Sublinhando…

31 07 2021
Autoria desconhecida.

“Dava para perceber que Marco era um misógino porque, apesar de todas as modelos e vedetes de televisão presentes na sala, ele só prestava atenção em mim.  Não por bondade ou curiosidade, mas porque calhou de eu ter sido oferecida a ele como uma carta de um baralho em que todas as cartas são idênticas.”

Em: A redoma de vidro, Sylvia Plath, tradução de Chico Mattoso, Rio de Janeiro, Biblioteca Azul: 2019, p. 120





Grifo: divino e protetor da riqueza

2 08 2020

 

 

398px-Statue_of_a_Griffin,_Parliament_building_(Vienna)Escultura de um grifo, em bronze, protegendo o edifício do Parlamento Austríaco.

 

Grifos são monstros fabulosos, cujo corpo é composto de duas parte: a de cima, cabeça e asas de águia; a debaixo, patas e corpo de leão. Eles eram supostamente os guardiães  das minas de ouro, e estavam em briga perpétua com os Arimaspos, um povo guerreiro de Cítia, portadores de um único olho, que roubavam as minas para encontrar ouro com o fim de adornar os cabelos, de acordo com a mitologia grega.

Em Dante, Purgatório, XXIX, de 1308, o Grifo é simbólico da união do divino e do humano na figura de Jesus Cristo. Parte águia e parte leão levou Dante a vê-lo no Purgatório, puxando a carruagem da Igreja.

Em 1665, ele reaparece no Paraíso Perdido de Milton, no seu papel original grego de guardião da riqueza, do ouro.  Milton: Paraíso Perdido, II, 943.





Amor, texto de Mário Lúcio Sousa

30 07 2020

 

 

407abcb8000b4f7c424249bc1177b938Ignoro a autoria desta ilustração.

 

“Parecia praga e era. O Língua foi atraído por outra mulher. Era a mulher mais preta que ele alguma vez vira. E isso intrigou-o. Tão preta era a mulher que parecia não querer parecer. E foi o que o Língua lhe disse: Você é muito preta mulher. E ela, toda vespertina, correspondeu como convinha: Ainda só viu o que os olhos alcançam, negro, devo ter partes ainda mais escuras. E o Língua caiu babado nos braços dela. Durante três anos não largou o rabo da saia da Preta nem para ir trabalhar. Era mesmo para crer que só agora a bruxaria da outra mulher andava a surtir efeito. O Língua não estava a perceber, mas virou o homem mais submisso da ilha. O trabalho era então satisfazes os mais extravagantes caprichos da Preta, de tal modo que ele virou ao mesmo tempo angustiado e feliz, azarado e contente, imprudente e lúcido, renegado e pesaroso, como todo o homem arrebatado. Pior, não conseguia sair dali.  Se a paixão tem fogo, o corpo tem lume. Mas, um dia, ao olhar para um caco de espelho, teve um espanto tão grande que, então, para salvar a pele, ou o que restava, vestiu-se, pegou nas sandálias e desapareceu.  Como nunca ia sem dizer adeus, assobiou e, sem virar a cara, acenou. Nunca soube se foi correspondido. Mas dali saiu com a determinação de nunca mais voltar a cair nos braços de uma mulher.”

 

Em: Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa, Alfragide, Don Quixote: 2015, p. 264





Rua do Gato-que-pesca, Paris, Yolanda Foldes

7 07 2020

 

 

plaque-de-rue-de-localisationPlaca da Rua do Gato-que-pesca, Paris

 

“Rua do Gato-que-pesca…rua curiosa que suscita o riso: dois passos bastam para a atravessar; para a percorrer, menos de trinta. Encontram-se, em Paris, destas espantosas ruelas de palmo e meio, não só nos bairros pobres, mas mesmo em pleno centro da cidade, muito próximo das artérias mais concorridas.

A rua do Gato-que-pesca, vai dar ao Sena, ligando o cais de Saint-Michel com a pequena mas animada rua Huchette.

Entrando no cais, vereis, à direita, as duas torres de Notre Dame, em frente a prefeitura da polícia, o que prova que a rua do Gato-que-pesca se encontra situada num bairro respeitável, mesmo no coração da grande cidade.

