Resenha: “A caderneta vermelha” de Antoine Laurain

24 05 2016

 

 

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)-StGermain, o+acr. sobre telaSt. Germain

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela,  40 x 60 cm

www.christinereillyartist.com

 

 

Está precisando de um momento de descanso?  Precisa acreditar que a vida é boa, que no fim tudo vai dar certo, não importa os percalços do caminho? Quer passar um fim de semana tranquilo, sorridente e inconsequente?  Esse livro é para você.  Ele lhe trará sorrisos, encantamento e refúgio.  Trará luz num dia chuvoso.  Aquecerá seu coração como um chocolate quente tomado em casa de pijama e meias, com seu gatinho enrolado no colo. Porque este é um delicioso conto de fadas, uma história que acaba bem.  Não me surpreenderia se aparecesse em versão cinematográfica.  Aliás, só me surpreenderei se não se tornar um filme.  Eu colocaria Pio Marmaï como ator principal fazendo Laurent, livreiro, dono da Le Cahier Rouge e Laetitia Casta seria Laure, nossa heroína, possuidora de uma profissão singular – douradora.

 

 

A_CADERNETA_VERMELHA_1458149088572126SK1458149088B

 

Trata-se da história de uma mulher que ao ser assaltada perde tudo: sua bolsa, carteira com documentos e dinheiro, o celular. É madrugada e o assalto acontece na porta de seu edifício.  Sua bolsa com todo o conteúdo menos o celular e a carteira são encontrados pelo livreiro Laurent Letellier, que próximo dos quarenta anos, divorciado, com uma filha adolescente, acha-se fascinado pelo conteúdo da bolsa lilás.  Resolve descobrir a quem ela pertencia. Mas é uma tarefa difícil que lhe dará bastante trabalho. O resto ficará para o leitor apreciar. Há reviravoltas e incompreensões.  Mas tudo acaba bem.

Recentemente muitos dos livros franceses traduzidos aqui no Brasil, não sei se por escolha dos editores ou se por preferência nacional do país europeu, têm sido leves, poéticos, românticos no escopo mais largo da palavra.  Refúgios para o caos do dia a dia, cheios de certa ternura, repletos de personagens sensíveis, inteligentes, amorosos, carinhosos, com  respeito pelo outro além de grande interação entre gerações nem sempre vista na vida ou literatura de outros países.  Incluo nesta lista os livros de Anna Gavalda, Muriel Barbery, Benoîte Groult, Katherine Pancol, Denis Tillinac, Jean-Paul Didierlaurent, e agora Antoine Laurain. É claro que aqui há o viés da leitora, assim como a consciente eliminação de outros autores de sucesso da ficção francesa como Laurent Gaudé, Michel Houellebecq, Marc Levy e outros. Mas esse lado suave da vida me parece mais frequente nas obras francesas contemporâneas. Em termos de cinema, esses livros se classificariam em comédias românticas.

 

 

antoinelaurain_bymbtoffoli_p10907661Antoine Laurain.  Foto de Marissa Bell Toffoli (2013)

 

A caderneta vermelha é uma dessas obras.  Bem escrita, com capítulos pequenos, um número reduzido de personagens, traz à tona um romance previsível desde os primeiros capítulos ainda que sua resolução seja mais complexa e criativa do que se poderia esperar.  Não chega a ser chick-lit, mas é romântico, doce; reconfortante, uma ilha de bem-estar num mundo insensato.





Anedota sobre Fontenelle na revista O Espelho de 1859

14 09 2013

charles-henry-tenre-the-interval-at-the-theatre-145479Intervalo no teatro

Charles Henry Tenré (França, 1864-1926)

óleo sobre tela

Fontenelle estava na Ópera, em Paris, e tinha nessa ocasião cem anos. Um inglês entra-lhe pelo camarote e diz:

— Vim de propósito de Londres para ver o autor de Thetis e Peleu.

— Pois, senhor, respondeu Fontenelle; dei-lhe bastante tempo para isso.”

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17,  25 de dezembro de 1859, p.11. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 230.





