Ah! A adolescência… trecho de Paul Auster

2 01 2020

 

 

 

aula de dança

 

 

“Em 1959, poucas mulheres no subúrbio tinham emprego, mas Ferguson e seu amigo tinham mães que eram mais que donas de casa e, consequentemente, foram obrigados a serem mais independentes e autoconfiantes do que a maioria de seus colegas de escola, e agora que tinham doze anos e começavam a curva que levava ao portão da adolescência, o fato de terem largos intervalos de tempo, só para eles, sem a supervisão de ninguém, estava se revelando uma vantagem, pois nessa etapa da vida os pais são, seguramente, as pessoas menos interessantes do mundo, e quanto menos tivermos de ficar com eles, melhor. Portanto, os dois podiam ir à casa de Ferguson depois da escola e ligar a televisão pra ver American Bandstand ou Million Dollar Movie sem medo de serem repreendidos por desperdiçar as últimas horas preciosas da luz do dia sentados dentro de casa numa tarde tão linda. Por duas vezes naquela primavera, eles conseguiram convencer Glória Dolan e Peggy Goldstein a irem para casa com eles, para bailes a quatro, na sala, e como nessa altura Ferguson e Glória já eram veteranos em beijar, seu exemplo inspirou Howard e Peggy a experimentarem sua própria iniciação na complexa arte do beijo de língua.”

 

Em: 4321, Paul Auster, Cia das Letras: 2018, páginas 167-168





Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de Luiz Vaz de Camões

30 12 2019

 

 

 

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Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

 

Luiz Vaz de Camões

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.





A peregrina seleciona os melhores do ano!

22 12 2019

 

 

 

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Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira

 

 

Coisa interessante:  em 2019 um dos grupos de leitura que coordeno me fez reler alguns livros.  Assim sendo vou colocar aqui três listas.  Os melhores que li independentemente dos meus grupos de leitura; os melhores do ano considerando todos os livros lidos, mas marcando aqueles que também foram relidos.

 

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Livros lidos, independentemente dos dois grupos de leitura que coordeno.

Louis Auchincloss, The Scarlet Letters

Albert Camus, O mito de Sísifo

Julian Fellowes, Passado Imperfeito

Moshin Hamid, Passagem para o ocidente

Binnie Kirshenbaum, Poesia pura

Pedro Mairal, A uruguaia

Amin Maalouf, Origins

Gabriel Garcia Marquez, Olhos de cão azul

Martin Page, Talvez uma história de amor

Georges Simenon, O quarto azul

Amor Towles, Regras de Cortesia

David Trueba, Blitz

 

Ressalto esses quatro livros abaixo:

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Passado imperfeito, Julian Fellowes, Editora Prumo, 594 páginas

Damian Baxter é o homem mais rico da Inglaterra, com um patrimônio estimado em 500 milhões de libras. Mora sozinho em um castelo suntuoso, cercado de empregados. Porém, está morrendo. Uma carta, sem remetente ou assinatura, recebida há meses, afirma que ele possui um herdeiro.

Estranho pois, quando se casou, já era estéril, resultado de uma caxumba aos vinte e poucos anos. Teria, então, sido pai na adolescência? Mas quem teria escondido a criança ou mantido esse segredo por tanto tempo? E por quê? Ele precisa tirar essa dúvida antes de morrer.

É nesse momento que pensa em investigar o acontecido, mas já sabe que não será fácil, pois o único homem que sabe onde procurar é seu pior inimigo.

 

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A uruguaia, Pedro Mairal, Editora Todavia: 2018, 128 páginas

A uruguaia apresenta o argentino Pedro Mairal, um dos narradores mais destacados da nova literatura latino-americana. Este romance divertido e apaixonante sobre afetos, crise conjugal, autoengano e busca pela felicidade mostra, através das peripécias sentimentais de um escritor recém-chegado aos quarenta anos, como devemos enfrentar as promessas que fazemos e não cumprimos e as diferenças entre aquilo que somos e o que realmente gostaríamos de ser. Narrado com leveza e brilhantismo trata de temas como amor e culpa, responsabilidade e libertação pessoal, estabelece de uma vez por todas o talento de Pedro Mairal como um dos nomes de destaque de um novo “boom” da literatura latino-americana.

