Trova do caminho

21 09 2021

Não te desvies da estrada,

buscando atalhos bisonhos;

a vida não vale nada

se sufocares teus sonhos…

 

(Ercy Maria Marques de Faria)





Trova do sol

2 09 2021
Marina vê o nascer do dia, ilustração Maurício de Sousa.

 

 

O sol, cumprida a rotina,

cerra o painel em que atua,

some por trás da colina

e abre o portão para a lua.

 

(Dorothy Jansson Moretti)

 





Gostos, poesia de Bastos Tigre

17 08 2021
Beijo, 1950, ilustração de Gilbert Bundy.

 

 

Gostos

 

 

Bastos Tigre

 

—Ora um beijo… afinal que custa um beijo?

Eu não digo que o dês a toda gente;

Porém a mim, se se apresenta o ensejo,

Por que mo negas, peremptoriamente?

 

Lábios juntos… zás-trás! E o meu desejo

Satisfeito! É tão rápido!… Consente!

Nenhum grande pecado eu nisso vejo;

E que fosse! O bom Deus é complacente…

 

— Não dou, já disse! E grito se mo deres!

— Bem, não faças tamanho espalhafato…

(Beijos não faltarão, haja mulheres!)

 

Mas, meu benzinho, vamos ser cordatos;

Como é que a dar-me um beijo, tu preferes

Dá-los na boca ignóbil dos teus gatos?!…

 

Em:  Antologia Poética, Bastos Tigre, Volume 2, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982, pp, 389-90





Plaza Mayor, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

26 07 2021

O casamento, [A boda], 1792

Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)

óleo sobre tela, 269 x 396 cm

Museu do Prado

 
 
Plaza maior

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

 
O mundo, em guerra, não permite abraços.
Mas, nos rostos da rua, há os mesmos traços.

 

 

Diante de Goya, no Museu do Prado,

vejo sombras que as sombras circundantes

parecem reencarnar. Voltando à rua,

vou para o centro velho. Nestes rostos

que me fitam ou não, há retrarados

do mesmo Goya. Sombras tão goyescas

quanto as sombras que vi entre outras sombras.

Assombra-me o prodígio ao sol ardente

de uma Espanha estival. Que liame estreita

os vínculos dos tempos num só tempo?

Que força une as cadeias com que Cronos

ligou as mãos de tantos entre os séculos?

Agora encaro a praça e vou contando,

como os níqueis do bolso,  tantos Goyas.

 

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59

NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.





Jardim, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

22 07 2021
Ilustração de Corinne Malvern
 

Jardim

 

Henriqueta Lisboa

 

 

— Menina faceira

de laço de fita

não vás tão bonita

sozinha ao jardim.

Se pensar Beija-Flor

que teu laço é flor,

pelos ares levará

um anel dos teus cabelos.

 

— Mamãe, não tenha cuidado,

eu sei dar laço bem dado.

 

— Menina trigueira

de faces vermelhas

no jardim sem teu irmão

não fiques, não.

 

Se Beija-Flor imagina

que teu rosto é flor,

menina, minha menina,

de certo um beijo te dá.

 

— Quando ele me der um beijo,

nas minhas mãos estará.

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66





Trova do telefone

19 07 2021
Ilustração Carl Shreve

 

Telefonei-te, outro dia

e ninguém me respondeu.

Confundi-me, que ironia!

— Teu telefone era o meu.

 

(Alberto Lima)

 





Patinhos na lagoa, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

7 06 2021
Ilustração de Cicely Mary Barker (GB, 1895-1973)
 
Patinhos na lagoa

 

Henriqueta Lisboa

 

Chegam de manso, de manso,

finos pescoços esticam,

deslizando, deslizando,

ferem o espaço com o bico,

deslizando

na superfícies do vidro.

 

O espelho da água que ondula

reflete frocos de arminho

(arminho, paina, algodão).

E as nódoas brancas no azul

são delicadas carícias,

recordam jardins de inverno

quando há lã, cristais e neve.

 

Na lagoa muito fria,

sob o ouro do sol que brilha,

mora um céu:

navegam nuvens, navegam …

Doçura da hora que escoa

vagarosa, deslizando

como um pato na lagoa…

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60





Boa leitura…

6 06 2021

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/

 





O tempo passa, soneto de Maria Braga Horta

31 10 2020
Ilustração, Clara M. Burd
         V

 

Maria Braga Horta

 

O tempo passa.  E passam sol e lua

tantas vezes no céu, que perco a conta

do tempo que, passando, se insinua

na vida que a velhice hoje defronta.

 

O tempo passa, a história continua.

É uma história de amor que se reconta.

Uma história de amor que perpetua

a vida: ora uma acaba, outra desponta.

 

Venho outra vez com bruxas e dragões

e princesas e príncipes e anões

para o mundo irreal dos dois netinhos.

 

Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho

que pairava no olhar de cada filho

…e ainda vão passando os carneirinhos…

 

Brasília, 28-2-1968

 

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 239





“O acendedor de lampiões” poema de Jorge de Lima

26 10 2020
lamplighter-carrying-out-his-duty-mary-evans-picture-libraryGravura anônima do Século XIX.
O acendedor de lampiões

 

Jorge de Lima

 

 

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões de rua!

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62








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