Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

31 07 2019

 

 

 

natureza-morta-com-vaso-e-frutas-pedro-alexandrino-borgesVaso e frutas: abacaxi, bananas, limões e mangas, 1895

Pedro Alexandrino (Brasil, 1856 -1942)

óleo sobre tela





Resenha: “O coração do Tártaro” de Rosa Montero

30 07 2019

 

 

 

mongols-nomads-mobility-minMongóis em conflito, século XIV

Rashid-ad-Din’s Gami’ at-tawarih. Tabriz (?)

Diez A fol. 70, p. 58.

Aquarela sobre papel, 21x 26 cm

Staatsbibliothek Berlin, Orientabteilung

 

 

Há alguns anos Rosa Montero se tornou uma de minhas escritoras favoritas.  O coração do tártaro, publicado pela Nova Fronteira em 2013, é o quinto romance da autora que leio.  A louca da casa, A história do rei transparenteTe tratarei como uma rainha, Instruções para salvar o mundo, além de dois livros de não ficção: Muitas coisas que perguntei e algumas que disse e Histórias de mulheres precederam esta leitura. E ela consegue surpreender. Sempre.  Li o livro há dois meses.  Mas minha opinião precisava se  cristalizar.  Inicialmente pensei ser a  mais simples história de R. Montero, mas mudei de opinião.

Rosa Montero não é uma estilista da língua.  Não encontramos em seus livros figuras de linguagem, nem escolha de imagens poéticas.  Há, em seu lugar, uma voz narrativa forte, baseada no idioma do dia a dia,  enunciada de maneira franca,  com economia.  A exposição  é direta e o ritmo importante.  O que deslumbra seus leitores é o que ela nos faz imaginar, o que ela nos revela para considerarmos.  Trama.  Histórias dentro de histórias, em geral  autorreflexivas.  Aí vemos a riqueza do que nos foi apresentado, o cabedal de recursos imaginários que nos confronta, a exuberante criatividade. É difícil dizer, nessas circunstâncias de qual livro mais gosto.  São todos tão diferentes!  Mas sem dúvida, A louca da casa e A história do Rei Transparente estavam ombro a ombro entre os melhores do grupo e agora,  O coração do tártaro coloco junto a eles, formando esse corpo literário de três cabeças, este Cérbero guardando a porta para o mundo imaginário, para o submundo de que suas obras são feitas, universo onírico de pesadelos que acabam com esperança, atravessando nossas almas, toda vez que nos enterramos na ficção da autora.

O coração do tártaro retrata o dia de uma mulher de 36 anos, Sofia Zarzamala, que trabalha com manuscritos medievais e que ao receber de manhã cedo um telefonema ameaçador de alguém que a procurava, ao ouvir a voz do outro lado entra em alerta total e em poucos minutos muda o rumo de sua vida.  Foge.  Ela sabia que este dia viria e  precisa agir. Toda trama se passa nas vinte e quatro horas seguintes. Zarza, foge do irmão  gêmeo, Nicolas um gangster, que tem bons motivos para persegui-la.  A fuga a leva a lugares do passado e assim vamos conhecendo os motivos dessa perseguição.  Vinda de família completamente disfuncional, Zarza e Nicolas têm ainda dois irmãos,  Martina, que de todos é a que parece ter a vida mais normal e Miguel, um menino autista, mas um gênio no cubo de Rubick, que Zarza e Nicolas colocaram num sanatório.  Zarza e Nicolas cometem todo tipo de ofensas em troca da heroína em haviam se viciado e com isso prejudicam até mesmo o irmão caçula. A mãe desses quatro irmãos morreu de causa desconhecida, talvez suicídio, talvez assassinada pelo marido; e o pai,  figura gigantesca na imaginação e na presença malévola que tem neste lar, é um homem descontrolado que abusa dos filhos, destruindo suas vidas de maneira tão arrasadora que é comparado por Zarza, a Gengis Khan, o imperador mongol que destruía tudo que encontrava.

É este passado de sofrimento, de abuso do pai, que desapareceu subitamente, que também a persegue.  Ao fugir do irmão,  ela se lembra dele e reavalia ações do passado distante com a família e do passado recente da Rainha Branca, a heroína que a manteve cativa.  Lembra-se Urbano o modesto carpinteiro que a retirou da prostituição e de como o tratou de maneira que precisava se redimir.  Enfim, Zarza passa a limpo o passado, talvez pela última vez.