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O quarto azul, Georges Simenon, Companhia das Letras: 2015, 136 páginas

Tony Falcone e Andrée Despierre não se viam desde a infância. Numa noite de setembro, reencontram-se por acaso e tornam-se amantes. Durante onze meses, marcam encontros no “Quarto Azul” de um hotel mantido pela irmã de Tony. No último encontro, porém, o marido de Andrée, Nicolas, é visto caminhando em direção ao hotel.

Bem naquele dia, ela se declarara, sugerindo que abandonem os casamentos e fiquem juntos. Tony consegue fugir antes de ser flagrado — mas, pouco depois, a morte repentina de Nicolas o deixa em situação complicada. Publicado em 1964, O quarto azul figura entre os célebres “romances duros” de Georges Simenon — aqueles que
não trazem o comissário Maigret como protagonista, mas mergulham em atmosferas sombrias e personagens perturbados.

As cenas de sexo são cruas e completamente desprovidas de eufemismo. Logo nas primeiras páginas, Tony está orgulhoso de ver seu sêmen escorrer da vagina da amante enquanto tenta com um ano aplacar a ferida que ela lhe fez com uma mordida no lábio. O mesmo vale para a violência e os sentimentos dos personagens: tudo no livro é seco e dito da forma mais direta possível. Tony e Andrée caminham por um mundo embrutecido e parecem alheios à culpa, ao pudor, ao arrependimento. Adaptado para o cinema em 2014 — o longa é estrelado pelo francês Mathieu Amalric —, O quarto azul sintetiza os melhores atributos da obra de Simenon e mantém o leitor sem fôlego até a última página.

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Regras de Cortesia, Amor Towles, Rocco: 2012, 320 páginas

Após os duros anos de depressão, a cidade de Nova York reinventa-se através da vida glamourosa dos clubes de jazz e dos coquetéis em apartamentos luxuosos. Neste cenário, a jovem Katey Kontent, filha de um imigrante russo criada no Brooklyn, aprende a acompanhar o ritmo da mudança no que será um ano crucial em sua vida: 1938. Tudo começa, quando, ao lado da amiga Eve Ross, Katey decide passar a última noite de 1937 em uma boate quase vazia no Greenwich Village, ouvindo um quarteto de jazz. É lá que as duas conhecem Tinker Grey, um jovem e charmoso banqueiro, cuja educação e gentileza o tornam ainda mais atraente. A partir daí, os três começam uma relação que mistura amizade e flerte e mexerá para sempre com suas vidas.

Contado em flashback, Regras de Cortesia é o retrato nostálgico de uma cidade mítica, ao mesmo tempo caldeirão cultural e templo de uma elite sofisticada e glamourosa, com uma protagonista que não tem medo de buscar seu lugar ao sol. O resultado é um conto de fadas moderno, uma história de superação, capaz de agradar a fãs de Francis Scott Fitzgerald e Truman Capote, de jazz e histórias de amor. Bestseller do New York Times, o livro foi escolhido um dos dez melhores romances do ano pelo The Wall Street Journal em 2011 e ganhou recentemente o prêmio Fitzgerald, na França.

 

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Levando em consideração outros livros lidos junto aos dois grupos de leitura, que coordeno, totalizam 33 livros lidos em 2019.

Maya Angelou, Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

Louis Auchincloss, The Scarlet Letters

Fredrik Backman, Minha avó pede desculpas

John Boyne, As fúrias invisíveis do coração

Albert Camus, O mito de Sísifo

Emmanuel Carrère, Limonov

Ruy Castro, Era no tempo do rei

Julian Fellowes, Passado Imperfeito

Moshin Hamid, Passagem para o ocidente

Milton Hatoum, Dois irmãos

Veera Hiranandani, O diário de Nisha

Michel Houellebecq, Plataforma

Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada

Binnie Kirshenbaum, Poesia pura

Mário Lago, Na rolança do tempo

Pedro Mairal, A uruguaia

Amin Maalouf, Origins

Hilton Marques, A senhora das savanas

Gabriel Garcia Marquez, Olhos de cão azul

Rosa Montero, O coração do tártaro

Haruki Murakami, Kafka à beira-mar

Martin Page, Talvez uma história de amor

Rachel de Queiroz e Maria Luiza de Queiroz, Tantos anos

Lucinda Riley, A garota italiana

Carol Shields, Os diários de pedra

Georges Simenon, O quarto azul

Domenico Starnone, Assombrações

Amy Tan, As redes da ilusão

Leon Tolstoy, Anna Karenina

Amor Towles, Regras de Cortesia

David Trueba, Blitz

Chaia Zisman, Uma família como a nossa

O construtor de pontes,  Markus Zusak

 

