Sobre Conan Doyle, texto de Michel Houellebecq

1 04 2019

 

 

 

André Dérain (1880-1954) Femme assise lisant, ostSenhora sentada, lendo

André Dérain (França, 1880 – 1954)

óleo sobre tela

 

 

“Em cada romance de Sherlock Holmes pode-se reconhecer, naturalmente, os traços característicos do personagem, mas por outro lado o autor nunca deixa de introduzir um aspecto novo (a cocaína, o violino, a existência do irmão mais velho Mycroft, o gosto pela ópera italiana… certos serviços prestados no passado a famílias reais europeias… o primeiro caso resolvido por Sherlock, ainda adolescente).  A cada novo detalhe revelado desenham-se novas zonas de sombra e afinal surge um personagem realmente fascinante: Conan Doyle consegue criar uma mistura perfeita entre o prazer da descoberta e o prazer do reconhecimento.”

 

Em: Plataforma, Michel Houellebecq, tradução Ari Roitman e Paulina Wacht, Rio de Janeiro, Editora Record: 2002, p. 107





O escritor no museu: Honoré de Balzac

28 03 2019

 

 

 

487px-Balzac_(par_Boulanger)

Honoré de Balzac, 1836

Louis Boulanger (França, 1806-1867)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Museu de Belas Artes de Tours





Papalivros, um grupo de leitura, 15 anos de existência!

16 04 2018

 

 

30708363_10216448248102687_3601373864887582720_nBolo de comemoração dos Quinze Anos do Grupo de Leitura Papalivros

Da Graça Pâtisserie, em Copacabana

 

 

Em março de 2003, três meses após o meu retorno ao Brasil, pensei abrir caminho para novas amizades e atiçar fogo nos velhos relacionamentos depois de décadas fora do país. Resolvi fazer no Rio de Janeiro um grupo de leitura nos moldes que conhecera no estrangeiro.

Nos Estados Unidos, nos meus primeiros anos, tive o apoio da Secretaria de Estudantes Estrangeiros da Universidade Johns Hopkins.  Através deles fui apresentada a maneiras de complementar  renda e também, modos de me integrar à vida do país, o que incluiu pertencer a grupos que se encontravam não mais do que uma vez por mês.

Participei de grupos de culinária, onde a cada mês uma pessoa mostrava em sua cozinha, como fazer uma especialidade de seu país de origem.  Participei de grupo de estudos (leituras) de história da Europa. E antes mesmo de completar seis meses no país, entrei para um grupo de leitura. Grupos de leitura são comuns nos EUA.  Morei por muitos anos no país, em três diferentes estados e no Distrito de Columbia e em todos os locais fui membro de um grupo de leitura.

É um meio de se conhecer pessoas, de descobrir afinidades, aprofundar o conhecimento geral.  Ainda me lembro com prazer de algumas leituras dos dois anos em que pertenci ao primeiro grupo, na cidade de Baltimore: John Steinbeck, Of mice and men;  John Fowles, The MagusThe once and future king, T. H. White, All creatures great and small, James Herriot, Watership Down, Richard Adams, Breakfast of Champions, Kurt Vonegut,  Burr, Gore Vidal.  Desses tornei-me fã de Vidal, de Vonegut, e Fowles.  E apaixonada pela história do Rei Artur. Em outros grupos de leitura, conheci dezenas de autores americanos e estrangeiros que me roubaram o coração e a atenção.  E mais, fiz grandes amizades nesses grupos.  Pessoas com afinidades.  E aprendi, sobretudo, a respeitar os gostos de cada um, a ouvir as opiniões dos outros sem interferir e a aceitar que cada um de nós tem gosto único e que ele pode mudar através dos anos.

Minha intenção de abrir um grupo de leitura aqui no Rio de Janeiro, cidade de festa, sol, samba e extroversão, foi recebida com surpresa e descrença. Mas à maneira americana, fui pragmática.  Segui em frente até ver no que dava.  E deu samba.  Muito além das minhas expectativas.  Neste mês de abril o Grupo de Leitura Papalivros (nome escolhido por votação logo no primeiro encontro) completa 15 anos de existência.  Começamos com seis pessoas.  Minhas primas, minha cunhada, uma amiga de mamãe.  Quinze anos depois, ainda temos sete membros que entraram no primeiro ano, dos familiares só minhas primas. Somos 22 pessoas, todas mulheres, mas já foi um grupo misto. Somos leitoras.  E amigas. Nossas idades variam dos 34 anos aos 90.  E continuamos muito amigas, a cada ano, mais amigas.

15 anos, 180 livros, 180 encontros, sem nenhuma falha.  É para nos orgulharmos de nós mesmas, do nosso comprometimento, que melhor acontece quando a verdadeira amizade brota e é cuidada.  Que venham mais 15 ou 30.  É um prazer pertencer a esse grupo.

 

 





Meu dia de estrela!

23 07 2016

 

 

autografo 4Ilustração ©Maurício de Sousa.

 

 

Meu dia de estrela!

Hoje, estive no programa SÁBADO SHOW da Rádio Bandeirantes no RJ. Fui falar sobre o PAPA LIVROS e o AO PÉ DA LETRA, dois grupos de leitura, com 22 pessoas cada, que oriento. E deu para falar também do meu próximo projeto que é EU TAMBÉM LEIO, um grupo de leitura para adolescentes que gostam de ler. Explicar que a leitura é uma forma ecumênica de aprendizado é importante. Foi uma oportunidade única. Agradeço aos que puderam proporcionar esse momento.

Contato através da página da PEREGRINA CULTURAL no Facebook ou através daqui mesmo, no blog.





Sublinhando…

13 06 2016

 

 

Katya Gridneva (Ucrânia, 1965) espera, ostEspera

Katya Gridneva (Ucrânia, 1965)

óleo sobre tela

 

 

“Criança, adolescente, os livros me salvaram do desespero: isso convenceu-me de que a cultura é o mais alto valor, e eu não consigo encarar essa certeza com olho crítico.”

 

 

Simone de Beauvoir





Resenha: “A caderneta vermelha” de Antoine Laurain

24 05 2016

 

 

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)-StGermain, o+acr. sobre telaSt. Germain

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela,  40 x 60 cm

www.christinereillyartist.com

 

 

Está precisando de um momento de descanso?  Precisa acreditar que a vida é boa, que no fim tudo vai dar certo, não importa os percalços do caminho? Quer passar um fim de semana tranquilo, sorridente e inconsequente?  Esse livro é para você.  Ele lhe trará sorrisos, encantamento e refúgio.  Trará luz num dia chuvoso.  Aquecerá seu coração como um chocolate quente tomado em casa de pijama e meias, com seu gatinho enrolado no colo. Porque este é um delicioso conto de fadas, uma história que acaba bem.  Não me surpreenderia se aparecesse em versão cinematográfica.  Aliás, só me surpreenderei se não se tornar um filme.  Eu colocaria Pio Marmaï como ator principal fazendo Laurent, livreiro, dono da Le Cahier Rouge e Laetitia Casta seria Laure, nossa heroína, possuidora de uma profissão singular – douradora.

 

 

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Trata-se da história de uma mulher que ao ser assaltada perde tudo: sua bolsa, carteira com documentos e dinheiro, o celular. É madrugada e o assalto acontece na porta de seu edifício.  Sua bolsa com todo o conteúdo menos o celular e a carteira são encontrados pelo livreiro Laurent Letellier, que próximo dos quarenta anos, divorciado, com uma filha adolescente, acha-se fascinado pelo conteúdo da bolsa lilás.  Resolve descobrir a quem ela pertencia. Mas é uma tarefa difícil que lhe dará bastante trabalho. O resto ficará para o leitor apreciar. Há reviravoltas e incompreensões.  Mas tudo acaba bem.

Recentemente muitos dos livros franceses traduzidos aqui no Brasil, não sei se por escolha dos editores ou se por preferência nacional do país europeu, têm sido leves, poéticos, românticos no escopo mais largo da palavra.  Refúgios para o caos do dia a dia, cheios de certa ternura, repletos de personagens sensíveis, inteligentes, amorosos, carinhosos, com  respeito pelo outro além de grande interação entre gerações nem sempre vista na vida ou literatura de outros países.  Incluo nesta lista os livros de Anna Gavalda, Muriel Barbery, Benoîte Groult, Katherine Pancol, Denis Tillinac, Jean-Paul Didierlaurent, e agora Antoine Laurain. É claro que aqui há o viés da leitora, assim como a consciente eliminação de outros autores de sucesso da ficção francesa como Laurent Gaudé, Michel Houellebecq, Marc Levy e outros. Mas esse lado suave da vida me parece mais frequente nas obras francesas contemporâneas. Em termos de cinema, esses livros se classificariam em comédias românticas.

 

 

antoinelaurain_bymbtoffoli_p10907661Antoine Laurain.  Foto de Marissa Bell Toffoli (2013)

 

A caderneta vermelha é uma dessas obras.  Bem escrita, com capítulos pequenos, um número reduzido de personagens, traz à tona um romance previsível desde os primeiros capítulos ainda que sua resolução seja mais complexa e criativa do que se poderia esperar.  Não chega a ser chick-lit, mas é romântico, doce; reconfortante, uma ilha de bem-estar num mundo insensato.





Anedota sobre Fontenelle na revista O Espelho de 1859

14 09 2013

charles-henry-tenre-the-interval-at-the-theatre-145479Intervalo no teatro

Charles Henry Tenré (França, 1864-1926)

óleo sobre tela

Fontenelle estava na Ópera, em Paris, e tinha nessa ocasião cem anos. Um inglês entra-lhe pelo camarote e diz:

— Vim de propósito de Londres para ver o autor de Thetis e Peleu.

— Pois, senhor, respondeu Fontenelle; dei-lhe bastante tempo para isso.”

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  25 de dezembro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 230.








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