Resenha: “A mulher desiludida” de Simone de Beauvoir

26 05 2016

 

 

corot, interrupted readingLeitura interrompida, 1870

Jean-Baptiste Emile Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela colado  em madeira, 92 x 65 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

 

 

 

Fui à luta pelos direitos da mulher quando ainda morava nos Estados Unidos, membro da NOW [National Organization for Women] por alguns anos, participei de passeatas e de outras formas de protestos que pediam a igualdade de direitos e de salários entre homens e mulheres.   É surpreendente, portanto, até mesmo para mim, só agora vir a ler Simone de Beauvoir, a grande feminista francesa, que revolucionou o pensamento de milhares de mulheres do mundo inteiro, no período logo  após a Segunda Guerra Mundial.

Não sei quem tomou a decisão inicial de traduzir pela primeira vez esta série de três contos de Beauvoir e batizá-la com o título insípido de “Mulher desiludida” no lugar de “Mulher destruída” [La femme rompue] do original.  Quem quer que tenha sido cometeu um desserviço ao mundo literário e, sobretudo às leitoras brasileiras, diminuindo mais uma vez a mulher, a leitora, com a suavização da própria denúncia feita pela autora.  Vale lembrar que os portugueses não fizeram isso em suas edições, lá manteve-se o poder conotativo da palavra ‘destruída’.

 

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Quase cinquenta anos nos separam dessa publicação. É natural esperar que a realidade feminina tenha mudado, que alguns dos assuntos abordados nas  histórias pareçam distantes da nossa  realidade. É perturbador olhar à volta e constatar que ainda há um número desconcertante de comportamentos destrutivos no cotidiano feminino, semelhantes aos demonstrados nos contos de Beauvoir.  Talvez pareçam mais atenuados, disfarçados por outros rótulos, com viés moderno, mas lá estão, vivos na maneira de pensar feminina.

A heroína de “A idade da discrição”, primeiro conto da obra, não consegue aceitar que seu filho adulto pense diferente dela. Ela perdeu o poder sobre o jovem profissional.  Mas sua perda é muito maior e bem mais profunda. Seus medos são vários, o pior deles é o preconceito contra o envelhecimento.  É uma intelectual que agora duvida de sua capacidade intelectual porque sua última publicação não tem o sucesso esperado.  Também seu corpo, assim como o filho a trai, não é mais jovem: “um corpo de velho, apesar de tudo, é menos feio que um corpo de velha, disse a mim mesma… [49]. Tudo contribui para seu desequilíbrio.

O terceiro conto que dá título ao livro mostra o desequilíbrio emocional de uma mulher cujo marido, o centro de sua vida, tem um relacionamento extraconjugal. Mas a traição serve como alavanca para sua destruição.  Subitamente Monique percebe que outros aspectos de sua vida não podem mais sustentá-la no mundo idealizado em que vivia. Há a perda da juventude e a realização do tempo que passa.  Há o esvaziamento do ninho e a surpresa ao perceber que seu marido teria gostado que ela tivesse trabalhado, que ainda fosse uma profissional. “As mulheres que não fazem nada não suportam as que trabalham.”, ele diz [107]. A observação a fere.  O fracasso do casamento ela chega a atribuir à maneira como educou as filhas. E ainda perpetua o sofrimento, pois àquela que segue seus passos, que se torna a dona de casa que ela foi, Monique não poupa:  ela a vê com o mesmo filtro com que concebe sua própria imagem.  É um momento revelador e profético sobre a perpetuação do preconceito na próxima geração.

 

simone-de-beauvoirSimone de Beauvoir

 

Infelizmente, A mulher desiludida ainda é atual. À primeira vista parece que já atravessamos um longo caminho: temos maior liberdade sexual;  grande número de mulheres é profissional.  Muitas mantêm trabalho fora de casa, mesmo que, por vezes, só o façam por necessidade, mesmo que casadas.  Mas basta aprofundar este olhar para perceber que ainda precisamos de uma variedade de mudanças na sociedade, sobretudo na maneira de encarar a vida.  Os três contos de Beauvoir são histórias complexas e ambíguas, principalmente a segunda história, “Monologo”, que é um vômito verbal das frustrações de uma mulher contra tudo e contra todos.  Mas todos os contos apontam para uma mudança de rumo para as mulheres, e do papel que os homens exercem em nossas vidas.  De fato, os homens nos contos não são particularmente fortes.  Há em todos um comportamento covarde,  inábil, anêmico, vacilante.  Para que uma mulher nova exista, há de haver também um novo parceiro mais preparado, eficaz e decisivo. Os dois precisam mudar.  Talvez seja por isso que as mudanças não tenham sido mais radicais nos últimos cinquenta anos.

Esta não é uma leitura leve. Bastante deprimente.  Revoltante muitas vezes.  Mas importante:  uma lembrança do caminho percorrido e uma perspectiva sobre aquele por vir. Ainda há muito trabalho pela frente.

