponha a serviço dos cidadãos.”

Em: Partir, Tahar Ben Jelloun, Bertrand Brasil: 2007, página, 23- 24

 

Não quero com isso imaginar que tenho que aceitar essa realidade porque não há solução, porque é assim em qualquer lugar do mundo.  Ao contrário, conheço países em melhores condições e imagino que seria mais fácil para o Brasil chegar aos níveis de desenvolvimento que já presenciei do que o Marrocos, não querendo desmerecer o país africano.

Mas, começo a entender melhor o retrato psicológico de meus amigos que abandonaram o país, e também o retrato dos temores e incertezas que acompanharam meus antepassados, um avô e 3 bisavós ao saírem de suas terras natais, procurando melhores portos onde seus descendentes pudessem viver melhor que eles mesmos.

Esse é um dos encantos da literatura.  Ela nos faz pensar.  Reconhecer nossos problemas pessoais ou sociais.  E é possível que até nos ajude a encontrar soluções.  No momento, este livro me faz pensar sobre o futuro dos meus familiares.








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