Cinelândia, texto de Rubem Braga

29 07 2021

Bar Amarelinho na Cinelândia

Virgílio Dias (Brasil, 1956)

óleo sobre tela

 

 

“… Mais tarde, já na Faculdade, e morando no Catete, me lembro que sábado, de tarde, as vezes a gente metia uma roupa branca bem limpa, bem passada (depois de vários telefonemas à tinturaria) e vínhamos, dois ou três amigos, lavados, barbeados, penteados, assim pelas cinco da tarde, fazer o footing na Cinelândia.  E estavam ali moças de Copacabana e do Méier, com seus vestidos de seda estampados, a boca muito pintada, burburinhando entre as confeitarias e os cinemas. Não nos davam lá muita atenção, essas moças: seus pequenos corações fremiam perante os cadetes e os guardas-marinhas, mais guapos e belos em seus uniformes resplendentes com seus espadins brilhantes.

Tudo isso passou: o sábado inglês, as dificuldades do trânsito e o próprio tempo agiram, e nesta bela tarde de sábado em que me extravio pelo Centro, há apenas alguns palermas como eu zanzando pela Cinelândia. Só agora reparo nisso, e então me sinto um velho senhor saudosista; não há mais sábado na Cinelândia, creio que não há mais cadetes nem guardas-marinhas, todos são tenente-coronéis, capitães-de-corveta e de fragata, perdidos em Agulhas Negras, quartéis, cruzadores recondicionados nesses mares do mundo. …”

 

Em: A borboleta amarela (crônicas), Rubem Braga, 6ª edição, Rio de Janeiro, Record: 1982, p. 117





Plaza Mayor, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

26 07 2021

O casamento, [A boda], 1792

Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)

óleo sobre tela, 269 x 396 cm

Museu do Prado

 
 
Plaza maior

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

 
O mundo, em guerra, não permite abraços.
Mas, nos rostos da rua, há os mesmos traços.

 

 

Diante de Goya, no Museu do Prado,

vejo sombras que as sombras circundantes

parecem reencarnar. Voltando à rua,

vou para o centro velho. Nestes rostos

que me fitam ou não, há retrarados

do mesmo Goya. Sombras tão goyescas

quanto as sombras que vi entre outras sombras.

Assombra-me o prodígio ao sol ardente

de uma Espanha estival. Que liame estreita

os vínculos dos tempos num só tempo?

Que força une as cadeias com que Cronos

ligou as mãos de tantos entre os séculos?

Agora encaro a praça e vou contando,

como os níqueis do bolso,  tantos Goyas.

 

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59

NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.





Jardim, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

22 07 2021
Ilustração de Corinne Malvern
 

Jardim

 

Henriqueta Lisboa

 

 

— Menina faceira

de laço de fita

não vás tão bonita

sozinha ao jardim.

Se pensar Beija-Flor

que teu laço é flor,

pelos ares levará

um anel dos teus cabelos.

 

— Mamãe, não tenha cuidado,

eu sei dar laço bem dado.

 

— Menina trigueira

de faces vermelhas

no jardim sem teu irmão

não fiques, não.

 

Se Beija-Flor imagina

que teu rosto é flor,

menina, minha menina,

de certo um beijo te dá.

 

— Quando ele me der um beijo,

nas minhas mãos estará.

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66





Trova do telefone

19 07 2021
Ilustração Carl Shreve

 

Telefonei-te, outro dia

e ninguém me respondeu.

Confundi-me, que ironia!

— Teu telefone era o meu.

 

(Alberto Lima)

 





Patinhos na lagoa, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

7 06 2021
Ilustração de Cicely Mary Barker (GB, 1895-1973)
 
Patinhos na lagoa

 

Henriqueta Lisboa

 

Chegam de manso, de manso,

finos pescoços esticam,

deslizando, deslizando,

ferem o espaço com o bico,

deslizando

na superfícies do vidro.

 

O espelho da água que ondula

reflete frocos de arminho

(arminho, paina, algodão).

