O escritor no museu: Rudyard Kipling

22 10 2018

 

 

 

 

mw03660Rudyard Kipling, 1899

Sir Philip Burne-Jones (GB, 1833-1898)

óleo sobre tela, 74 x 62 cm

National Portrait Gallery, Londres





Combray, Marcel Proust

14 08 2018

 

 

 

Combray, à procura do tempo perdido, por Stéphane Heuet. 1998Combray, À procura do tempo perdido, por Stéphane Heuet. 1998

 

 

“Combray, de longe, por dez léguas ao redor, vista do trem, quando chegávamos na semana anterior à Páscoa, não era mais que uma igreja que resumia a cidade, representava-a, falava dela e por ela às distâncias, e, quando nos aproximávamos, mantinha aconchegados em torno de sua grande capa sombria, em pleno campo, contra o vento, como uma pastora às suas ovelhas, os lombos lanosos e cinzentos das casas reunidas que um resto de muralhas da Idade Média cingia aqui e ali num traço tão perfeitamente circular como uma cidadezinha num quadro de primitivos. Para morar, Combray era um pouco triste, como eram tristes as suas ruas, cujas casas, edificadas com as pedras escuras da região, precedidas de degraus exteriores e com seus telhados de beirais salientes que faziam sombra, eram tão escuras que, mal começava a declinar o dia, já era preciso erguer as cortinas nas “salas”; ruas de graves nomes de santos (vários dos quais se ligavam à história dos primeiros senhores de Combray), rua de Santo Hilário, rua de S. Tiago, onde ficava a casa de minha tia, rua de Santa Hildegarda, para onde davam as grades, e a rua do Espírito Santo, para onde se abria o portãozinho lateral de seu jardim; e essas ruas de Combray existem num local tão recôndito da minha memória, pintado a cores tão diferentes das que agora revestem para mim o mundo,que na verdade me parecem todas, bem como a igreja que as dominava na praça, ainda mais irreais que as projeções da lanterna mágica; e em certos momentos me parece que poder atravessar ainda a rua de Santo Hilário, poder alugar um quarto na rua do Pássaro — a velha hospedaria do Pássaro Ferido, de cujos suspiros saiam um cheiro de cozinha, que intermitente e cálido, ainda sobe por momentos em minha lembrança — seria entrar em contato com o Além de um modo mais maravilhosamente sobrenatural do que se me fosse dado conhecer a Golo e a conversar com Genoveva de Brabante.”

 

Em: Em busca do tempo perdido, No Caminho de Swann, volume I, Marcel Proust,  tradução de Mário Quintana, Rio de Janeiro, Editora Globo: 1981, 7ª edição, página 48





Anedota sobre Oscar Wilde

16 07 2018

 

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Uma vez, quando era hóspede numacasa de campo no interior da Inglaterra, Oscar Wilde  irritou-se com a rudeza de um dos convidados lá hospedados que, em voz alta e clara, declarava que todo esforço na criação artística não passava de uma triste perda de tempo.

Meu caro Wilde, ele disse numa manhã, por favor, diga como passou a manhã?

Oh, estive muito ocupado,” Oscar Wilde respondeu sério.”Passei o tempo todo revisando os textos para meu novo livro de poemas.” E o filisteu perguntou então sobre o resultado dessa atividade.

Foi um trabalho importante,” ele disse, “tirei uma vírgula.”

Então,” retrucou o homem, “foi só isso o que fez?

Oscar Wilde respondeu educadamente, “de modo algum, depois de muito pensar, coloquei a vírgula de volta.

O homem não aguentou, e tratou de pegar o próximo trem para Londres.

 

Em: The quote investigator





Lendo: “O museu do silêncio” de Yoko Ogawa

4 07 2018

 

 

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Lendo:

O MUSEU DO SILÊNCIO

Yoko Ogawa

Estação Liberdade: 2016, 304 páginas

 

SINOPSE:

Os museus têm como pressuposto guardar objetos de valor histórico ou científico para fins de exibição pública, de modo a registrar à posteridade a importância que eles tiveram para a humanidade num período determinado. Mas como seria no caso de um museu que tivesse como objetivo preservar lembranças de pessoas que morreram? Essa é a essência da trama proposta pela japonesa Yoko Ogawa neste O Museu do Silêncio, primeira amostra da produção da autora que a Estação Liberdade traz ao público brasileiro.

O sonho de dar cabo ao Museu do Silêncio é de uma velha que vive com a jovem filha e um casal de empregados. Um museólogo – narrador da história – é contratado por ela para tirar o projeto do papel. De personalidade hostil e sem o menor traquejo social, a velha tem lá suas idiossincrasias, sobretudo em relação ao tipo de conteúdo que planeja para o museu: as lembranças dos mortos precisam ser representativas do que eles foram em vida. Uma peça de roupa, uma fotografia sorridente – nada disso. Não se trata de preservar lembranças afetivas. Cada objeto do museu precisa ser a metáfora perfeita da existência do finado.

No caso do homem cego, por exemplo, só mesmo seu olho de vidro serve às intenções da velha. E o museólogo – nenhum dos personagens do livro é nomeado – tem que se virar para recolher esse tipo de “relíquia” dos corpos moribundos. Para se familiarizar com essa macabra tarefa, o museólogo conta apenas com a ajuda da filha da chefe, por quem nutre sentimentos paternais… ou nem tanto. E, não bastassem o mau humor e as grosserias da velhota, ele ainda tem de lidar com uma chocante onda de assassinatos de mulheres da região, marcados pela característica comum de apresentar os corpos das vítimas mutilados numa região bem específica.