Numa rua com a largura inverossímil de dois passos, não se concebe, é claro, o problema da circulação nem o do pavimento. este consta, em suma, de umas seis a oito grandes pedras que vão de uma casa a outra. Nas duas extremidades da rua, colocaram duas barras de ferro para impedir a passagem de veículo, bastante estreito, para poder introduzir-se na ruela, mesmo que lhe tirem os varões de ferro.

De um lado e outro da rua uma fileira de quatro casas. Mas os prédios dos extremos têm a entrada no cais de Saint-Michel, por uma lado, e na rua Huchette, pelo outro, o que dá, no fim das contas, duas casas de cada lado… Qual a idade destas casas? Ninguém sabe. São casas sem idade, que tanto podem ter quinhentos como cinquenta anos. As entradas são inverossimelmente estreitas, extraordinariamente escuras. Escadas de madeira levam-nos de andar em andar, mergulhando, à medida que se sobe, numa treva cada vez mais densa. De espaço a espaço, na sombra opaca dos quatro andares de cada casa, advinha-se um patamar… Nas janelas, festivamente, cordas de roupa branca secam ao sol e ao vento.”

 

Em: A Rua do Gato-que-pesca, Yolanda Foldes, tradução de Francisco Quintal, Lisboa, Renascença:s/d [1959]. 2ª edição, páginas 15-6

 

A Rua do Gato-que-pesca recebeu o Grande Prêmio Internacional do Romance do Pinter Publishing Ltd (Londres). em 1936.





Resenha: “Me chame pelo seu nome”, André Aciman

5 07 2020

 

 

 

Wladimir Lindenberg Der Lesende, 1952, TemperaO leitor, 1952

Wladimir Lindenberg (Alemanha, ?-?)

Têmpera

 

Antes deste livro se tornar popular, e antes mesmo de virar filme, conheci a prosa de André Aciman através de três livros: Out of Egypt, memórias; um ensaio sobre imigração, no livro Letters of Transit, onde ao lado de Eva Hoffman, Bharati Mukherjee, Edward Said e Charles Simic o tema da identidade no exílio é abordado; mais tarde, em veio semelhante, li False papers: essays on exile and memory. Na época eu me dedicava a questões sobre  exílio e identidade cultural. Por este motivo com exceção de Charles Simic, me familiarizei com os autores mencionados.  Deles, Aciman surpreendeu. Sua habilidade de ser incisivo dando espaço para linguagem poética se fez sentir em todos os textos. Mas o autor que conheci através desses livros não me deixou vislumbrar o romancista.  O que há em comum entre este romance e os textos que li anteriormente?  Cuidado com as palavras,  leveza  de expressão, profundo conhecimento de textos clássicos.  E ainda, prosa fluida, que se mantém entre realidade e memória; explorando a melancolia inerente àquilo que se perdeu.

A ampla linguagem poética continua usada em Me chame pelo seu nome, [tradução de Alessandra Esteche]. É ela que faz sonho e realidade deslizarem de um momento para outro, se imiscuírem e mesclarem, numa dança sedutora, onde nada é preciso. Mais vale o subentendido, a ambivalência.  Diálogos são dissimulados; passagem de tempo incerta. Sabe-se simplesmente que é verão.  É um verão.  A ação se desenvolve no período das férias escolares americanas, de meados de maio a agosto. Mas é Itália. Cidade linda, quase anônima, de identidade misteriosa, referida por uma única consoante, mas exposta indiretamente aos curiosos, quando se descobre ser o local da morte por afogamento do poeta inglês Shelley [Percy Bysshe Shelley, 1792- 1822].  Portanto é a pequenina Lerici, voltada para o azul do Mediterrâneo, ao sul da Riviera Italiana.

Por três quartos do livro, não gostei da leitura.  Mas as últimas sessenta páginas redimiram o sacrifício inicial, quando a trama dá uma virada impressionante.  De repente, gostei de seu  desenvolvimento. Subitamente chega-se a um final belíssimo e coerente. E não foi por acaso que fechei o livro com a certeza de algo ter-se movido em meu âmago.