Além dos quatro acima citados e ilustrados adiciono seis:

 

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Anna Karenina, Leo Tolstoy, diversas editoras, diversas datas

Leo Tolstoy escreveu Anna Kariênina entre 1873 e 1877, prestes a completar 45 anos. Depois de escrever o romance Guerra e paz , entre 1863 e 1869, dedicara-se aos afazeres agrícolas, além de fundar escolas, elaborar e difundir teorias e técnicas pedagógicas polêmicas e estudar o grego com afinco. Ao mesmo tempo, foi acumulando uma impressionante quantidade de informações sobre o tsar Pedro, o Grande. Seu intuito era escrever um romance sobre a época em que Pedro I foi o imperador da Rússia.

Após tentativas obstinadas, Tolstói desistiu do projeto. Por outro lado, nutria a ideia de fazer um relato sobre uma mulher adúltera, da alta sociedade. Durante um tempo, estes dois temas levaram vidas independentes em seu pensamento. Quando a imaginação os uniu, Anna Kariênina começou a nascer. Em janeiro de 1875, a revista Mensageiro russo publicou os primeiros catorze capítulos de Anna Kariênina.

Tolstói distribuiu ao longo do livro os temas que o inquietavam, discutidos pelos personagens – a guerra da Sérvia, a administração agrícola, o regime da propriedade da terra, a relação com os trabalhadores, a decadência da nobreza, a educação das crianças, o casamento, a religião, o serviço militar compulsório, as teorias de Spencer, Lasalle, Darwin e Schopenhauer. Estruturado em paralelismos, o livro se articula por meio de contrates – a cidade e o campo; as duas capitais da Rússia (Moscou e São Petersburgo); a alta sociedade e a vida dos mujiques; o intelectual e o homem prático, etc.

O tema é descentralizado a cada novo episódio. Os dois principais personagens, Liévin e Anna, só se encontram uma vez, em toda a longa narrativa. Mas nem por isso estão menos ligados, pois a situação de um permanece constantemente referida à situação do outro. Anna viaja a Moscou para tentar salvar o casamento em crise de seu irmão. Consegue ajudá-lo, mas acaba pondo a perder o seu próprio, apaixonando-se por um aristocrático militar por quem larga o marido e o filho pequeno. Liévin, um rico e jovem proprietário de terras rurais, vive às voltas com problemas de conflitos de classe de seus lavradores e questionamentos existenciais profundos.

 

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Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, Maya Angelou, São Paulo, Editora Astral Cultural: 2018

RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras.

Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos. Com uma escrita poética e poderosa, a obra toca, emociona e transforma profundamente o espírito e o pensamento de quem a lê.

 

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Kafka à beira-mar, Haruki Murakami, Alfaguara: 2008, 576 páginas

Haruki Murakami é o autor japonês mais popular de sua geração, com livros traduzidos em 34 idiomas. Assim como em Norwegian Wood, lançado no Japão em 1987 e 4 milhões de exemplares vendidos no país, os personagens de Kafka à beira-mar – que também é o nome de uma canção – vivem em um Japão completamente transformado pelo capitalismo e se sentem solitários, excluídos da sociedade moderna. “Sempre me interesso por pessoas que se põem à margem da sociedade, que se retiraram dela. A maioria dos personagens em Kafka à beira-mar está, de uma forma ou de outra, marginalizada. E Nakata, definitivamente, é uma dessas”, explica o autor.

Como os outros romances de Murakami, este também traz elementos fantásticos. A história conta com dois protagonistas: o adolescente Kafta Tamura, que foge da casa onde vive com o pai para encontrar a mãe e a irmã, e o deficiente mental Satoru Nakata, um homem de sessenta anos que tem a habilidade de falar com gatos. As duas histórias são contadas de forma paralela, alternando-se ao longo dos capítulos, até convergirem no final.

A vida de Kafka Tamura é narrada pelo próprio, que vive sozinho com o pai em Tóquio há mais de dez anos, desde que sua mãe saiu de casa, sem dizer uma palavra, levando sua irmã mais velha com ela. Kafka ainda era um menino quando ouviu seu pai lhe dizer: “Um dia você irá matar o seu pai e dormir com sua mãe.” É para fugir desse destino e evitar que as palavras de seu pai se tornem realidade que o menino, já adolescente, resolve fugir de casa e ir ao encontro da mãe.