O Museu do Silêncio é uma obra de suspense, bastante simbólica da produção de Yoko Ogawa, escritora japonesa contemporânea muito saudada no Ocidente. Sua literatura é excêntrica, preterindo tons e temas ternos e etéreos por aqueles mais duros e polêmicos, não raro flertando com o grotesco. Neste livro, ela também opta por ambientar a trama em tempo e local não identificados, o que contribui para diluir os eventuais estranhamentos culturais intrínsecos às suas origens nipônicas, e assim consolidar sua voz de alcance universal.





“O pranto da inocência”, poesia de José Joaquim Cândido de Macedo Júnior

2 07 2018

 

 

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O pranto da inocência

 

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)

 

Quando cismas, donzela, no teu rosto

Que linda per’la suspirando corre!

— Pranto dourado que não diz desgosto,

Que num sorriso no teu seio morre!

 

Mimo dos anjos que tua alma prende

Aos céus ridentes nesse doce encanto,

Lágrimas d’ouro que teu peito incende,

Que o amor celeste se traduz num pranto!

 

E a gota pura vem cantar um hino

Que os anjos n’alma te murmuram rindo,

Pérola branda diz um som divino

Que o peito entoa em murmurejo infindo!

 

Bela — do altar do teu virgíneo seio

Deixa esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse brando enleio,

Ai! vai por ele nos teus pés morrer!

 

Chora! a inocência te sorri no choro,

São risos virgens de infantis amores,

São doces hinos de um celeste coro,

Dizem — enleios — mas não dizem dores.

 

Teu pranto puro beberão os anjos

Num doce anseio de inocente medo,

Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos

— Teu lábio os beije no infantil segredo.

 

Chora, donzela, de teu níveo seio

Deve esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse doce enleio,

Vai por teu pranto nos teus pés morrer!

 

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2,  11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.





Escrevendo resenhas

20 03 2018

 

 

 

escrevendo, perfil

 

 

Muitas vezes me perguntam a razão de escrever resenhas de livros.  É minha maneira de colocar um ponto final na leitura.  Não tenho treinamento em literatura, em história da literatura, apesar de ter inicialmente começado meus estudos universitários na Universidade Federal Fluminense em francês.  Mas logo saí para a história da arte.

Nessa época, eu já estava familiarizada com muitas obras da literatura francesa, por ter frequentado desde os onze anos de idade a Alliance Française. O método de ensino da Aliança sempre utilizou textos da literatura para ilustrar a cultura e a língua.  Além disso, tive muita sorte de ter usufruído, quando ainda estava com meus quinze, dezesseis, dezessete anos,  das aulas de Monsieur Cox, na Aliança de Copacabana, à rua Duvivier, em que ouvíamos as gravações de peças de Molière, Racine e outros dramaturgos clássicos franceses, feitas pela Comédie-Française. Acompanhávamos as vozes dos atores lendo os textos e parando de vez em quando para as explicações de M. Cox, em francês, é claro, linha por linha, colocando em contexto de época, social e cultural aquilo que ouvíamos, o que se passava no palco.  Era só som.  Nada mais.  Nenhum filme ou vídeo.  Uma das melhores maneiras de se treinar o ouvido, e certamente um dos mais interessantes cursos de francês e de literatura que já tive.  Talvez seja por isso que tenho muito carinho pela cultura francesa e que não deixo de assistir ao programa La Grande Librairie, na TV5, com François Busnell, que todos podem acessar pela internet também e ganhar conhecimento testemunhando as maravilhosas conversas de Busnell com escritores da atualidade franceses ou não.  Mas essa é uma grande digressão.

Escrevo resenhas em parte para resolver para mim mesma as razões de ter “gostado” ou não de um romance.  Em geral só escrevo sobre aqueles livros que são bons, muito bons, ou espetaculares.   Livros de que não gosto, em geral deixo passar.  A não ser que o não gostar tenha chegado a um nível de desgosto tão grande, mas tão grande que não posso me conter e preciso espalhar a notícia a todos que ainda pensam em poder ler aquele traste.  São poucos os que me afetam dessa maneira.

Uma coisa que talvez passe desapercebida para os leitores é que mudo de opinião à medida que vou escrevendo minha resenha.  Um livro às vezes vai do bom ao brilhante, quando percebo, por ter que pensar nele e em suas diversas correlações, o quão complexo ele é, e o quanto eu poderia ter apreciado ainda mais na minha leitura.  Um livro em que isso aconteceu recentemente foi A vida peculiar de um carteiro solitário, do canadense Dénis Thériault, que considerei bom, mas melhor ainda quando escrevi sobre o livro, e ainda mais espetacular quando, após ter escrito a resenha, contei para amigos a história do carteiro.  De repente, eu vi que tinha lido um daqueles livros muito, muito bons.  Mas raramente o contrário acontece.  Então, a resenha, sedimenta as minhas primeiras observações.  Isso não quer dizer que eu não mude de ideia mais tarde.





Carnaval por Vinícius de Moraes

12 02 2018

 

 

 

Mario Gruber, fantasiado- 2001, ast, 55x55Fantasiado,  2001

Mário Gruber (Brasil, 1927 – 2011)

acrílica sobre tela, 55 x 55 cm

 

 

“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas.”

 

 

Vinícius de Moraes

 

 

vinicius-de-moraesVinícius de Moraes (1913 -1980)

 

 








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