Anna Gavalda, lembra — Irmãos: uma relação mais que especial

11 08 2011

Uma igreja no campo, 1879

Paul Gauguin (França 1848-1903)

óleo sobre tela, 13 x 19 cm

Coleção Particular

As memórias que mais me embalavam quando eu morava fora do Brasil eram sempre baseadas no convívio com meus dois irmãos.  Quando nós três estávamos juntos, principalmente ao redor da mesa na casa de minha mãe, era como se estivéssemos num mundo à parte: velhas piadas reapresentadas, mensagens taquigráficas com um piscar de olhos e a nossa maneira peculiar de ver o mundo.  Tudo o que nos identificava estava à mostra.  As minhas visitas eram de algumas semanas, às vezes um mês, e meus irmãos sempre arranjavam um jeito de passarem pela casa de minha mãe depois do trabalho, na hora do almoço, num momento de folga para que pudéssemos reatar laços vividos na infância.  Ríamos muito.  Sempre.  E às vezes bastava um começar para os outros entrarem em sintonia.  Minhas cunhadas pareciam às vezes não acreditar nos idiotas em que seus maridos conseguiam se tornar, tão infantis, tão crianças.    Eram momentos mágicos.  Hoje parecem mais mágicos depois da morte súbita de meu irmão mais novo.

Uma bela escapada, de Anna Gavalda [Rocco: 2011] é um pequeno romance, delicado, límpido, que retrata especificamente esse relacionamento mágico entre irmãos. O casamento de um primo no campo, alavanca o encontro dos irmãos Garance, Simon, Lola e Vincente : duas moças e dois rapazes; dois solteiros, uma divorciada e um casado.  Eles passam juntos um fim de semana inesquecível, depois de escaparem dos festejos matrimoniais onde se encontraram.  É através dos olhos de Garance, a terceira da prole, que nos familiarizamos com o grupo. Com a escrita simples, accessível, característica da autora, os quatro irmãos aparecem como personagens completos, que Gavalda assina com sua conhecida habilidade de desenvolver retratos de pessoas comuns, com defeitos e qualidades que reconhecemos.  Seu forte, nos livros anteriores, permanece:  o uso de palavras corriqueiras e precisas para pincelar como numa tela, obra impressionista, o canto do cisne da juventude e a entrada, inescapável, da fase madura.

Anna Gavalda

A narrativa se dá através de pequenas anedotas, de vinhetas de comportamento.  Nelas percebemos um texto que descortina uma deslumbrante alegria de viver, ressalta o prazer da liberdade e assinala para o poder das pequenas alegrias, dos momentos breves, mas plenos, que preenchem nossos dias.  Entremeado entre fantasia e memórias de tempos melhores, Uma bela escapada é um livro de passagem, que define o momento de transição entre o jovem adulto ao adulto amadurecido.   Anna Gavalda, uma das mais queridas autoras francesas, relembra mais uma vez que seus textos não são tão fáceis quanto parecem.  Apesar de velada, a crítica social, de costumes, está presente ainda que oblíqua.   Mas mais importante ainda do que isso é a sua habilidade de descrever a felicidade, de demonstrar os pequenos nadas que nos fazem venturosos.   Leitura extremamente agradável e exuberante, com o toque de leveza caracteristicamente francês.  Um descanso para a mente, um fôlego para a alma.





Os dois leões, fábula de Florian

18 10 2010
Ilustração do livro de Nicholas Barnaud Delphinas, O livro de Lambspring, de 1625.

OS DOIS LEÕES

 —

Um dia dois leões, sob um sol muito forte, chegaram a um grande lago morrendo de sede.  Este era um lago enorme, com muita água, o bastante para saciar a sede de muitos animais. Mas, apesar de sentirem muita sede, motivo que os levara a procurar por uma fonte de água, quando chegaram à beira do lago, nenhum dos dois quis a companhia do outro.  O orgulho e a vaidade falaram mais alto.  Cada um queria ser o primeiro a beber da água, sem dar chance ao outro.  Eles se olharam com muita maldade.  Encresparam as jubas para a luta, e seus corpos se encurvaram de maneira ameaçadora, prontos.  Cada qual se preparou para um bote mortal.  Altercaram-se com rugidos aterradores, alertando toda a vizinhança.  Engalfinharam-se numa luta sem igual.  Os dois, igualmente fortes e ferozes, atracaram-se rolando pelo chão.  Machucaram-se um ao outro, cada um ferindo o inimigo sem piedade.  Ao final, caíram exaustos lado a lado.  Cada qual com o corpo coberto de feridas e sangrando, com muitas  marcas deixadas pelo rival.  Cada um se arrastou devagarinho  até as margens do lago.  Os dois beberam da água cristalina ao mesmo tempo, e também caíram mortos no mesmo lugar.  Acabaram, lado a lado, juntos na morte tal como não o haviam sido na vida.   