Embora a jornada de Kafka seja imediatamente associada à tragédia grega, Haruki Murakami esclarece que o mito de Édipo é apenas um dos muitos temas, e não necessariamente o ponto central do romance: “Desde o início eu tinha a intenção de escrever sobre um rapaz de quinze anos que foge da casa de um pai sinistro e parte em busca da mãe. Essa história se conectava naturalmente ao mito de Édipo. Mas, ao que eu me lembre, não o tinha em mente ao começar. Mitos são os protótipos de todas as histórias. Quando escrevemos uma história criada por nós mesmos, é impossível que ela não tenha ligações com mitos de todos os tipos. Eles são como reservatórios que contêm todas as histórias possíveis.”

Uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea, Murakami costuma dizer que escrever se parece com sonhar: “E escrever um romance me permite sonhar acordado intencionalmente. Posso continuar hoje o sonho de ontem, o que normalmente não acontece na vida real. Portanto, embora seja sonho, não é fantasia. Para mim, o sonho é muito real.”

 

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O coração do tártaro, Rosa Montero, Nova Fronteira: 2013, 200 páginas

Sofia Zarzamala, uma jovem editora de livros medievais, desperta com uma chamada

inesperada. Do outro lado do telefone uma voz masculina articula «Encontrei-te».

Assustada, veste-se rapidamente e foge do seu apartamento com a sensação de ser

perseguida por alguém que inesperadamente regressou do seu passado oculto. Forçada a

se recordar, Sofia revive os anos que passou nos bairros corruptos da cidade noturna,

junto da miséria e crueldade e relembra a traumática relação com o pai e o irmão gêmeo,

que tanto quis esquecer. A força esmagadora do passado retorna e invade brutalmente a

sua existência até à revelação final que mudará para sempre a sua vida.

 

 

 

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Os diários de pedra, Carol Shields, Record: 1996, 364 páginas

OS DIÁRIOS DE PEDRA é a história da viagem de uma mulher comum através da vida. Nascida em 1905, Daisy Stone Goodwill assume os papéis de filha, esposa, viúva e mãe, até finalmente atingir a velhice. Impressionada com a sua incapacidade de entender seu lugar na sua própria vida, Daisy tenta encontrar uma maneira de contar sua história em uma novela cujo tema são justamente as limitações da autobiografia.

Sua vida é rica em acontecimentos, e no entanto Daisy tem a impressão de ser impotente diante dela. Escuta, observa, torna-se testemunha de sua própria existência exclusivamente através da força da imaginação: de seu nascimento, de sua morte, e das desconcertantes conexões que encontra entre estes marcos. A luta de Daisy é um paradigma da época irrequieta em que vivemos. Dissecando com espirituosidade e compaixão o coração humano, Carol Shields elege como seu aquele ponto onde o elementar e o banal se chocam. Com ironia e humor, ela vai tecendo os fios de OS DIÁRIOS DE PEDRA até criar este que é o seu mais rico e comovente romance.

Prêmio Pulitzer e National Book Critics Circle, 1995.

 

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Assombrações, Domenico Starnone, Editora Todavia: 2018, 184 páginas

Assombrações é um elegante drama sobre ambição, família e velhice que vai além do comum e do previsível. Imagine um duelo entre dois homens. Um deles, Daniele Mallarico, é um ilustrador de sucesso que, no crepúsculo da vida, sente que sua reputação e sua habilidade artística estão desaparecendo. O outro, Mario, é seu neto de quatro anos. Daniele vive em uma cidade fria do norte há anos, na solidão virtual, concentrando-se obsessivamente em seu trabalho, quando sua filha pergunta se ele viria a Nápoles por alguns dias para tomar conta de Mario enquanto ela e seu marido participam de uma conferência. Encerrado em sua casa de infância – um apartamento no centro de Nápoles que é preenchido com os fantasmas do passado de Mallarico –, avô e neto tentam se integrar enquanto Daniele se dirige para um acordo com suas próprias ambições e escolhas de vida. Um livro emocionante.

