Sou o que leio

22 01 2020

 

 

C. DE GENNARO, A leitura - Oleo sobre cartão - 29x19 cm - ACID Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e SilvaA leitura

Caetano de Gennaro (Itália/Brasil, 1890 – 1979)

óleo sobre cartão, 19 x 29 cm

Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e Silva

 

 

Sou o que leio

 

Ladyce West

 

Se você notar bem, se me olhar com cuidado, verá que ainda tenho um relógio de bolso que trouxe do País das Maravilhas, onde aprendi a tomar chá com a Rainha de Copas.  Além daquela Alice, fiquei amiga de outra, na fazenda do Boqueirão, que me contou histórias de Teresópolis  enquanto esperávamos por Mário voltar da Europa no Tronco do Ipê.

Alencar, na verdade, é responsável pela Aurélia que vive em mim, mulher desafiadora dos costumes da época que, em Senhora, me ensinou o que é vingança.  De Capitu não tenho nada, mas aprendi com Bentinho, a desconfiar.  Machado deu o nome ao meu cachorro, Quincas. Dancei minha primeira valsa ao lado de Carolina em Paquetá  e me apaixonei pelo Moço Loiro  como Honorina o fez.

Com Lobato aprendi a caçar sacis, visitei a lua, o país da gramática e saboreei os quitutes de Tia Nastácia.  Só não tenho o pó de pirlimpimpim porque Emília não me deixou trazer.

Acompanhando uma Condessa, chorei  calorosas lágrimas pelos Desastres de Sofia e Memórias de um burro; mais ou menos na mesma época em que descobri, nas  Cartas do Meu Moinho, que até um reverendo francês pode morrer de gula e que há tempestades de gafanhotos destruidores, no mundo.

Viajei com Simbad, dei a Volta ao mundo em oitenta dias, fui vinte-mil léguas ao fundo do mar.  Naufraguei e fiquei presa numa ilha com um cara chamado Sexta-feira,  mas também descobri um tesouro, na Ilha de Montecristo, que permitiu vingar-me de um crime contra mim. Fui um dos mosqueteiros da Gasconha e, com um pequeno príncipe, aprendi  “que sou responsável por aquilo que cativo.”

Fui, com mapa na mão, à procura de tesouros numa ilha guiada por Robert Louis Stevenson.  E me aventurei pelas selvas africanas à cata das Minas do Rei Salomão com H. Rider Haggard.

Conheci Numero Um, o filho de Charlie Chan com quem resolvi crimes no Havaí.  Já com Arsène Lupin, andei do outro lado da trilha, à maneira de Ivanhoé, roubando os ricos.  Fui princípe e pobre com Mark Twain e com ele também viajei através do tempo quando fui um Connecticut Yankee na corte do rei Arthur.

Tudo isso antes de completar treze anos.  Depois dos treze é outra história. Os livros ficaram mais complexos, assim como eu.  Como poderia ter tanta experiência com tão pouca idade?  Sabe, sou o que leio.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, Janeiro de 2020

 


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