 

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Trata-se de um livro de passagem,  da chegada à idade adulta, de descoberta da sexualidade, de amor, de paixão, até mesmo de obsessão.  Elio Perlman, rapaz de dezessete anos, se descobre enamorado de Oliver, americano, que passava as férias de verão na Itália.  Erudito, acadêmico, Oliver recebe estadia gratuita na casa dos pais de Elio. Em troca, serve de secretário para o dono da casa. O esquema funciona há anos, cada vez com uma pessoa diferente e continua por depois desse verão.

Ainda que Elio pareça ser o personagem principal, já que vemos o mundo através de seus olhos, é Oliver, quem traz a energia que movimenta a trama. Sua presença, desde a chegada à vila dos Perlman, agiliza o texto e, por mais lacônico que seja, possivelmente por isso mesmo, ativa a curiosidade de Elio.  Oliver o fascina, o instiga. É aí, neste ponto, que desfrutamos, sem perceber, do grande e profundo conhecimento da literatura clássica, por André Aciman. O livro nos comove, nos toca a alma, em parte porque sua estrutura espelha a dos mitos da antiguidade, enraizados no inconsciente do leitor ocidental.  Oliver aparece nesta trama no papel de Hermes.  Mercúrio.  Por ele, e com ele, Elio é iniciado a outro mundo, ao autoconhecimento, à totalidade, à plenitude.  Oliver, como Hermes é sedutor. De espírito livre, não pode ser definido facilmente; inteligente, culto, atraente, bissexual, destro no tênis e perito no pôquer, inconstante, desfruta de noites e telefonemas enigmáticos; ambivalente, inacessível, esfíngico o americano torna-se foco da atenção de Elio, que se encanta e o deseja. Sonha com sua atenção, almeja a união com o indecifrável visitante. Em sua visão Oliver é o que ele gostaria de ser. É o ser que tem dentro de si. Não descansa até formar um vínculo estreito com ele, até ter sua intimidade trespassada. Eventualmente os dois se encontram e têm um relacionamento tórrido, absorvente, que dura pouco.  Mas traz a Elio a sensação do todo, de plenitude e perfeição.  Logrou conhecer-se, completar-se.  A união com este outro ser, que o reflete, está representada no próprio título: Me chame pelo seu nome, clímax da plenitude alcançada, da união que o torna conhecer a si mesmo.  Logo, Oliver retorna à América, tendo desempenhado o papel que lhe cabia, psicopompo.  A história deste verão, portanto não é só a iniciação sexual de Elio, é a porta do conhecimento de si mesmo.

Então, porque não gostei de uma parte tão grande do livro? A obsessão de Elio com Oliver é longa, detalhada, interminável. Cada pormenor é descrito: do arco do pé de Oliver, às cores de seus calções de banho às quais Elio atribui vários estados de espírito do visitante. Essas descrições delicadas, sensíveis, inspiradas, suaves e sedutoras tornam-se infindáveis. Levantam a dúvida sobre sua necessidade e mesmo agora, depois de terminada a leitura, acredito que Aciman foi indulgente consigo mesmo, talvez fascinado pela novidade de escrever sobre a atração de um homem por outro.  Por fim, quando Elio e Oliver se encontram e se amam apaixonadamente, a linguagem poética de Aciman se perde. Desaparece.  Nos encontramos com uma das mais crassas descrições de um relacionamento a dois. Ela me levou a imaginar como teria sido bela e sensível esta passagem nas palavras D. H. Lawrence, porque Aciman sujeita o leitor a ponderar sobre o desconforto físico de Elio após a iniciação sexual e a considerar o grotesco do prazer carnal. O que aconteceu com aquele escritor da primeira parte, com toda a bela e poética prosa?  Ela retorna no final, depois de um interlúdio literário, numa viagem a Roma, que não exerce nenhuma função significativa no desenrolar da história.

Só então, no regresso à casa, quando o desejo de Elio retorna, quando o anseio reaparece, quando seu apetite, ânsia, espera, sede reacendem, ressurge também  a prosa poética na qual Aciman se distingue. É aí, neste ponto, na fala do Sr. Perlman, pai de Elio, ao aconselhar-lhe sobre a vida, que Aciman leva o texto ao seu ápice. Não me surpreenderia se esse trecho da obra, passasse a ser reconhecido por si só. Aplaudido.  Independente.