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Gostaria de ressaltar aqui dois livros de não ficção que valem a pena a leitura também:

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A simples beleza do inesperado, Marcelo Gleiser, Record: 2016, 196 páginas

Marcelo Gleiser é apaixonado por ciência e pesca desde os tempos de menino nas praias do Rio de Janeiro. Hoje um físico de renome mundial, autor de dezenas de livros e com centenas de artigos publicados nas principais revistas de divulgação científica, sentiu que era o momento de se conectar com a natureza de forma menos teórica. Depois de assistir a uma aula sobre pesca fly na Dartmouth College, onde é professor, interessou-se pela prática e a adotou como hobby. Em viagem pelo mundo para participar de conferências científicas – e pescando onde quer que vá –, Gleiser reflete sobre as diversas formas como a física influencia o ato de pescar, como a pesca serve de espelho para o funcionamento da natureza e como a ciência lida com a espiritualidade, o mistério e as coisas que não consegue explicar. Intimista e envolvente, A simples beleza do inesperado é um tributo à natureza, um ensaio sobre a conexão entre o homem e o planeta Terra, e uma exploração do significado da existência – dos átomos ao cosmos, passando pelas trutas.

 

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Blink: a decisão num piscar de olhos, Malcolm Gladwell, Rocco: 2005, 254 páginas

O título Blink, a decisão num piscar de olhos pode sugerir algum tratado de auto-ajuda mas, na verdade, o novo livro do jornalista Malcolm Gladwell, conhecido pelo sucesso Ponto de desequilíbrio (Como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença), analisa, de forma detalhada e fascinante, a importância do que chamamos de intuição. Blink (The Power of Thinking Without Thinking, no original) trata das decisões instantâneas, da parte do nosso cérebro, conhecida como inconsciente adaptável, capaz de realizar raciocínios imediatos e chegar a conclusões antes que tomemos noção consciente do que está acontecendo. O livro começa citando na introdução um curioso exemplo desse processo mental. Entre 1983 e 1986, o museu J. Paul Getty negociou a compra de uma estátua de mármore grega datada do século VI a.C. e durante esse período foi realizada uma série de exames científicos e pesquisas históricas que pareciam autenticar a origem do precioso objeto.

No entanto, em diferentes momentos ao longo desses três anos, aconteceu de seis especialistas duvidarem da autenticidade da obra, aparentemente sem motivo, à primeira vista. “Eles simplesmente deram uma olhada na estátua, uma parte de seus cérebros efetuou uma série de cálculos instantâneos e, antes que tivessem qualquer espécie de pensamento consciente, eles sentiram algo”, narra o autor para em seguida dedicar o resto do livro a explicar como funciona esse processo mental e mostrar mais exemplos de situações relativas a ele. Como conclusão, Gladwell defende a importância dos dois primeiros segundos em que o ser humano reage a uma situação. Em suas 254 páginas, Blink trata a intuição como importante ferramenta de decisão, um diferencial que deve ser cada vez mais valorizado no mercado de trabalho e na vida pessoal. E faz isso com uma linguagem acessível e envolvente que tornou o livro um sucesso que vendeu mais de 200 mil exemplares nos Estados Unidos em apenas três meses.





Os grupos de leitura selecionam os melhores do ano!

22 12 2019

 

 

 

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Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira

 

 

Dois grupos de leitura votaram nos livros lidos durante o ano.

 

Ao Pé da Letra

(grupo formado por 16 pessoas, leu 12 livros este ano):

 

1 —  Anna Karenina, Leon Tolstoy

2 —  Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, Maya Angelou

3 —  Plataforma, Michel Houellebecq

4 —  Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon

5 —  O coração do tártaro, Rosa Montero

6 —  As fúrias invisíveis do coração, John Boyne

7 —  A senhora das savanas, Hilton Marques

8 —  Minha avó pede desculpas, Fredrik Backman

9 —  Dois irmãos, Milton Hatoum

10 —  Os diários de pedra, Carol Shields

11 — Quarto de despejo: diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus

12 —A uruguaia, Pedro Mairal

 

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Melhor livro do ano

Houve empate no 1º lugar

dois

 

1º lugar — Anna Karenina, Leo Tolstoy, diversas editoras, diversas datas

Leo Tolstoy escreveu Anna Kariênina entre 1873 e 1877, prestes a completar 45 anos. Depois de escrever o romance Guerra e paz , entre 1863 e 1869, dedicara-se aos afazeres agrícolas, além de fundar escolas, elaborar e difundir teorias e técnicas pedagógicas polêmicas e estudar o grego com afinco. Ao mesmo tempo, foi acumulando uma impressionante quantidade de informações sobre o tsar Pedro, o Grande. Seu intuito era escrever um romance sobre a época em que Pedro I foi o imperador da Rússia.