Jean-Pierre Claris de Florian (França,1755 — 1794) foi um poeta, teatrólogo e escritor francês. Entrou para a Académie Française em 1788.  Foi preso durante a Revolução Francesa, mas sua vida foi poupada graças a intervenção de Robespierre.  Hoje é mais conhecido por suas fábulas do que por seus romances e peças teatrais que, no entanto, foram o que lhe fizeram conhecido e apreciado em seu tempo.   Além de suas popularíssimas fábulas, recontadas até hoje, na maioria dos países de cultura ocidental, Florian foi também responsável por alguns bons adágios que passaram a ser moeda corrente de linguagem na França e até no exterior.  Entre eles está o que conhecemos no Brasil:  Ri melhor quem ri por último.





O Folies-Bergère, uma passagem de Guy de Maupassant

29 07 2010

Moulin Rouge, 1893

Louis Anquetin (França, 1861- 1932)

óleo sobre tela

Estou lendo Bel-Ami de Guy de Maupassant.  E as imagens dos quadros de pintores franceses do final do século XIX, não param de vir à minha mente.  Resolvi então, à medida que estas passagens aparecem durante a minha leitura, colocá-las aqui, lado a lado.  Uma ilustrando a outra e vice-versa.

 

A fumaça dos cigarros velava um pouco, como um nevoeiro muito fino, os lugares mais distante, o palco e o outro lado do teatro.  Elevando-se sem cessar, em pequenos filetes esbranquiçados,  de todos os charutos e de todos os cigarros que toda esta gente fumava, a bruma ligeira subia sempre, acumulavase no teto e formava em torno do lustre, sob a cúpula, acima da galeria do primeiro andar, cheia de espectadores, um céu enevoado de fumaça.

 

No vasto corredor de entrada que leva  ao passeio circular, onde vagueava a tribo bem vestida das prostitutas,  misturada à multidão sombria dos homens, um grupo de mulheres esperava os que chegavam, diante de um dos três balcões, onde dominavam, pintadas e gastas, três mercadoras de bebida e de amor.

 

Os altos espelhos, atrás delas, refletiam suas costas e os rostos dos passantes.

 

[Uma visita ao Folies-Bergère].

 

Em: Bel-Ami, de Guy de Maupassant, tradução de Clóvis Ramalhete, São Paulo, Editora Abril: 1981, página 16.





Eu a amava, de Anna Gavalda

17 02 2010

Nunca cheguei a ser uma boa jogadora de Bridge, apesar de gostar do jogo.  Mas joguei o suficiente para aprender a respeitar qualquer adversário capaz de finesse sua mão.  Esta expressão, vinda do francês, mas usada no mundo inteiro no jogo de Bridge,  se refere à maneira como um jogador consegue se livrar de cartas perigosas sem que seus parceiros o percebam.  Depois que aprendi a expressão e entendi a combinação de destreza e sutileza imbuídas no vocábulo, já a usei tantas vezes, em contextos tão diferentes, que acho inacreditável que não exista em português um verbo que expresse no todo a astúcia e finura de gesto, que combinadas dão peso à palavra.

É natural então que essa expressão francesa seja a que me vem à mente no fim da leitura do livro Eu a amava, da autora Anna Gavalda [Record:2002], nascida em Boulogne-Billancourt, em Île de France.  Isso porque sua prosa demonstra uma habilidade de escrever carregada de grande sutileza, que consegue retratar o mais corriqueiro dos temas – histórias de amor que não deram certo – com astúcia e perícia.  Seu retrato dos sentimentos mais corriqueiros, mundanos, pequenos, acabrunhantes,  que nos afligem na hora da perda de um amor é composta de maneira tão singular, bem humorada e livre de sentimentalismos, que merece grande admiração.  E mais, seu romance oferece um penso para almas feridas, um curativo para a emoção exposta do amor não correspondido. 

