O elefantinho, poesia infantil de Vinícius de Moraes

22 10 2017

 

 

elefante e abacaxi

 

O elefantinho

 

Vinícius de Moraes

 

Onde vais, elefantinho,

correndo pelo caminho,

assim tão desconsolado?

Andas perdido, bichinho,

espetaste o pé no espinho,

que sentes, pobre coitado?

 

— Estou com um medo danado

encontrei um passarinho.

 

Em: O mundo da criança, vol. 1: poemas e rimas,  Rio de Janeiro, Editora Delta: 1971, p. 61.

Em:





Cemitério, poesia infantil de José Paulo Paes

28 08 2017

 

 

james gilleard, cemitério de petsCemitério de pets, ilustração de James Gilleard para Walt Disney.

 

 

 

Cemitério

 

José Paulo Paes

 

“Aqui jaz um leão

chamado Augusto.

Deu um urro tão forte,

mas um urro tão forte,

que morreu de susto.

 

Aqui jaz uma pulga

chamada Cida

Desgostosa da vida,

tomou inseticida:

era uma pulga suiCida.

 

Aqui jaz um morcego

que morreu de amor

por outro morcego.

Desse amor arrenego:

amor cego, o de morcego!

 

 

Neste túmulo vazio

jaz um bicho sem nome.

Bicho mais impróprio!

Tinha tanta fome

que comeu-se a si próprio”.

 

 

Em: Poemas para brincar, José Paulo Paes, São Paulo, Ática: 1994.

 





Caixa mágica de surpresa, poesia de Elias José

14 08 2017

 

 

surpresa comm sapo, cobra e tartarugaSurpresa, ilustração, desconheço a autoria e não consigo ler a assinatura.

 

 

Caixa mágica de surpresa

 

Elias José

 

Um livro

é uma beleza,

é caixa mágica

só de surpresa.

 

Um livro

parece mudo,

Mas nele a gente

descobre tudo.

 

 

Um livro

tem asas

longas e leves

que, de repente,

levam a gente

longe, longe

 

Um livro

é parque de diversões

cheio de sonhos coloridos,

cheio de doces sortidos,

cheio de luzes e balões.

 

Um livro é uma floresta

com folhas e flores

e bichos e cores.

É mesmo uma festa,

um baú de feiticeiro,

um navio pirata do mar,

um foguete perdido no ar,

É amigo e companheiro.

 

Em: Caixa mágica de surpresa, Elias José, 1997: Editora Paulus





Fim do outono, poesia infantil de Zinda Maria Vasconcellos

1 05 2017

 

 

outono, g highamOUTONO, ilustração de G. Higham

 

 

Fim de outono

 

Zinda Maria Vaconcellos

 

Árvores cheias de frutos,

com as folhas avermelhadas,

estão quietinhas, parada,

parecem ter muito sono…

que bom, estamos no outono…

 

Já mudou a paisagem,

o vento com sua aragem,

põe nuazinhas as árvores.

Folhas caídas, bailando,

vão o chão todo enfeitando.

É o inverno que vem chegando.

 

 

Em: O mundo da criança, vol. 1: poemas e rimas,  Rio de Janeiro, Editora Delta: 1971, p. 146





O nome da gente, poesia Pedro Bandeira

12 04 2017

 

árvore de familia treecarpiÁrvore da família Donald. ©Estúdios Disney.

 

 

O nome da gente

 

Pedro Bandeira

 

Por que é que eu me chamo isso

E não me chamo aquilo?

Por que é que o jacaré

Não se chama crocodilo?

 

Eu não gosto

do meu nome,

não fui eu

quem escolheu.

Eu não sei porque se metem

com um nome que é só meu!

 

O nenê

que vai nascer

vai chamar

como o padrinho,

vai chamar

como o vovô,

mas ninguém vai perguntar

o que pensa

o coitadinho.

 

Foi meu pai quem decidiu

que o meu nome fosse aquele.

Isso só seria justo

se eu escolhesse

o nome dele.

 

Quando eu tiver um filho,

não vou pôr nome nenhum.

Quando ele for bem grande,

ele que escolha um!

 

 

Em: Cavalgando o arco-íris, Pedro Bandeira,  São Paulo, Moderna: 1984, páginas 12-13.

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O reformador do mundo, fábula de Monteiro Lobato

10 03 2017

 

 

DSC01027Zé da Roça tira uma soneca na sombra de uma árvore. © Estúdios Maurício de Sousa

 

 

O reformador do mundo

 

Monteiro Lobato

 

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.  O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia asneiras.

—  Asneiras, Américo?

—  Pois então?!…  Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso.  Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.  Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.  Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

— Mas o melhor – concluiu, é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-pisca, pisca piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu.  Dormiu e sonhou.  Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.  Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf!  Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio o nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

—  Que espiga! … Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta do lugar da jabuticaba?  Hum!  Deixemo-nos de reformas.  Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a Natureza.

 

 

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense:1966, 20ª edição, pp.19-20.

 





Resenha: “Kafka e a boneca viajante”de Jordi Sierra i Fabra

11 02 2017

 

 

 

1939-524_wFooting no Central Park, 1905

William Glackens (EUA, 1870- 1938)

óleo sobre tela, 64 x 81 cm

Cleveland Art Museum

 

 

Em 2007 o Ministério da Cultura da Espanha deu a esse livro, Kafka e a boneca viajante, o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil. Desde então a publicação tem recebido atenção não só do público infanto-juvenil, mas sobretudo do leitor maduro, aquele que também sonha com um lado suave do escritor checo Franz Kafka, conhecido por obras angustiantes, de cunho surrealista como A metamorfose e O processo. A razão é simples não conhecemos toda a obra de Kafka, mesmo ele tendo morrido aos 40 anos em 1924.

Há ainda manuscritos de Kafka que não foram destruídos após sua morte, como o escritor havia instruído seu testamenteiro Max Brod. A ordem foi, na verdade, prontamente desobedecida. E alguns livros publicados. Mas nem todos. Estima-se que haja centenas de obras acabadas ou não, sem publicação. Hoje, são fruto de uma interminável batalha entre as atuais herdeiras e o estado de Israel. Além disso, Kafka, que era conhecido por muitos casos românticos, deixou em poder de sua última amante uma série de cadernos e cartas que foram confiscados pela Gestapo. Tudo isso suscitou através de décadas muitas teorias fantasiosas sobre o que restou. Entre elas estariam algumas cartas que Kafka escreveu de consolo a uma menina que ele encontrou chorando, num parque de Berlim. Ela estava triste com a perda de sua boneca. Essas cartas, que nunca foram encontradas, fazem parte das lendas do remanescente legado do escritor. Baseando-se neste causo romântico Jordi Sierra i Fabra escreveu a deliciosa e lírica narrativa de Kafka e a boneca viajante.

 

kafka_e_a_boneca_viajante_1305303527b

 

Firmemente apoiado nos relatos de Dora Diamant, última companheira de Kafka, que mencionou a existência das cartas, o autor tece uma história comovente, criativa e delicada de um “carteiro de bonecas” que recebe e lê as cartas que Brígida, a boneca fujona escreve para Elsi, a menina inconformada, de diversos lugares do mundo.

Jordi Sierra i Fabra entrelaça dados conhecidos da vida de Franz Kafka com o romance das cartas e o resultado é uma obra fina, sutil, sensível e agradável. Um relato em que o jovem leitor aprende um tantinho sobre o autor checo e pode se encantar com a história de Brígida.

A obra ganha muito com as ricas ilustrações de Pep Monserrat.

 

jordi-sierra-i-fabraJordi Sierra i Fabra

 








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