Jardim, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

22 07 2021
Ilustração de Corinne Malvern
 

Jardim

 

Henriqueta Lisboa

 

 

— Menina faceira

de laço de fita

não vás tão bonita

sozinha ao jardim.

Se pensar Beija-Flor

que teu laço é flor,

pelos ares levará

um anel dos teus cabelos.

 

— Mamãe, não tenha cuidado,

eu sei dar laço bem dado.

 

— Menina trigueira

de faces vermelhas

no jardim sem teu irmão

não fiques, não.

 

Se Beija-Flor imagina

que teu rosto é flor,

menina, minha menina,

de certo um beijo te dá.

 

— Quando ele me der um beijo,

nas minhas mãos estará.

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66





Patinhos na lagoa, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

7 06 2021
Ilustração de Cicely Mary Barker (GB, 1895-1973)
 
Patinhos na lagoa

 

Henriqueta Lisboa

 

Chegam de manso, de manso,

finos pescoços esticam,

deslizando, deslizando,

ferem o espaço com o bico,

deslizando

na superfícies do vidro.

 

O espelho da água que ondula

reflete frocos de arminho

(arminho, paina, algodão).

E as nódoas brancas no azul

são delicadas carícias,

recordam jardins de inverno

quando há lã, cristais e neve.

 

Na lagoa muito fria,

sob o ouro do sol que brilha,

mora um céu:

navegam nuvens, navegam …

Doçura da hora que escoa

vagarosa, deslizando

como um pato na lagoa…

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60





O leão e o camundongo, Olavo Bilac

20 07 2020

 

 

Willy ARACTINGI (1930-)Ilustração de Willy Aractingi (1930-)

 

 

O leão e o camundongo
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.

 

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se  furioso…

Com todo seu vigor as cordas não partiu.

 

Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

 

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,

Deve os fracos tratar com caridade e amor.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 132-3





A rã e o touro, Olavo Bilac

25 06 2020

 

 

illustrations_couleur_fables_de_la_Fontaine_par_Vimar_-_la_grenouille_qui_veut_se_faire_aussi_grosse_que_le_boeufIlustração de Auguste Vimar (1851-1916)

 

 

A rã e o touro
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que os outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”

Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…

Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro

Rebentou e morreu, sem ficar  como um touro.

 

Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8

 





As velhas árvores, Olavo Bilac

16 06 2020

 

 

Edgar Walter - Quadro á óleo sobre tela representando Parque com figuras.54 x 72 cmParque com figuras

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 54 x 72 cm

 

As velhas árvores

 

Olavo Bilac

 

Olhas estas velhas árvores,  — mais belas,

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

 

O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E alegria das aves tagarelas…

 

É preciso, desde a infância,

Ir preparando o futuro;

Para chegar à abundância,

É preciso semear…

 

Não nasce a planta perfeita,

Não nasce o fruto maduro;

E, para ter a colheita,

É preciso semear…

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116





O relógio, poema de Jorge de Lima

17 05 2020

 

 

l27horlogedesapience28theclockofwisdom29fromabout1450O relógio do saber, século XV. — L’Horloge de Sapience (Bruxelles, Bibliothèque Royale , ms. IV 111

 

O relógio…

 

Jorge de Lima

 

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…

Consulto-te: um segundo!  E quem sabe se agora,

Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos

Alma que filosofa e investiga e labora?

 

Há de a morte ceifar somas de moribundos.

O relógio trabalha… E um sorri e outro chora,

Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos

Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

 

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,

Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético

Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

 

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,

Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:

A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!

 

[A Instrução, Maceió, 1907]

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 45





Eu e a árvore, poesia infantil de Martins d’Alvarez

11 05 2020

 

 

meninos na arvore

 

Eu e a árvore

 

Martins d’Alvarez

 

Quando nasci, papaizinho

plantou, em nosso quintal,

uma arvorezinha esguia,

para ver qual de nós duas

cresceria mais depressa,

qual mais alta ficaria.

 

Mamãe cuidava de mim

e papai cuidava da árvore,

toda noite e todo dia.

Mas, enquanto eu engordava,

crescendo para todo lado,

a arvorezinha subia…

 

Hoje, já estamos crescidas.

Ela bate no telhado…

Eu só alcanço a janela;

mas por vingança, eu me trepo

nos galhos, até ficar

muito mais alta que ela.

 

Em: O mundo da criança: poemas e rimas: , vol. I, Rio de Janeiro, Delta: 1975, p. 99

 

 





Poema dos insetos, de Lucas Durand

23 03 2020

 

 

987624596Ilustração de Catherine Barnes.

 

 

Poema dos Insetos

 

Lucas Durand

 

Zum, zum, zum, zum

Sou pequenininha

Eu me acho lindinha

E sou tão miudinha

Eu faço cosquinha

Eu gosto de pelo

Detesto o gelo

Estou no camelo

No cão do teu zelo

Até no seu cabelo

Ando saltitante

Dou pulinho constante

Sou quase invisível

É quase impossível

Ver esta coisinha

Tão engraçadinha

Meio nojentinha

Na sua caminha

Cheirosa e limpinha

Ali escondidinha

Esta fofa pulguinha!

 

 

Lucas Durand é o pseudônimo de José Geraldo dos Santos, de Belo Horizonte, MG, escritor e poeta.





“Histórias ao vento”, poesia infantil de Adalgisa Nery

2 03 2020

 

 

 

vento no outonoIlustração inglesa, 1950s.

 

 

Histórias ao vento

 

Adalgisa Nery

 

O vento veio correndo

Assoviando, gritando

Que vira a lua nascendo,

Que vira a estrela brilhando,

Que o beija-flor vira voando,

Que o rio vira cantando

E o fruto amarelando.

Que vira o orvalho caindo

Sobre a relva e sobre a flor,

Que vira a abelha zumbindo

Dentro das pétalas em cor,

Que vira a semente no chão,

Nas águas, o peixe mudo,

O pastor tangendo as ovelhas

Cantando por nada e por tudo.

O vento veio correndo,

Assoviando, cantando

Que vira o mais belo mundo:

Uma criança nascendo,

Uma criança brincando,

Uma criança sorrindo, vivendo,

Uma criança cantando.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 185.

 





Brincar de trabalhar, poesia de Renato Sêneca Fleury

30 01 2020

 

 

 

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Brincar de trabalhar

 

Renato Sêneca Fleury

 

Um brinquedo de que eu gosto

é brincar de trabalhar.

Pensam vocês, eu aposto,

que isso não é brincar.

 

Sem a gente perceber,

vai brincando e aprendendo.

Com brinquedos a fazer,

coisas úteis vou fazendo.

 

Eu já fiz a minha estante,

um limpa-pés também fiz.

Tenho brincado bastante,

mas trabalhando… quem diz?








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