O enredo é tão simples quanto a linguagem usada: uma mulher, abandonada pelo marido, vai com suas duas filhas e o sogro, Pierre Dippel, para a casa de campo deste.  Traída, sofrida, com o coração em pedaços, Chloé deixa à mostra toda sua infelicidade e revolta.  Seu estado de espírito pode ser resumido na frase: O perigo é pensar que temos o direito de ser felizes.   Pierre Dippel que até então havia se mostrado um homem reservado, aparentemente insensível, revela, para surpresa da nora, uma grande história de amor na qual foi um dos personagens principais.  E com essa lembrança de um amor perdido, Pierre Dippel acalenta a nora e a si próprio, tranqüiliza-a sobre o futuro, consola-a com o exemplo, serena seus sentimentos, nutre suas esperanças, alimenta sua alma.  No todo são 170 páginas, quase todas de diálogos que formam esta leitura comovente, às vezes irônica, bastante sutil.  Não é a toa que, com esse romance, Anna Gavalda tenha conquistado os leitores franceses; surpresa é que sua obra não tenha ainda sido “descoberta” pelos leitores brasileiros, que ainda não a abraçaram na proporção gigantesca com que foi recebida e aplaudida na França.

Anna Gavalda

Este não é o primeiro livro de Anna Gavalda que leio.  Há uns poucos anos li  Enfim, juntos [Rocco: 2006], um volume que corrobora a insinuante prosa da autora.  Há, no entanto, uma característica entre esses dois romances: a troca de experiências entre diferentes gerações, que me parece um motivo, um padrão freqüente nas criações francesas mais recentes.  Essa troca de experiências entre pessoas e gerações distintas está presente também nos filmes:  Um lugar na platéia, 2006, [Fauteuils d’orchestre] de Danièle Thompson; O fabuloso destino de Amélie Poulain, 2001, [Le fabuleux destin d’Amélie Poulain] de Jean-Pierre Jeunet; e também no romance, A elegância do ouriço [Cia das Letras: 2008] de Muriel Barbery.  É claro que a minha mostra é pequena e provavelmente irrelevante, no entanto fica aqui o registro de que além da apurada sensibilidade que se estende por muitos dos romances franceses atuais, — e aqui ainda posso adicionar Casas de família de Denis Tillinac [A Girafa: 2005] e  Um toque na estrela de Benoîte Groult [Record: 2008]–  há um tema ímpar, único e inexistente nos romances de outros países: o retrato benfazejo da comunicação entre diferentes gerações, o relacionamento positivo entre jovens e pessoas de uma ou duas gerações mais velhas.  Esse tema parece trazer uma nova perspectiva na produção literária e cinematográfica da França atual.  Um tema bem-vindo, positivo, confiante, útil, que muito enriquece textos e leitores.  Uma atitude diametralmente oposta ao eterno conflito de gerações, representado com grande minúcia nas literaturas norte-americana e brasileira, entre outras, que chega às vezes a um retrato narcisista e vaidoso de jovem escritores.  Essa troca de experiências, no romance de Anna Gavalda, é apurada e escrupulosa, retratada com vigor e entusiasmo. Vale a leitura de Eu a amava.

 

***

 

Nota sobre a edição brasileira:  Li este livro novo.  Nenhum outro leitor havia ainda manuseado o volume.  No entanto, ao final da leitura, tive em mãos um livro cujas páginas se soltaram, cujo dorso teimou em querer se descolar e cujos pontos de alinhavo pareceram feitos em linha muito grossa, incompatível com o peso do papel em que foi impresso.  As páginas mostraram o desejo de voarem para fora do volume, sendo picotadas pelo cordão que as segurava ao dorso.   O livro foi  composto na tipologia Aldine 721 em corpo 12/26 e impresso em papel off-set 90g/m² no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.  Tive que colar de volta diversas páginas do livro.  É inacreditável que uma editora, tão grande como a Record, não tenha se esforçado para manter um mínimo de controle de qualidade.  Fica aqui o meu protesto pelo desprezo que a companhia demonstrou pelo leitor e pela autora.





PAPA-LIVROS: Benoîte Groult, Um toque na estrela

25 08 2009

As Parcas castellcoch

As Parcas, c. 1875

Escultura sobre a lareira, Salão Principal

Castell Coch, próximo a Cardiff .

País de Gales, Grã Bretanha

 

Aos 86 anos, Benoîte Groult, famosa feminista e jornalista francesa, escreveu um livro que se tornou um grande best-seller naquele país: Um toque na estrela [Rio de Janeiro, Record: 2009, 2ª edição].  O título é intrigante e esclarecido só ao final da leitura.  Mas o texto é claro e ajuda a refletir sobre um assunto raramente abordado com tanta destreza: a velhice.   Com extraordinário bom humor, Benoîte Groult nos guia revelando o processo de envelhecimento de um ser humano: as restrições físicas; as restrições e expectativas impostas pela sociedade, pelos colegas de trabalho, ou membros da família. 