 

índiceAndré Aciman

 

O que permaneceu comigo foi algo sobre as possibilidades perdidas e as conquistadas; foi a constatação da miríade de oportunidades que nos é oferecida numa vida comum. Pensei nas portas que abrimos e fechamos, nas vezes que dizemos não ao autoconhecimento.  Medo.  Medo do sofrimento que traz conhecimento de si, da vida e dos outros. Pensei no que é amor, paixão, curiosidade.  Na fascinação de cruzar as fronteiras para outros mundos, físicos ou imaginários, e até mesmo psicológicos.  Pude refletir sobre o medo de viver, das novas experiências. Talvez pela própria ambiguidade do texto, tantas perguntas possam ter aparecido. É um livro de perguntas, mais do que respostas e parte de seu encanto está em nos conhecermos através desse próprio questionamento.

Designar Me chame pelo meu nome como um livro homossexual, pertencente à literatura gay é reduzi-lo a um pequeno círculo de leitores.  É sim, a história de amor de um homem por outro.  Mas é maior do que isso, é uma viagem ao mundo de nossa psiquê que ao ser descoberta nos une, nos faz inteiros.  É, portanto, um livro para todos, pois irá repercutir no âmago de nossas almas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Para melhorar os conhecimentos, Paul Auster

18 06 2020

 

book-and-coffee-jennifer-kafouryLivro e café, ilustração de Jennifer Kafoury.

 

 

No livro 4321 de Paul Auster, logo no início, somos apresentados a uma pequena lista de livros que, durante gravidez de perigo, a personagem  Rose Ferguson lê para melhorar seus conhecimentos gerais.  Aqui segue a lista.  Estamos em meados do século XX, pós Segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos.  Livros que Rose leu:

 
Suave é a noite, Scott Fitzgerald
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A casa da felicidade, Edith Wharton
Moll Flandres, Daniel Defoe
Feira das vaidades, William Thackeray
O Morro dos ventos uivantes, Emily Bronté
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A cartuxa de Parma, Stendhal
Primeiro amor, Ivan Turgueniev
Dubliners, James Joyce
Luz em agosto, William Faulkner
David Copperfield, Charles Dickens
Middlemarch, George Eliot
Washington Square, Henry James
A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne
Rua principal, Sinclair Lewis
Jane Eyre, Charlotte Bronté

Quem sabe você também não se anima a arredondar seus conhecimentos escolhendo alguns destes livros para ler ainda este ano?

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, página 32

 





A dacha de Boris Pasternak

15 06 2020

 

 

RESCALA, JOÃO JOSE (1910-1990). Paisagem com Casario e Riacho no Estado do Rio, óleo s cartão, 26 X 32. Assinado no c.i.d. (Década de 30).Paisagem com casario e riacho no Estado do Rio, década de 1930

João José Rescala ( Brasil, 1910-1990)

óleo sobre cartão, 26 X 32 cm

 

Sempre quis saber exatamente o que era uma dacha.  Ouvia falar que russos de alguma importância saíam nos verões para suas dachas.  Havia mágica a respeito desta palavra.  Um encantamento. Qual não foi minha surpresa, no ano passado, descobrir que dachas talvez não fossem mais especiais do que uma casa de campo, num local próximo à natureza, como muitos têm nas cidades montanhosas ou praieiras aqui no país.  Mais ainda,  o governo russo tenta acabar com essas casas de veraneio, e restabelecer algumas como propriedade agrícola. Calcula que haja no país mais de sessenta milhões de dachas.   Então não eram locais tão especiais, penso.

Recentemente li Os segredos que guardamos de Lara Prescott, traduzido por Alessandra Esteche, para um grupo de leitura.  A narrativa é dividida em dois locais, em Washington DC, e na Rússia, envolvendo o escritor Boris Pasternak, recipiente do prêmio Nobel de literatura de 1958. Grande parte da vida do autor de Dr. Jivago recontada no livro se passa na dacha do escritor.  Finalmente pude satisfazer minha curiosidade.  E a conclusão é simples: dachas são apenas casas de veraneio, algumas mais ricas na decoração do que outras.  Aqui estão as fotos da dacha de Boris Pasternak para dar uma ideia do que parecia algo mágico nos tempos da Russia comunista, já que só os “queridinhos do governo” tinham acesso e possuíam estes refúgios. Hoje é um museu.

