Trova da liberdade

18 08 2019

 

 

 

bird-cage-art-floral-birdcage-by-canvas-artworkAutoria desconhecida.

 

 

Por mais conforto e carinho

numa gaiola dourada,

a ave não esquece o ninho

e a liberdade ceifada.

 

(Severino Campelo)

 

 





Trova do meu gato

9 08 2019

 

 

 

gato com menina Anne_MortimerIlustração de Anne Mortimer.

 

 

O meu gato é meu amigo…

Em casa, na falta dela,

assiste a T V comigo,

do futebol à novela.

 

(Dari Pereira)





Tradução, uma coisa complicada: variações do SONETO 18 de Shakespeare

4 08 2019

 

 

 

Aldo Balding (GB)KATIE, 70 X 50 CMKatie

Aldo Balding (GB, 1960)

óleo sobre tela, 70 x 50 cm

 

No ano passado, coloquei aqui no blog, a tradução de Bárbara Heliodora, do Soneto 18 de Shakespeare, um dos mais conhecidos mundialmente.  Mas, há outras, muitas outras, e se compararmos podemos ver como a cada tradução o poema muda um tanto…  São todas boas e traduzidas por conhecidos poetas, mas a dificuldade da tradução de poesias é evidente. Vejamos, por curiosidade o que acontece.

O soneto pode aparecer nesta forma 4-4-3-3 ou seguido.  Optei por 4-4-3-3 para aumentar a legibilidade na tela.

ORIGINAL EM INGLÊS

 

SONNET 18

 

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

 

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimm’d;

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course, untrimm’d;

 

But thy eternal summer shall not fade

Nor lose possession of that fair thou ow’st;

Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,

 

When in eternal lines to time thou grow’st;

So long as men can breathe or eyes can see,

So long lives this, and this gives life to thee.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

NA TRADUÇÃO DE BÁRBARA HELIODORA  (Brasil 1923 — 2015)

 

Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

 

Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

 

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

 

Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE EMMANUEL SANTIAGO  (Brasil, 1984)

 

Poderei comparar-te ao fulgor do verão?

Tu és tão mais amável e tão mais ameno:

A tormenta de maio a flor tolhe em botão

E o verão se consome num prazo pequeno.

 

Quando faz calor, o olho do céu nos fulmina,

Outras vezes oculta a dourada nudeza;

E, de tudo que é belo, a beleza declina

Por acaso ou por sua fugaz natureza.

 

Mas, sem fim, teu verão não conhece fastio,

Nem sequer perde o viço no curso das eras,

Nem a Morte te envolve em seu manto sombrio,

 

Pois no verso indelével o tempo superas:

…….. Enquanto homens houver, e olhos prontos a ver,

…….. Enquanto isto for lido, tu hás de viver.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE VASCO GRAÇA MOURA (Portugal, 1942 – 2014)

 

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

 

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

 

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

 

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

NA TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS (Brasil, 1919 – 1992)

 

A um dia de verão como hei de comparar-te?

Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:

Em maio o vendaval ternos botões disparate,

E o estio se consome em prazo não durável;

 

Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,

Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;

Decai da formosura, é certo, a formosura,

Pelo tempo ou o acaso enfim desadornada:

 

Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,

Nem hás de a possessão perder de tuas galas;

Vagando em sua sombra o Fim não te verá,

 

Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:

Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,

Meu canto existirá, e nele hás de viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA (Brasil/Portugal 1921 – 1981)

 

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

 

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

 

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

 

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÂO DE GERALDO CARNEIRO (Brasil, 1952)

 

Te comparar com um dia de verão?

Tu és mais temperada e adorável.

Vento balança em maio a flor-botão

E o império do verão não é durável.

 

O sol às vezes brilha com rigor,

Ou sua tez dourada é mais escura;

Toda beleza enfim perde o esplendor,

Por acaso ou descaso da Natura;

 

Mas teu verão nunca se apagará,

Perdendo a posse da beleza tua,

Nem a morte rirá por te ofuscar,

 

Se em versos imortais te perpetuas.

Enquanto alguém respire e veja e viva,

Viva este poema, e nele sobrevivas.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO  (Brasil, 1929)

 

Devo igualar-te a um dia de verão?

Mais afável e belo é o teu semblante:

O vento esfolha Maio inda em botão,

Dura o termo estival um breve instante.

 

Muitas vezes a luz do céu calcina,

Mas o áureo tom também perde a clareza:

De seu belo a beleza enfim declina,

Ao léu ou pelas leis da Natureza.

 

Só teu verão eterno não se acaba

Nem a posse de tua formosura;

De impor-te a sombra a Morte não se gaba

 

Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.