Após tentativas obstinadas, Tolstói desistiu do projeto. Por outro lado, nutria a ideia de fazer um relato sobre uma mulher adúltera, da alta sociedade. Durante um tempo, estes dois temas levaram vidas independentes em seu pensamento. Quando a imaginação os uniu, Anna Kariênina começou a nascer. Em janeiro de 1875, a revista Mensageiro russo publicou os primeiros catorze capítulos de Anna Kariênina.

Tolstói distribuiu ao longo do livro os temas que o inquietavam, discutidos pelos personagens – a guerra da Sérvia, a administração agrícola, o regime da propriedade da terra, a relação com os trabalhadores, a decadência da nobreza, a educação das crianças, o casamento, a religião, o serviço militar compulsório, as teorias de Spencer, Lasalle, Darwin e Schopenhauer. Estruturado em paralelismos, o livro se articula por meio de contrates – a cidade e o campo; as duas capitais da Rússia (Moscou e São Petersburgo); a alta sociedade e a vida dos mujiques; o intelectual e o homem prático, etc.

O tema é descentralizado a cada novo episódio. Os dois principais personagens, Liévin e Anna, só se encontram uma vez, em toda a longa narrativa. Mas nem por isso estão menos ligados, pois a situação de um permanece constantemente referida à situação do outro. Anna viaja a Moscou para tentar salvar o casamento em crise de seu irmão. Consegue ajudá-lo, mas acaba pondo a perder o seu próprio, apaixonando-se por um aristocrático militar por quem larga o marido e o filho pequeno. Liévin, um rico e jovem proprietário de terras rurais, vive às voltas com problemas de conflitos de classe de seus lavradores e questionamentos existenciais profundos.

 

1º lugar — Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, Maya Angelou, São Paulo, Editora Astral Cultural: 2018

RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras.

Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos. Com uma escrita poética e poderosa, a obra toca, emociona e transforma profundamente o espírito e o pensamento de quem a lê.

 

índice

2º lugar — Dois irmãos, Milton Hatoum, mais de uma edição

Dois Irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. É a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar. Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance.

 

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3º lugar — A uruguaia Pedro Mairal, Editora Todavia: 2018, 128 páginas

A uruguaia apresenta o argentino Pedro Mairal, um dos narradores mais destacados da nova literatura latino-americana. Este romance divertido e apaixonante sobre afetos, crise conjugal, autoengano e busca pela felicidade mostra, através das peripécias sentimentais de um escritor recém-chegado aos quarenta anos, como devemos enfrentar as promessas que fazemos e não cumprimos e as diferenças entre aquilo que somos e o que realmente gostaríamos de ser. Narrado com leveza e brilhantismo trata de temas como amor e culpa, responsabilidade e libertação pessoal, estabelece de uma vez por todas o talento de Pedro Mairal como um dos nomes de destaque de um novo “boom” da literatura latino-americana.

 

Papalivros

(grupo formado por 22 pessoas, leu 12 livros este ano):

 

1 – Kafka à beira-mar, Haruki Murakami

2 – Assombrações, Domenico Starnone

3 – A garota italiana, Lucinda Riley

4 – Uma família como a nossa, Chaia Zisman

5 – As fúrias invisíveis do coração, John Boyne

6 – As redes da ilusão, Amy Tan

7 – Limonov, Emmanuel Carrère

8 – Minha avó pede desculpas, Fredrick Backman

9 – Era no tempo do rei,   Ruy Castro

10 – O diário de Nisha, Veera Hiranandani

11 – O construtor de pontes,  Markus Zusak

12 – A uruguaia, Pedro Mairal

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Melhor livro do ano

 

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1º lugar — A garota italiana, Lucinda Riley,  Arqueiro: 2016, 464 páginas

Uma inesquecível história de amor, traição, paixão, obsessão e música.

Aos onze anos de idade, Rosanna Menici conhece o cantor Roberto Rossini, uma estrela em ascensão no mundo da ópera italiana – e o homem que mudaria sua vida para sempre. Incentivada – e apaixonada – por ele, Rosanna passa a se dedicar ao estudo do canto lírico, torna-se cantora profissional, e logo os dois se encontram nas salas de concerto mais famosas do mundo, dividindo não só o palco como também o mesmo destino.

Com seu talento incomum para descrever ambientes e evocar sensações e sentimentos universais, Lucinda Riley nos leva a acompanhar a trajetória de Rosanna, desde os bairros pobres de Nápoles até os teatros mais glamourosos do planeta, trazendo à tona, com sua prosa inconfundível, as alegrias, tristezas, frustrações, decepções e redenções do amor.