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

25 05 2016

 

Guignard,Natureza-Morta_óleo-sobre-tela_76x76cm_1936.jpgNatureza Morta óleo sobre tela, 76x76cm.(1936)Natureza morta, 1936

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896 – 1962)

óleo sobre tela,  76 x 76 cm

 





Imagem de leitura — Louise Catherine Breslau

25 05 2016

 

 

Louise Catherine Breslau (Swiss, 1856-1927). Oil on wood. Schweizerische Eidgenossenschaft, Bundesamt für Kultur, BernLeitura

Louise Catherine Breslau (Suíça, 1856-1927).

Óleo sobre madeira

Secretaria da Cultura, Berna, Suíça





Resenha: “A caderneta vermelha” de Antoine Laurain

24 05 2016

 

 

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)-StGermain, o+acr. sobre telaSt. Germain

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela,  40 x 60 cm

www.christinereillyartist.com

 

 

Está precisando de um momento de descanso?  Precisa acreditar que a vida é boa, que no fim tudo vai dar certo, não importa os percalços do caminho? Quer passar um fim de semana tranquilo, sorridente e inconsequente?  Esse livro é para você.  Ele lhe trará sorrisos, encantamento e refúgio.  Trará luz num dia chuvoso.  Aquecerá seu coração como um chocolate quente tomado em casa de pijama e meias, com seu gatinho enrolado no colo. Porque este é um delicioso conto de fadas, uma história que acaba bem.  Não me surpreenderia se aparecesse em versão cinematográfica.  Aliás, só me surpreenderei se não se tornar um filme.  Eu colocaria Pio Marmaï como ator principal fazendo Laurent, livreiro, dono da Le Cahier Rouge e Laetitia Casta seria Laure, nossa heroína, possuidora de uma profissão singular – douradora.

 

 

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Trata-se da história de uma mulher que ao ser assaltada perde tudo: sua bolsa, carteira com documentos e dinheiro, o celular. É madrugada e o assalto acontece na porta de seu edifício.  Sua bolsa com todo o conteúdo menos o celular e a carteira são encontrados pelo livreiro Laurent Letellier, que próximo dos quarenta anos, divorciado, com uma filha adolescente, acha-se fascinado pelo conteúdo da bolsa lilás.  Resolve descobrir a quem ela pertencia. Mas é uma tarefa difícil que lhe dará bastante trabalho. O resto ficará para o leitor apreciar. Há reviravoltas e incompreensões.  Mas tudo acaba bem.

Recentemente muitos dos livros franceses traduzidos aqui no Brasil, não sei se por escolha dos editores ou se por preferência nacional do país europeu, têm sido leves, poéticos, românticos no escopo mais largo da palavra.  Refúgios para o caos do dia a dia, cheios de certa ternura, repletos de personagens sensíveis, inteligentes, amorosos, carinhosos, com  respeito pelo outro além de grande interação entre gerações nem sempre vista na vida ou literatura de outros países.  Incluo nesta lista os livros de Anna Gavalda, Muriel Barbery, Benoîte Groult, Katherine Pancol, Denis Tillinac, Jean-Paul Didierlaurent, e agora Antoine Laurain. É claro que aqui há o viés da leitora, assim como a consciente eliminação de outros autores de sucesso da ficção francesa como Laurent Gaudé, Michel Houellebecq, Marc Levy e outros. Mas esse lado suave da vida me parece mais frequente nas obras francesas contemporâneas. Em termos de cinema, esses livros se classificariam em comédias românticas.

 

 

antoinelaurain_bymbtoffoli_p10907661Antoine Laurain.  Foto de Marissa Bell Toffoli (2013)

 

A caderneta vermelha é uma dessas obras.  Bem escrita, com capítulos pequenos, um número reduzido de personagens, traz à tona um romance previsível desde os primeiros capítulos ainda que sua resolução seja mais complexa e criativa do que se poderia esperar.  Não chega a ser chick-lit, mas é romântico, doce; reconfortante, uma ilha de bem-estar num mundo insensato.





Rosinha da Roda, poesia de Stella Leonardos

24 05 2016

 

 

Edvard_Munch_-_Four_Girls_in_Åsgårdstrand_-_Google_Art_ProjectQuatro meninas em Åsgårdstrand, 1903

Edvard Munch (Noruega, 1863-1944)

óleo sobre tela, 87 x 111 cm

Museu Munch, Oslo

 

 

Rosinha da Roda

 

Stella Leonardos

 

 

Elas eram quatro rosas

Sendo cada qual mais bela.

A vermelha, a cor de rosa.

A de corola amarela…

Mas a quarta era Rosinha,

Branca branca, bem singela.

Levou-a Deus manhãzinha.

Que era rosa de anjo, aquela.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.63





Imagem de leitura — Bernard van Orley

24 05 2016

 

 

Bernard_van_Orley_-_Joris_van_Zelle_-_WGA16695Joris van Zelle, 1519

Bernard van Orley (antes de 1491- 1541)

óleo sobre painel de carvalho, 39 x 32 cm

Museus Reais de Belas Artes da Bélgica





Palavras para lembrar — Emily Dickinson

23 05 2016

 

 

Frederick Simpson Coburn (Canadian, 1871-1960) – The LetterA carta, c. 1905

Frederick Simpson Coburn (Canadá, 1871-1960)

óleo sobre tela, 77 x 62 cm

Coleção Particular

 

 

“Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terra distantes.”

Emily Dickinson








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