Minha arma … Rosa Montero em “A História do rei transparente”

15 08 2017

 

 

RAMON CASAS (Espanha, 1866-1932)Entre capítulos, 1890-, ost, 41x 32, Museu Nacional d_art de Catalunya.Entre capítulos, 1890

Ramon Casas (Espanha, 1866-1932)

óleo sobre tela, 41 x 32 cm

Museu Nacional de Catalunha

 

 

“… A pena treme entre meus dedos a cada vez que o aríete investe contra a porta. Um sólido portão de metal e madeira que não tardará a despedaçar-se. Pesados e suados homens de ferro se amontoam na entrada. Vêm à nossa procura. As Boas Mulheres rezam. Eu escrevo. É a minha maior vitória, minha conquista, o dom do qual me sinto mais orgulhosa; e as palavras, embora estejam sendo devoradas pelo grande silêncio, hoje constituem minha única arma.”

 

 

Em: História do rei transparente, Rosa Montero, Rio de Janeiro, Ediouro:2005, página 9





Caixa mágica de surpresa, poesia de Elias José

14 08 2017

 

 

surpresa comm sapo, cobra e tartarugaSurpresa, ilustração, desconheço a autoria e não consigo ler a assinatura.

 

 

Caixa mágica de surpresa

 

Elias José

 

Um livro

é uma beleza,

é caixa mágica

só de surpresa.

 

Um livro

parece mudo,

Mas nele a gente

descobre tudo.

 

 

Um livro

tem asas

longas e leves

que, de repente,

levam a gente

longe, longe

 

Um livro

é parque de diversões

cheio de sonhos coloridos,

cheio de doces sortidos,

cheio de luzes e balões.

 

Um livro é uma floresta

com folhas e flores

e bichos e cores.

É mesmo uma festa,

um baú de feiticeiro,

um navio pirata do mar,

um foguete perdido no ar,

É amigo e companheiro.

 

Em: Caixa mágica de surpresa, Elias José, 1997: Editora Paulus





Trova dos navegantes

9 08 2017

 

 

 

Vintage-Seashell-Girl-Image-GraphicsFairy

Cartão Postal

 

 

 

A voz dos ventos distantes,

dentro das conchas do mar,

são preces de navegantes,

que não puderam voltar.

 

(Hegel Pontes)





A flor e a andorinha, poesia de Da Costa e Silva

6 08 2017

 

 

ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA, óleo sobre cartão, datado de 1918, representando figura feminina na janela, medindo 49 x 70 cm.Figura feminina à janela, 1918

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)

óleo sobre cartão,  49 x 70 cm

 

 

II
A flor e a andorinha

 

(Tsé-Tié)

 

Da Costa e Silva

 

Cortei em um ramo uma flor pequenina e rosada,

e ofertei à mulher que tem lábios finos e doces

como estas flores pequeninas e rosadas…

 

Roubei do seu ninho uma andorinha de asas negras,

e ofertei à mulher, cujas pestanas longas

se assemelham às asas das andorinhas.

 

Na manhã seguinte, a florzinha pendeu, já murcha…

e a andorinha, seguindo a alma da flor, tomou voo,

pela janela aberta sobre a montanha azul…

 

No entanto, nos lábios da mulher amada

abre-se a flor rosada e pequenina,

e as negras pestanas, que lhe velam os claros olhos,

não têm o ar inquieto de quem quer bater as asas…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.312





Trova da insensatez

12 07 2017

 

 

juntos, arthur sarnoffIlustração Arthur Sarnoff.

 

 

Na insensatez da paixão

que me pega, e não tem cura,

deixo de lado a razão

e dou razão á loucura!

 

(Marina Bruna)





Sobre livros: Erri de Luca

10 07 2017

 

 

Matisse,still-life-with-books-and-candle-1890Natureza morta com livros, 1890

Henri Matisse (França, 1869 – 1954)

óleo sobre tela, 45 x 38 cm

Coleção Particular

 

 

“E para ele encompridar mais um pouco me pergunta o que tenho no bolso. Um livro, digo. Qual? Um usado, leio livros em final de exercício. Por quê? Digo-lhe outra vez. A mão dele vai ao bolso do meu casaco, mas não tira, sopesa.

Leio os usados porque as páginas muito folheadas e engorduradas dos dedos pesam mais nos olhos, porque cada cópia de livro pode pertencer a muitas vidas e os livros deviam ficar desvigiados nos lugares públicos e deslocar-se junto com os passantes que os levam consigo por um pouco e deveriam morrer como eles, consumidos por doenças, infectados, afogados ponte abaixo junto com os suicidas, enfiados num aquecedor no inverno, rasgados pelas crianças para fazer barquinhos, em suma deveriam morrer em qualquer lugar a não ser de tédio e de propriedade privada, condenados a uma prateleira pela vida toda.”

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 25.

 





Poema de Mário Quintana

10 07 2017

 

 

autumn-landscape-at-dusk-1885(1).jpg!HalfHDPaisagem de outono ao cair da tarde, 1885

Vincent van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Centraal Museum, Utrecht, Holanda

 

 

“Esta vida é uma estranha hospedaria,

De onde se parte quase sempre às tontas,

Pois nunca as nossas malas estão prontas,

E a nossa conta nunca está em dia.”

 

Mário Quintana

 

Em: Esconderijos do tempo, Mário Quitana, Porto Alegre, L&PM: 1980.

 








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