Enquanto houver viventes nesta lida,

Há-de viver meu verso e te dar vida.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

 

NA TRADUÇÃO DE THEREZA CHRISTINA ROQUE DA MOTTA (Brasil, 1957)

 

Como hei de comparar-te a um dia de verão?

És muito mais amável e mais amenas

Os ventos sopram os doces botões de maio,

E o verão finda antes que possamos começá-lo:

 

Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,

Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;

E tudo que é belo um dia acaba,

Seja pelo acaso ou por sua natureza;

 

Mas teu eterno verão jamais se extingue,

Nem perde o frescor que só tu possuis;

Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,

 

Quando os versos te elevarem à eternidade:

Enquanto a humanidade puder respirar e ver,

Viverá meu canto, e ele te fará viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

 

NA TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY   (Brasil, 1938 -1999)

 

Comparar-te com um dia de verão?

Tens mais doçura e mais amenidade:

Flores de maio, ao vento rude vão

Como o estio se vai, com brevidade:

 

O sol às vezes em calor se exalta

Ou tem a essência de ouro sem firmeza

E o que é formoso, à formosura falta,

Por sorte ou por mudar-se a natureza.

 

Mas teu verão eterno brilha a ver-te

Guardando o belo que em ti permanece.

Nem a morte rirá de ensombrecer-te,

 

Quando em verso imortal, no tempo cresces.

Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,

Viva o meu verso e a vida te ofereça.

 





Trova do adeus

25 07 2019

 

 

 

adeus, a e martyIlustração, A. E. Marty

 

 

Meu lenço, na despedida,

tu não viste, em movimento:

lenço molhado, querida,

não pode agitar-se ao vento.

 

(Carlos Guimarães)





Uma amiguinha, poesia infantil de Zalina Rolim

20 07 2019

 

 

 

art frahmIlustração Art Frahm

 

 

Uma amiguinha

 

Zalina Rolim

 

É inteligente e graciosa;

Mais limpa, que ela, não há:

Focinhito cor-de-rosa,

E chama-se Resedá.

Muito orgulhosa e faceira,

Não quer saber da cozinha,

E, à sesta, sob a roseira,

Dorme um sono de rainha.

Gosta do sol, ama as flores,

Corre por todo o jardim,

E tem, no dorso, em três cores,

A maciez do cetim.

Em pequenino açafate,

Todo acolchoado e felpudo,

De vivo tom escarlate

Tem o berço de veludo.

É toda mimos da sorte,

Gatinha de estimação,

Defende-a, contra o mais forte,

Das patas vivo arranhão.

Mas é boazinha e correta;

Não provoca ásperos tratos;

Somente mostra-se inquieta,

Se escuta rumor de ratos.

Então – adeus, gentileza! –

É toda instinto animal,

De um salto, atira-se à presa…

E é como as outras, tal qual.





São Paulo, poesia de Ribeiro Couto

24 06 2019

 

 

 

Durval Pereira,Lago Santa Cecília,60 x 80 cm,óleo sobre tela,1960Largo de Santa Cecília, 1960

Durval Pereira (Brasil, 1918- 1984)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

São Paulo

 

Ribeiro Couto

 

São Paulo da garoa intermitente,

Da penumbra que às vezes coadjuva

A nostalgia… — Quem, meu Deus, não sente

Um pouco desse ambiente… desta “Chuva”…

 

A chuva fina molha a paisagem lá fora,

O dia está cinzento e longo… um longo dia!

Tem-se a vaga impressão de que o dia demora…

E a chuva fina continua, fina e fria,

Continua a cair pela tarde, lá fora.

 

Da saleta fechada em que estamos os dois,

Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:

A chuva fina continua, fina e lenta…

E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta

Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria…

Ah! para que falar? Como é suave, brando

O tormento de adivinhar — quem o faria?

As palavras que estão dentro de nós chorando…

 

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,

Estão lá fora no jardim se desfolhando,

Chove dentro de nós… Chove melancolia…

 

 

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 239-40.

 





Trova dos jangadeiros

17 06 2019

 

 

 

VAN DIJK, Wim (1915 1990)Jangada de Ceará, o.s.t. 46 x 55. Assinado cid e verso, datado 1988Jangada do Ceará,  1988

Win Van Dijk (Holanda/Brasil, 1915-1990)

óleo sobre tela,  46 x 55 cm

 

 

Conversas de marinheiro

ouço nas conchas do mar.

São almas de jangadeiros

Que não puderam voltar.

 

(Hegel Pontes)








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