Um recurso literário de grande valia neste romance,  que ajuda o enquadramento das causas defendidas pela autora, foi a narração  ser feita por uma das Parcas ou Moiras.  No romance, cuja tradução, de Ari Roitman e Carmem Cacciacarro, achei às vezes próximo demais ao francês, uma Moira começa e termina a história.  O parágrafo inicial marca o tom imparcial, às vezes irônico e nunca piedoso desta divindade que não nos deixará esquecê-la através do romance: 

Todos me chamam de Moira.  Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos comigo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas.  Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passaram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorável, o fruto da maturidade.

 

Lafayette Ragsdale, (EUA) A good book,  2006

Um bom livro, 2006

Lafayette Ragsdale (EUA, contemporâneo)

 

É de fato esta Moira, quem fechará com chave de ouro a narrativa que culmina no debate interno que cada leitor , gentilmente guiado, trava com a autora, sobre a eutanásia, ou mesmo, o direito de se escolher o momento da morte.   

Acostumada a tratar de assuntos polêmicos através de suas colunas jornalísticas Benoîte Groult se tornou conhecida pela maneira sucinta com que caracteriza conceitos complexos, lembrando em muito suas conterrâneas, as grandes pensadoras francesas do século XVII, XVIII e XIX,  tais como Marquesa de Lambert,  Mme de Sévigné,  Françoise de Graffigny, Mme de Staël, e tantas outras cujas citações, por suas clareza e mordacidade atravessam séculos.   Como elas, Benoîte Groult tem dezenas de frases conhecidas: A velhice é tão longa que não se deve começá-la muito cedo [«La vieillesse est si longue qu’il ne faut pas la commencer trop tôt.»];  O que há de melhor na navegação é desembarcar [«Ce qu’il y a de plus beau dans la navigation, c’est de débarquer.»]; O feminismo nunca matou ninguém – o machismo mata todos os dias [« Le féminisme n’a jamais tué personne – le machisme tue tous les jours »].

 Muitas e muitas citações semelhantes podem ser retiradas de Um toque na estrela.  Quando o grupo Papa-livros se reuniu para discussão do texto , alguns membros, conhecidos por tomarem notas de passagens importantes dos livros que lêem, chegaram desta vez com os próprios livros cheios de marcadores, tal a abundância não só de possíveis citações significativas, mas de passagens inteiras que remetem a experiências próximas, às vezes bastante engraçadas, às vezes sentimentais.  

 

Linda Armstrong Joan_Reading 1994

Joan lendo, 1994, por Linda Armstrong.

 

Entrelaçado à descrição do dia a dia da velhice,  Benoîte Groult narra um belíssimo e tórrido romance entre dois adultos, um romance extraconjugal de ambas as partes, um romance além das fronteiras geográficas de cada componente.  Ele lembra ao leitor, entre outras situações, da necessidade de se aproveitar a vida ao máximo, ao extremo, com corpo e alma, porque é só do presente que se sabe.  E talvez nem mesmo deste. 

Enquanto, como leitores, somos apresentados a situações relativas ao incômodo do envelhecimento, ao incômodo,  para os outros, do nosso próprio envelhecimento, ao incômodo de termos que estar sempre parecendo mais jovens do que somos;  somos também apresentados em cores vivas e berrantes à beleza de se estar vivo, à necessidade que temos de nos agarrar ao momento, ao presente, à plenitude.   Por nos mostrar como é envelhecer, e também como é estar vivo, ainda no esplendor de uma idade madura e competente, somos convidados a desfrutar ao máximo a vida que temos.  Este livro é um hino à vida.  Um lembrete para que não a tratemos mal, mas que a honremos.  É preciso tomar com suas próprias mãos as oportunidades, porque elas não voltam mais.  As Parcas, as Moiras, elas sim, estão sempre atentas, sempre ocupadas, prontas para exercer os seus poderes.

***

 

Benoîte Groult

A escritora Benoîte Groult.

 

 

Benoîte Groult trabalha hoje, aos 89 anos, num outro livro.








%d blogueiros gostam disto: