Livros favoritos de Amor Towles

15 10 2019

 

 

 

Vicente do Rego Monteiro, Natureza Morta, Óleo sobre madeira, 1969, Assinado, datado 1969 e situado Recife superior direito, 67X 61 cmNatureza morta, 1969

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899 – 1970)

óleo sobre madeira,  67 x 61 cm

 

 

Amor Towles se transformou, depois da leitura de dois de seus livros, (Regras de cortesia e Um cavalheiro em Moscou) em um dos meus escritores contemporâneos cujos livros irei ler assim que forem publicados.  Portanto quando vi a lista de seis livros que ele considerou favoritos na revista The Week apressei-me em vê-la.  Já conheço a maioria, falta ler Gogol e os manifestos de artistas [acho que este não fará parte da minha leitura].  Mas se você está interessado, aqui vai:

1 – Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marques

2 – Se um viajante numa noite de inverno, Ítalo Calvino

3 – No caminho de Swann, Marcel Proust

4 –  Contos escolhidos de Nikolai Gogol

5 –  A insustentável leveza do ser de Milan Kundera

6 – 100 Artists’ Manifestos, editado por Alex Danchev

 





Resenha: “Talvez uma história de amor”, de Martin Page

9 09 2019

 

 

 

TELEFONE westelec_phone 1948aIlustração de anúncio da companhia de telefonia Western Eletric, 1948.

 

 

Em menos de seis meses, este é o terceiro livro que leio em que um telefonema, ou uma mensagem deixada por telefone, dá início à trama.  Deve ser coincidência. Espero.  Pois, de repente ficou um início batido.  Não surpreende. Neste caso, no romance de Martin Page, Talvez uma história de amor, nosso anti-herói, Virgile,  chega em casa e ouve a mensagem deixada em sua secretária eletrônica (parece coisa antiga, não é mesmo?): Clara termina o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não se lembra de ter qualquer relacionamento com alguma Clara. Passamos, portanto, as próximas 150 páginas tentando esclarecer essa questão que se torna obsessiva para ele: quem era Clara e teria ele tido um relacionamento com ela?

Achei a premissa muito interessante. Intrigante mesmo.  E fui em frente à espera das mais mirabolantes possibilidades. Não sei como eu resolveria essa questão caso fosse eu o romancista,  mas não deixei de ter uma pequena decepção com o desenrolar da trama.  Primeiro porque Virgile lembou-me Do contra Hiromashi,  personagem da Turma da Mônica, cujo nome sugere está sempre a contrariar, muitas vezes sem propósito algum, o senso-comum da sociedade, do lugar onde vive, daquilo estabelecido por comum acordo.  Preso a essa faceta, Virgile, de nebuloso caráter, que trabalha numa agência de publicidade, começa a voltar atrás, seguindo seus próprios passos do passado recente, para se certificar da saúde de sua memória, ou se, de fato, havia se relacionado com alguém de quem não se lembrava.

 

TALVEZ_UMA_HISTORIA_DE_AMOR_1261448471B

 

A volta ao passado é ensejo para nos familiarizarmos com os amigos de Virgile, com  trabalho, amores, e principalmente maneira de ver as coisas.  Como publicitário de sucesso, e prestes a receber uma promoção, Virgile tem um jeito interessante de se expressar, e há diversas passagens que surpreendem, astutas, que nos fazem voltar atrás e ler de novo, deliciosas por um breve momento, como: “Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica.” [69-70].  Mas não passam de observações interessantes sem particular significado.  O que parece um pensamento sagaz, profundo, quando relido, mostra não ter lastro, ser tão leve quanto a obra inteira. É um sopro de encontro à brisa.

A solidão que encapsula Virgile é criada, construída, por ele mesmo.  Frequentemente mencionada pelos leitores e resenhistas da obra, fiquei surpresa de ver que outros leitores a consideraram aspecto importante da personalidade do personagem. A mim, me deu a impressão de ser mais uma questão de postura existencialista, do que verdadeira solidão.  Há em Virgile, muito do teatral, muito de gesto no lugar da ação.  Há também uma adolescente vontade de chocar,  um tanto descabida para um homem feito, com sucesso no trabalho e muitos amores para contar.

 

martin-page-author-b5f13b2a-079d-40df-bfce-5918266354c-resize-750Martin Page

 

Este é o segundo livro de Martin Page que leio.  Meu primeiro, A libélula dos seus oito anos, não me agradou.  Achei Talvez uma história de amor, tradução de Bernardo Ajzenberg, mais interessante como tema, e com melhor desenvolvimento, mas, assim como na leitura anterior Martin Page me deixa surpresa por seu sucesso.  Tornou-se um escritor muito considerado desde o lançamento de seu primeiro livro, Como me tornei estúpido, mas para mim, sua ficção necessitaria de mais conteúdo e menos forma para que o autor se tornasse um de meus favoritos.  Fico na dúvida: estou cega para o que o faz um sucesso? –  ou são os outros que talvez não esperem tanto das horas de leitura que dedicam a um autor?  Mas sem dúvida, ele escreve bem.  O bastante para manter esta leitora até o fim. Três de cinco estrelas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





“McDonald’s in Paris”, por Martin Page

26 08 2019

 

 

 

Hemingway in Paris, by Michela Akers.Hemingway in Paris, gravura de Michela Akers.

 

 

“Desceu para tomar o café da manhã no MacDonald’s. Não se achava merecedor de mais do que um suco de laranja azedo e um croissant gorduroso. Deixou de lado o saquinho de chá e bebeu a água quente. Seu vizinho de mesa, um homenzinho com um boné de golfe todo roído de traça, uma barba de quinze dias e uma camisa suja, comia batata frita e bebia um refrigerante; sua mão pairava sobre um bolo de chocolate como se o protegesse. Virgile não admitiria isso para ninguém, mas gostava de ir ao McDonald’s. Não era um local agradável ou bonito, mas sentia-se em casa ali. Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica. Os pobres, os estudantes e o pessoal da periferia sabem muito bem disso; podem-se checar e-mails, estudar para uma prova ou para as aulas, escrever; os moradores de rua leem os jornais de distribuição gratuita e fingem beber alguma coisa de um copo que pegaram em uma bandeja. A ideia de um local de alimentação para pessoas simples fora deixada nas mãos de uma caricatura de empresa capitalista. O fast-food tornara-se o único local caloroso, vivo e popular.  Era deprimente.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 69-70.





A América no século XX

8 08 2019

 

 

 

Columbia wearing a warship bearing the words World Power as her Easter bonnet, cover of Puck (April 6, 1901). It was published from 1871 until 1918.jpg

Columbia usando um chapéu para a Páscoa com as palavras “Poder Mundial”, na capa da Revista Puck em abril de 1901.  Puck foi publicada entre 1871 e 1918.

 

 

“Nos anos 1950, a América ergueu o globo pelos tornozelos e sacudiu o troco de seus bolsos. A Europa tinha se tornado um primo pobre – só brasões, porém nenhum serviço de jantar. E os indistinguíveis países da África, da Ásia e da América do Sul tinham apenas começado a surgir nas paredes das nossas salas de aula como salamandras ao sol. Certo, os comunistas estavam por lá, em algum lugar, mas, com Joe McCarthy no túmulo e ninguém na Lua, por enquanto os russos apenas se esgueiravam pela páginas do romances policiais.”

 

Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, página 9





Tradução, uma coisa complicada: variações do SONETO 18 de Shakespeare

4 08 2019

 

 

 

Aldo Balding (GB)KATIE, 70 X 50 CMKatie

Aldo Balding (GB, 1960)

óleo sobre tela, 70 x 50 cm

 

No ano passado, coloquei aqui no blog, a tradução de Bárbara Heliodora, do Soneto 18 de Shakespeare, um dos mais conhecidos mundialmente.  Mas, há outras, muitas outras, e se compararmos podemos ver como a cada tradução o poema muda um tanto…  São todas boas e traduzidas por conhecidos poetas, mas a dificuldade da tradução de poesias é evidente. Vejamos, por curiosidade o que acontece.

O soneto pode aparecer nesta forma 4-4-3-3 ou seguido.  Optei por 4-4-3-3 para aumentar a legibilidade na tela.

ORIGINAL EM INGLÊS

 

SONNET 18

 

Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

 

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimm’d;

And every fair from fair sometime declines,

By chance, or nature’s changing course, untrimm’d;

 

But thy eternal summer shall not fade

Nor lose possession of that fair thou ow’st;

Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,

 

When in eternal lines to time thou grow’st;

So long as men can breathe or eyes can see,

So long lives this, and this gives life to thee.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

NA TRADUÇÃO DE BÁRBARA HELIODORA  (Brasil 1923 — 2015)

 

Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

 

Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

 

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

 

Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE EMMANUEL SANTIAGO  (Brasil, 1984)

 

Poderei comparar-te ao fulgor do verão?

Tu és tão mais amável e tão mais ameno:

A tormenta de maio a flor tolhe em botão

E o verão se consome num prazo pequeno.

 

Quando faz calor, o olho do céu nos fulmina,

Outras vezes oculta a dourada nudeza;

E, de tudo que é belo, a beleza declina

Por acaso ou por sua fugaz natureza.

 

Mas, sem fim, teu verão não conhece fastio,

Nem sequer perde o viço no curso das eras,

Nem a Morte te envolve em seu manto sombrio,

 

Pois no verso indelével o tempo superas:

…….. Enquanto homens houver, e olhos prontos a ver,

…….. Enquanto isto for lido, tu hás de viver.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE VASCO GRAÇA MOURA (Portugal, 1942 – 2014)

 

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

 

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

 

da Natureza; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

 

quando o tempo em eternas linhas vences:

enquanto alguém respire ou possa ver

e viva isto e a ti faça viver.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

NA TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS (Brasil, 1919 – 1992)

 

A um dia de verão como hei de comparar-te?

Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:

Em maio o vendaval ternos botões disparate,

E o estio se consome em prazo não durável;

 

Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,

Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;

Decai da formosura, é certo, a formosura,

Pelo tempo ou o acaso enfim desadornada:

 

Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,

Nem hás de a possessão perder de tuas galas;

Vagando em sua sombra o Fim não te verá,

 

Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:

Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,

Meu canto existirá, e nele hás de viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA (Brasil/Portugal 1921 – 1981)

 

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

 

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

 

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

 

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÂO DE GERALDO CARNEIRO (Brasil, 1952)

 

Te comparar com um dia de verão?

Tu és mais temperada e adorável.

Vento balança em maio a flor-botão

E o império do verão não é durável.

 

O sol às vezes brilha com rigor,

Ou sua tez dourada é mais escura;

Toda beleza enfim perde o esplendor,

Por acaso ou descaso da Natura;

 

Mas teu verão nunca se apagará,

Perdendo a posse da beleza tua,

Nem a morte rirá por te ofuscar,

 

Se em versos imortais te perpetuas.

Enquanto alguém respire e veja e viva,

Viva este poema, e nele sobrevivas.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

 

NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO  (Brasil, 1929)

 

Devo igualar-te a um dia de verão?

Mais afável e belo é o teu semblante:

O vento esfolha Maio inda em botão,

Dura o termo estival um breve instante.

 

Muitas vezes a luz do céu calcina,

Mas o áureo tom também perde a clareza:

De seu belo a beleza enfim declina,

Ao léu ou pelas leis da Natureza.

 

Só teu verão eterno não se acaba

Nem a posse de tua formosura;

De impor-te a sombra a Morte não se gaba

 

Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.

Enquanto houver viventes nesta lida,

Há-de viver meu verso e te dar vida.

 

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

 

NA TRADUÇÃO DE THEREZA CHRISTINA ROQUE DA MOTTA (Brasil, 1957)

 

Como hei de comparar-te a um dia de verão?

És muito mais amável e mais amenas

Os ventos sopram os doces botões de maio,

E o verão finda antes que possamos começá-lo:

 

Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,

Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;

E tudo que é belo um dia acaba,

Seja pelo acaso ou por sua natureza;

 

Mas teu eterno verão jamais se extingue,

Nem perde o frescor que só tu possuis;

Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,

 

Quando os versos te elevarem à eternidade:

Enquanto a humanidade puder respirar e ver,

Viverá meu canto, e ele te fará viver.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

 

NA TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY   (Brasil, 1938 -1999)

 

Comparar-te com um dia de verão?

Tens mais doçura e mais amenidade:

Flores de maio, ao vento rude vão

Como o estio se vai, com brevidade:

 

O sol às vezes em calor se exalta

Ou tem a essência de ouro sem firmeza

E o que é formoso, à formosura falta,

Por sorte ou por mudar-se a natureza.

 

Mas teu verão eterno brilha a ver-te

Guardando o belo que em ti permanece.

Nem a morte rirá de ensombrecer-te,

 

Quando em verso imortal, no tempo cresces.

Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,

Viva o meu verso e a vida te ofereça.