 

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2º lugar — Era no tempo do rei, Ruy Castro, Alfaguara: 2007,  248 páginas

O cenário é o Rio de 1810, dois anos depois da chegada da Família Real portuguesa, com as ruas vivendo uma agitação jamais vista em uma cidade das Américas. Os personagens são nobres e plebeus que existiram de verdade e outros saídos da mais delirante imaginação.

Em Era no tempo do rei, nem tudo o que se lê neste livro aconteceu – mas podia ter acontecido. Afinal, o autor é Ruy Castro. Os heróis de Era no tempo do rei são o príncipe D. Pedro e seu amigo Leonardo, um menino de rua, ambos com 12 anos. Os dois garotos endiabrados tomam a cidade de assalto, envolvendo-se nas mais empolgantes cabriolas.

Na pista deles, estão o temível major Vidigal, a prostituta Bárbara dos Prazeres, a vingativa princesa Carlota Joaquina, o pio padre Perereca, o sinistro inglês Jeremy Blood, granadeiros, ciganos e capoeiras. Como pano de fundo, a luta pelo poder no Brasil, em Portugal e nas colônias espanholas no Prata.

Era no tempo do rei é um romance malandro e picaresco, com tudo que isso significa: erotismo, crítica, sátira, humor e muita ação. É também uma festa de cheiros, comidas, roupas, costumes, palavras e expressões da época.
Nunca a História do Brasil foi tão irresistível.

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3º lugar — A uruguaia, Pedro Mairal, Editora Todavia: 2018, 128 páginas

A uruguaia apresenta o argentino Pedro Mairal, um dos narradores mais destacados da nova literatura latino-americana. Este romance divertido e apaixonante sobre afetos, crise conjugal, autoengano e busca pela felicidade mostra, através das peripécias sentimentais de um escritor recém-chegado aos quarenta anos, como devemos enfrentar as promessas que fazemos e não cumprimos e as diferenças entre aquilo que somos e o que realmente gostaríamos de ser. Narrado com leveza e brilhantismo trata de temas como amor e culpa, responsabilidade e libertação pessoal, estabelece de uma vez por todas o talento de Pedro Mairal como um dos nomes de destaque de um novo “boom” da literatura latino-americana.

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A coincidência de ambos os grupos nomearem o mesmo livro como 3ª melhor leitura no ano, não passou despercebida. Realmente, um livro pequenino, cheio de alusões literárias, de um autor argentino, ainda desconhecido no Brasil, que lê como se fosse um filme daquele país.  Muito bom.

 

 





Olhando para Hopper

14 12 2019

 

 

 

people-in-the-sunPessoas no sol [Banho de sol], 1960

Edward  Hopper (EUA, 1882-1967)

Óleo sobre tela, 102 x 153 cm

National Museum of American Art, DC

 

 

“Certa vez, escrevi uma série de sonetos spencerianos tentando contar as histórias baseadas nas pinturas de Hopper. Tristes e sórdidas histórias todas elas, de pessoas patéticas, solitárias e infelizes, marginalizadas, bêbados e pedófilos, mas acabei por rasgar os sonetos e jogá-los no lixo. Os poemas sobre pinturas são pretensiosos, não importa o quanto você os burile. Ainda assim, um quadro de Hopper fazia doer lugares desconhecidos dentro de mim. Lugares onde eu era suscetível ao toque, porque as pessoas de Hopper são, também, pessoas solitárias. Só de olhar para elas você pode dizer que não são amadas e, independentemente do número de figuras no quadro, cada uma delas é um ser solitário. Como se existissem numa caixa invisível que não pode ser penetrada pelo amor, ou pelo toque. Dentro de si mesmas, elas estão entorpecidas e sem esperança.”

 

Em: Poesia pura, Binnie Kirshenbaum, Rio de Janeiro, Record: 2002, tradução de Lourdes Menegale, página 35.