 

195324Dacha do escritor Boris Pasternak.

 

227bffc5fe0e4ff2088abb82cb3dd547Dacha do escritor Boris Pasternak.

 

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Curiosidade sobre Goethe

8 06 2020

 

Coffee and Parasol, Aldo Balding(GB,1960), Oil on canvas, 50cm x 40cmCafé e guarda-sol 

Aldo Balding (GB, 1960)

óleo sobre tela,  50 x 40cm

 

O humor do escritor alemão Johann Wolfgang Goethe pode ser vislumbrado na ocasião em que escreveu uma longa carta para um de seus amigos.  No final ele adicionou uma  nota explicando:  “Sinto muito por mandar uma carta tão longa, mas não tive tempo suficiente para escrever uma menor.”





Dias de leitura, Marcel Proust

7 06 2020

 

 

Vanlerberghe, Sylvie (1963-...) 1Leitura

Sylvie Vanlerberghe (França, 1963)

óleo sobre tela

 

 

Dias de leitura
[20 de março de 1907]

 

Você provavelmente lera, Mémoires de la comtesse de Boigne.  Há “tantos doentes” nesse momento que os livros encontram leitores, até mesmo leitoras. Sem dúvida, quando não podemos sair e fazer visitas, preferimos recebê-las a ler. Mas, “nesses tempos de epidemias”, até as visitas que recebemos representam algum perigo. É a senhora que da porta onde se detém por um momento – apenas por um momento -, e de onde, emoldurando sua ameaça, grita: “Vocês não  temem a caxumba e a escarlatina? Previno-os de que minha filha e meus netos estão doentes.  Posso entrar?”; e entra sem esperar resposta.

E outra, menos franca, que mostra seu relógio: “Preciso voltar logo: minhas três filhas estão com rubéola; vou de uma a outra; minha inglesa está acamada desde ontem com uma febre alta, e temo ser minha vez de ficar doente, pois me senti mal ao levantar.  Mas fiz questão de fazer um grande esforço para vir vê-lo…”. Então preferimos não receber muito, e, como não podemos telefonar sempre, lemos. Só lemos em último caso. …

[…]

… a partir do momento em que nos resignamos a ler, escolhermos de preferência livros como as memórias da sra. de Boigne, livros que dão a ilusão de continuarmos a fazer visitas, a fazer visitas às pessoas que não pudemos visitar, porque ainda não éramos nascidos sob Luís XVI e que, de resto, não serão muito diferentes daquelas que conhecemos, pois levam quase os mesmos sobrenomes que elas, seus descendentes e nossos amigos, os quais, por uma comovente delicadeza para com a nossa fraca memória. conservaram os mesmos nomes e ainda se chamam: Odon, Ghislain, Nivelon, Victurnien, Josselin, Léonor, Artus, Tucdal, Adhéaume ou Raunaulphes. Belos nomes de batismo, aliás, e dos quais não deveríamos sorrir; eles provêm de um passado tão profundo que em seu esplendor insólito parecem brilhar misteriosamente como esses nomes de profetas e santos inscritos abreviados nos vitrais de nossas catedrais.”

Em: Salões de Paris, Marcel Proust, tradução Caroline Fretin de Freitas e Celina Olga de Souza, São Paulo, Carambaia: 2018, 2ª edição, pp.  87 e 90.

 





Resenha: A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

5 06 2020

 

 

 

Andrew Ganley - Brigit Ganley - Pintora irlandesa (1909-2002)O dramaturgo Andrew Ganley

Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)

óleo sobre tela

 

Em 1926,  Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita.  Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama.  Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd  ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato.  Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads  para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.

Diferente do que aconteceu comigo na leitura do  livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

 

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Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece.  Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.

Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama.  Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final.  Neste ponto, A paciente silenciosa  é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.

 

lex Michaelides 2.jpgAlex Michaelides

 

O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental.  Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.

A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva.  Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.








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