 





Resenha: “Limonov” de Emmanuel Carrère

22 07 2019

 

 

 

s-l1600Sem título, da Série Dois

Martin M (Rússia, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 18 x 13 cm

 

 

Limonov, de Emmanuel Carrère, foi best-seller na França e recipiente do Prêmio Renaudot da Língua Francesa e do Prix des Prix, em 2011.  Traduzido por André Telles e publicado pela Alfaguara em 2013, não fez marolas por aqui, até ser indicado por Marcelo Rubens Paiva para uma editora que publica livros por assinatura em 2017.  Não é leitura fácil, em parte porque o biografado, Eduard Limonov, é uma pessoa desprezível, canalha, ordinário e sem-vergonha.  Mas que descrito pelo autor parece uma pessoa fascinante.  “Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe.  Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris, soldado perdido nas guerras dos Balcãs e agora no imenso caos do pós comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados…”  Com essa introdução por Carrère é natural que se espere mais de Eduard Limonov do que o repelente marginal, personalidade secundária, um ser asqueroso, cuja vida seguimos em grande detalhe.

Limonov é descrito como biografia. Mas premiado como romance.  Como?  Por que?  Em parte porque Carrère só entrevistou Eduard Limonov uma vez por duas semanas e a esta altura com o livro quase pronto.  Por outro lado, porque a vida do biografado e a do biógrafo se intercalam e aos poucos descobrimos a paixão, ou até mesmo a inveja de Carrère, não pelo homem Limonov, (Carrère para de escrever o livro por mais ou menos um ano, duvidando da própria razão deste trabalho) mas pela sedução que a vida de aventuras de seu biografado parece ter acendido.  Passei, então, a ver o livro não como uma biografia, mas como um interlóquio entre o escritor e Limonov.

LIMONOV_1378755952B

 

São dois homens que pararam emocionalmente na adolescência.  Basta dizer que para ambos os livros que mais marcaram suas vidas foram os de aventuras de Alexandre Dumas e obras do americano Jack London.  Eduard Limonov ( Eduard Savenko) nasceu na Ucrânia (portanto cidadão de segunda classe na hierarquia soviética) e passou a vida como rebelde. Pobre, sem respeito por mãe ou pai, Limonov se rebela contra o status quo de qualquer situação.  Seu verdadeiro objetivo é ser do contra.  Mesmo quando o que advoga, por anos, acontece, ele rapidamente muda de posição e torna-se um insurgente, um do contra, já que o que defendia tornou-se norma.  Revolta, seu nome é Limonov.  E sua maneira de revoltar-se não passa de grandes gestos juvenis, sem esteio ou fundamento.  Tanto que no frigir dos ovos Limonov não consegue nada, não passa de um energúmeno, machista, inepto e idiota.

Emmanuel Carrère, por outro lado, desfrutou de uma família bem estruturada: pai executivo, mãe historiadora e professora universitária.  Cresceu e continuou como adulto a se beneficiar das benesses da vida burguesa parisiense. Não se revoltou contra o estabelecimento.  É o verdadeiro oposto de Limonov.  E, ainda que pudesse ter interesse intelectual sobre os revolucionários russos, a mim, escapa a fascinação do autor por um membro tão desnorteado da cosmografia russa.  Não posso deixar de pensar numa pequena revolta contra sua própria mãe, especialista em história russa.  Será que Carrère, deveria ter dedicado tanto de seu tempo e indústria construindo um altar ao anti-herói? Talvez sua mãe, se assim quisesse, pudesse nos dar valor mais acertado do verdadeiro papel de Limonov na resistência, se relevante, contra a abertura do sistema soviético do final do século XX.  E ainda, a fascinação com o “revolucionário” lembra-me defensores do comunismo severo, do stalinismo ou seguidores de Trotsky, que, aqui no ocidente, dormindo em camas macias com lençóis de seda, dirigindo carros do ano, comendo e bebendo á vontade, abrigando-se em belas e espaçosas casas, continuam achando que uma revolução ou um sistema semelhante ao que se estabeleceu na antiga URSS seria a solução para as desigualdades no mundo.  É uma visão idealista, sem qualquer pé na realidade e primária. E, nós mesmos, leitores de Limonov testemunhamos a falácia do sistema através da própria narrativa de Carrère.

 

emmanuel-carrere (2)Emmanuel Carrère

 

Há duas grandes qualidades nesta obra.  A primeira é a habilidade de Carrère de nos manter atentos ao texto, de tal modo que mesmo execrando as ações de Eduard Limonov,  o que nos é contado, de maneira muitas vezes rude ou crua, nos faz  continuar página após página a seguir o fanático e imbecil personagem que o autor nos impôs. A segunda qualidade é o retrato da Rússia sob o governo comunista e sob a abertura iniciada por Gorbachev e da Rússia que conhecemos hoje, a Rússia de Putin, que mais do que nunca aparece como cidadão bastante perigoso.  Poucas vezes temos a oportunidade de ler uma obra que nos traz ações tão contemporâneas, referências a momentos históricos que vimos na televisão ou lemos nos jornais. Essa parte política, tenho certeza, foi de grande valia para que o livro se tornasse best seller na França.  Para os franceses o que acontece em Moscou é de grande importância.  Eles estão muito próximos, apesar dos diversos países que os separam: Bélgica, Alemanha,  Polônia, Bielorrússia. A título de curiosidade procurei a distância entre Paris e Moscou.  É um pouco mais de 2.800 km.  Colocando em nossos termos é menor do que a distância entre Porto Alegre e Palmas, esta é superior a 2.900 km.  Assim, tudo que acontece na Rússia é de muito maior interesse para os franceses do que para nós, aqui em outro continente separados por mar e terra imensos.

Não sei para quem devo recomendar este livro.  Li.  Não gostei.  Mas apreciei as informações que me foram dadas.  E apreciei a habilidade de Carrère.  Mas de cinco estrelas, três estão de bom tamanho.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

 





Resenha: “Regras de Cortesia”, por Amor Towles

18 07 2019

 

 

 

stella_brooklyn_bridgeA ponte de Brooklyn: variação sobre um tema antigo, 1939

Joseph Stella (Itália/EUA, 1877 – 1946)

óleo sobre tela, 178 x 107 cm

The Whitney Museum of American Art, Nova York

 

 

Encantada com Um cavalheiro em Moscou, do escritor americano Amor Towles, procurei seu primeiro livro, Regras de Cortesia, publicado sem grande fanfarra, no Brasil, em 2012, pela Editora Rocco, com tradução de Léa Viveiros de Castro.  Temerosa dessa leitura não chegar aos pés do feitiço da anterior, fui devagar à fonte, li outros autores no intervalo, para poder apreciar a obra de maneira mais distante.  Levei um pouco mais de tempo para sucumbir ao charme da voz narrativa de Amor Towles neste livro.  Mas acabei a leitura tão encantada quanto com o livro anterior. E hoje, não consigo me decidir qual deles mais me agrada.

Amor Towles traz para seus textos imagens novas em linguagem sedutora.  Regras de Cortesia se passa em um único ano. Cobre do Ano Novo de 1937-38 a dezembro de 1938.  A personagem principal, aquela que me fascinou, com a qual reconheci o verdadeiro espírito da nova-iorquina típica, cavadora, trabalhadora, desenvolta, diligente,  buliçosa, filha de imigrantes que acredita na possibilidade de crescer e subir na vida, é Katey Kontent que, vinda de Brighton Beach em Brooklyn, trabalha como  secretária numa firma de advocacia em Wall Street e mora na pensão da Sra. Martingale, junto a outras jovens como ela.  Katey está alerta para todas as oportunidades de crescimento. Neste fim de ano de 1937, está acompanhada da amiga, Eve Ross, jovem do interior do país, filha de pequenos fazendeiros, que também sonha em escapar do destino que lhe parece inevitável na cidade natal, fugindo para Nova York, a tentar sorte e fortuna.  Juntas passam uma das mais interessantes comemorações de Ano Novo, quando conhecem Theodore (Tinker) Grey, rapaz de família abastada, que ambas reconhecem como um bom partido, ainda que provavelmente fora de suas possibilidades sociais.  Temos aí o trio de personagens que constrói a história de Regras de Cortesia.

 

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Mais do que a trama entre esses personagens, Amor Towles delineia uma Nova York excitante e cheia de possibilidades para quem consegue, como Katey Kontent,  navegar Manhattan de cima abaixo, dos bairros boêmios aos ricos fronteiriços ao Central Park.  Jovem e energética, Katey nos leva aos quatro cantos da ilha, passando por mais de um emprego, por uma gama de conhecidos das classes abastadas, através das quatro estações do ano.  Ao final de 1938 encontramos Katey no alto escalão de sociedade nova-iorquina como secretária da Condé Nast.  Um ano extraordinário para os três personagens cujas vidas se entrelaçam.

 

 

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Regras de Cortesia é um retrato de uma época, o retrato vibrante da grande cidade americana, no desenvolvimento que viria a torná-la a capital mundial depois da Segunda Guerra.  Através de Katey, Ema, Tinker e seus companheiros temos a sensação de rever o final da década de 1930, pós-Depressão e testemunhar o espírito que melhor define a maneira de ser nova-iorquina. Um excelente retrato do espírito da época, ou Zeitgeist. Leitura fartamente recomendada para quem gostaria de presenciar o espírito do que levou ao desenvolvimento de Nova York,  da segunda metade do século XX e dos EUA.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

 








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