Livros favoritos de Amor Towles

15 10 2019

 

 

 

Vicente do Rego Monteiro, Natureza Morta, Óleo sobre madeira, 1969, Assinado, datado 1969 e situado Recife superior direito, 67X 61 cmNatureza morta, 1969

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899 – 1970)

óleo sobre madeira,  67 x 61 cm

 

 

Amor Towles se transformou, depois da leitura de dois de seus livros, (Regras de cortesia e Um cavalheiro em Moscou) em um dos meus escritores contemporâneos cujos livros irei ler assim que forem publicados.  Portanto quando vi a lista de seis livros que ele considerou favoritos na revista The Week apressei-me em vê-la.  Já conheço a maioria, falta ler Gogol e os manifestos de artistas [acho que este não fará parte da minha leitura].  Mas se você está interessado, aqui vai:

1 – Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marques

2 – Se um viajante numa noite de inverno, Ítalo Calvino

3 – No caminho de Swann, Marcel Proust

4 –  Contos escolhidos de Nikolai Gogol

5 –  A insustentável leveza do ser de Milan Kundera

6 – 100 Artists’ Manifestos, editado por Alex Danchev

 





Resenha: “Talvez uma história de amor”, de Martin Page

9 09 2019

 

 

 

TELEFONE westelec_phone 1948aIlustração de anúncio da companhia de telefonia Western Eletric, 1948.

 

 

Em menos de seis meses, este é o terceiro livro que leio em que um telefonema, ou uma mensagem deixada por telefone, dá início à trama.  Deve ser coincidência. Espero.  Pois, de repente ficou um início batido.  Não surpreende. Neste caso, no romance de Martin Page, Talvez uma história de amor, nosso anti-herói, Virgile,  chega em casa e ouve a mensagem deixada em sua secretária eletrônica (parece coisa antiga, não é mesmo?): Clara termina o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não se lembra de ter qualquer relacionamento com alguma Clara. Passamos, portanto, as próximas 150 páginas tentando esclarecer essa questão que se torna obsessiva para ele: quem era Clara e teria ele tido um relacionamento com ela?

Achei a premissa muito interessante. Intrigante mesmo.  E fui em frente à espera das mais mirabolantes possibilidades. Não sei como eu resolveria essa questão caso fosse eu o romancista,  mas não deixei de ter uma pequena decepção com o desenrolar da trama.  Primeiro porque Virgile lembou-me Do contra Hiromashi,  personagem da Turma da Mônica, cujo nome sugere está sempre a contrariar, muitas vezes sem propósito algum, o senso-comum da sociedade, do lugar onde vive, daquilo estabelecido por comum acordo.  Preso a essa faceta, Virgile, de nebuloso caráter, que trabalha numa agência de publicidade, começa a voltar atrás, seguindo seus próprios passos do passado recente, para se certificar da saúde de sua memória, ou se, de fato, havia se relacionado com alguém de quem não se lembrava.

 

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A volta ao passado é ensejo para nos familiarizarmos com os amigos de Virgile, com  trabalho, amores, e principalmente maneira de ver as coisas.  Como publicitário de sucesso, e prestes a receber uma promoção, Virgile tem um jeito interessante de se expressar, e há diversas passagens que surpreendem, astutas, que nos fazem voltar atrás e ler de novo, deliciosas por um breve momento, como: “Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica.” [69-70].  Mas não passam de observações interessantes sem particular significado.  O que parece um pensamento sagaz, profundo, quando relido, mostra não ter lastro, ser tão leve quanto a obra inteira. É um sopro de encontro à brisa.

A solidão que encapsula Virgile é criada, construída, por ele mesmo.  Frequentemente mencionada pelos leitores e resenhistas da obra, fiquei surpresa de ver que outros leitores a consideraram aspecto importante da personalidade do personagem. A mim, me deu a impressão de ser mais uma questão de postura existencialista, do que verdadeira solidão.  Há em Virgile, muito do teatral, muito de gesto no lugar da ação.  Há também uma adolescente vontade de chocar,  um tanto descabida para um homem feito, com sucesso no trabalho e muitos amores para contar.

 

martin-page-author-b5f13b2a-079d-40df-bfce-5918266354c-resize-750Martin Page

 

Este é o segundo livro de Martin Page que leio.  Meu primeiro, A libélula dos seus oito anos, não me agradou.  Achei Talvez uma história de amor, tradução de Bernardo Ajzenberg, mais interessante como tema, e com melhor desenvolvimento, mas, assim como na leitura anterior Martin Page me deixa surpresa por seu sucesso.  Tornou-se um escritor muito considerado desde o lançamento de seu primeiro livro, Como me tornei estúpido, mas para mim, sua ficção necessitaria de mais conteúdo e menos forma para que o autor se tornasse um de meus favoritos.  Fico na dúvida: estou cega para o que o faz um sucesso? –  ou são os outros que talvez não esperem tanto das horas de leitura que dedicam a um autor?  Mas sem dúvida, ele escreve bem.  O bastante para manter esta leitora até o fim. Três de cinco estrelas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 








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