E as nódoas brancas no azul

são delicadas carícias,

recordam jardins de inverno

quando há lã, cristais e neve.

 

Na lagoa muito fria,

sob o ouro do sol que brilha,

mora um céu:

navegam nuvens, navegam …

Doçura da hora que escoa

vagarosa, deslizando

como um pato na lagoa…

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60





Boa leitura…

6 06 2021

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/

 





Recordações carnavalescas, Marques Rebêlo

15 12 2020

 

 

 

cartaz_NJ_0416Carnaval

Nelson Jungbluth (Brasil, 1921 – 2008)

acrílica sobre tela

 

“1914. A grande ambição carnavalesca era usar lança-perfume. Havia tubos para crianças, finos como dedos. Bisnagava-se até cachorro!

Na terça-feira gorda, o chão da Avenida tinha um palmo de confetes, os préstitos eram o delírio do ouropel — clarins, marchas triunfais, fogos-de-bengala, caracolantes ginetes abrindo os cortejos — gato, baeta, carapicu! — bamboleantes sóis, planetas, constelações, Vulcano, Júpiter, Netuno, mitológicos deuses paralisados em gestos de sarrafo e papelão, giratórias esferas rutilantes que se abriam em gomos para desvendar, por instantes deslumbrados, deidades semi-nuas, atirando beijos, para a multidão comprimida, com a ponta dos dedos inatingíveis.

Saímos de tardinha, providos de farnel — sanduíches, pastéis, coxinhas de galinha  — levávamos horas no bonde se arrastando aos arrancos, íamos postar-nos numa esquina propícia, sobre caixotes, para esperar o desfile de proverbial atraso.

Mas se a chama foliona se extinguia na cidade, entre missas, sinos e beatas, na manhã de quarta-feira, prolongava-se em nossa casa por muitos dias além com restos de serpentinas pendentes dos gradis, saldos de confetes tapizando sala de jantar, trono, capitel, concha ou nenúfar, donde Madalena reclinada, soberana, envolta em rotos filós de antigos cortinados, com as faces tingidas por carmim, os cabelos coroados por um desperdício de fitas, atirava em gestos longos cachoeiras de beijos para uma suposta multitude de súditos e adoradores. E a mim, dormido ou acordado, me perseguia incessante, priapística, a luxuriosa visão daquelas deidades apoteóticas, floração de um horto inacessível, habitantes olímpicas, deusas! deusas! pois como poder entrosá-las na fauna feminil que eu conhecia, mesmo a esterlina mulher de doutor Vítor, que era estrangeira e fumava?”

 

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  pp. 217-218





Um amor de Carnaval… Maria Helena Cardoso

10 11 2020

 

 

Haydea Santiago,Carnaval na rua das laranjeiras, OST 80 x 64,1938Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

 

“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.

De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:

— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.

Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:

— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.

Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.

“Graças a Deus”, pensei.

Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.

Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1





O tempo passa, soneto de Maria Braga Horta

31 10 2020
Ilustração, Clara M. Burd
         V

 

Maria Braga Horta

 

O tempo passa.  E passam sol e lua

tantas vezes no céu, que perco a conta

do tempo que, passando, se insinua

na vida que a velhice hoje defronta.

 

O tempo passa, a história continua.

É uma história de amor que se reconta.

Uma história de amor que perpetua

a vida: ora uma acaba, outra desponta.

 

Venho outra vez com bruxas e dragões

e princesas e príncipes e anões

para o mundo irreal dos dois netinhos.

 

Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho

que pairava no olhar de cada filho

…e ainda vão passando os carneirinhos…

 

Brasília, 28-2-1968

 

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 239





“O acendedor de lampiões” poema de Jorge de Lima

26 10 2020
lamplighter-carrying-out-his-duty-mary-evans-picture-libraryGravura anônima do Século XIX.
O acendedor de lampiões

 

Jorge de Lima

 

 

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões de rua!

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62








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