 

O_CORACAO_DO_TARTARO__1382303458B

 

Neste meio tempo somos apresentados a um conto medieval atribuído a Chrétien de Troyes, conhecido poeta e trovador francês do século XII.  Há cinco grandes poemas de sua autoria: Érec e Énide, Cligès, Lancelote: o Cavaleiro da Carreta, Ivain: o Cavaleiro do LeãoPerceval ou le Conte du Graal [inacabado], todos cobrindo de 1170 a 1190. E há um grande número de obras atribuídas a ele.  E é aí nesta fissura do nosso conhecimento que Rosa Montero trabalha um conto, escrito por ela, mas com todas as características do que era escrito no século XII, que espelha a trama de O coração do tártaro.  Primeiro Montero nos diz que a obra é de Chrétien de Troyes, atribuída por dois dos maiores medievalistas contemporâneos.  Mas essa história é de Rosa Montero. Como ela vai misturar realidade e fantasia e ainda mencionar conhecidos intelectuais?  Ela provoca.  Faz com que acreditemos neste possível conto, avalizado por Le Goff e Harris (conhecidos historiadores do período medieval) só para no final, colocar dúvida de novo na autoria.  É uma maneira astuta de evitar qualquer problema jurídico e ao mesmo tempo dar valor à sua criação.

 

Rosa-MonteroRosa Montero

 

Mas este livro  se coloca entre os mais interessantes de Rosa Montero  também pelo variado uso do espelhar de histórias, de personagens e situações, até mesmo transcendendo o tempo.  Este espelhar,  chamado em geral de Doppelgänger, do alemão, ou seja, o outro igual ao que se apresenta, está muito bem distribuído e elaborado na trama, enriquecendo o contexto, fixando no leitor as experiências vividas na leitura.  Nem sempre o duplo é tão óbvio quanto no maravilhoso Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou trabalhado de maneira mais disfarçada como em O duplo, de Dostoiévski, por exemplo.  Exemplos não faltam na literatura e no folclore europeu. Mas eu ainda não tinha me encontrado com “o duplo” em tantos níveis: Zarza e Nicolas, Nicolas e o pai, o presente e o conto medieval entre outros.

Além dessas observações é preciso notar que Rosa Montero parece estar sempre trafegando nas zonas sombrias das emoções.  Seus personagens existem no submundo.  Não só o submundo social, mas o submundo arquétipo como definiu Carl Jung, aquele vestíbulo da mente, dos segredos que carregamos, a porta de entrada para o inconsciente. Este submundo é sombrio.  É melancólico e repleto de desespero.  Aqui, em O coração do tártaro, como aconteceu em Te tratarei como uma rainha e Instruções para salvar o mundo também seus personagens enevoados não pertencem ao universo solar. Há penumbra e solidão. O familiar desespero que encontramos em obras anteriores de Rosa Montero também permeia esta trama. No entanto, como sempre, saímos da leitura com uma nesga de esperança,  com um tanto de fé, nutrindo a fantasia de melhores tempos.  Talvez seja por isso que suas obras sejam tão bem aceitas.  Assim como esta, elas “quase” acabam bem. É incerto, como a vida.  Recomendo a leitura.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





“A festa de São João”, poesia de Cornélio Pires

29 07 2019

 

 

 

PAPAS STEFANOS. Festa junina - o.s.m. - 80 x 60 cm - assinado no cid.Festa junina

Papas Stéfanos (Grécia/Brasil, 1948)

óleo sobre madeira, 8- x 60 cm

 

 

A festa de São João

 

Cornélio Pires

 

No casarão antigo da Fazenda,

tudo é jogos, brinquedos e festança:

na varanda do lado jogam prenda

e no salão o baile não descansa;

 

A fogueira, tão célebre na lenda,

estala em labaredas.  Canta e dança,

o povo do batuque, na contenda,

aos pulos e aos requebros da folgança.

 

No cururu manhoso a caboclada,

rasca nas violas, canta ao desafio,

provocando constante gargalhada,

 

Depois, das diversões cortando o fio,

o povo em procissão, de madrugada,

vai lavar o São João, além, no rio.

 

Cornélio Pires (Brasil, 1884 — 1958).





Domingo, um passeio no campo!

28 07 2019

 

 

 

Edgar Walter, Morada - óleo sobre telaMorada, s/d

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela





Flores para um sábado perfeito!

27 07 2019

 

 

 

Reynaldo MANSKE - ost flores med 18 x 24 cmFlores

Reynaldo Manzke (Brasil, 1906 – 1980)

óleo sobre tela, 18 x 24 cm





Rio de Janeiro, à beira da Guanabara!

26 07 2019

 

 

 

Georges Wambach Técnica Óleo sobre Tela Dim. 45 x 72 cm, Largo do Boticário, 1940Largo do Boticário, 1940

Georges Wambach (Bélgica/Brasil, 1901 – 1965)

óleo sobre tela, 45 x 72 cm

 





Trova do adeus

25 07 2019

 

 

 

adeus, a e martyIlustração, A. E. Marty

 

 

Meu lenço, na despedida,

tu não viste, em movimento:

lenço molhado, querida,

não pode agitar-se ao vento.

 

(Carlos Guimarães)








%d blogueiros gostam disto: