O escritor no museu: Gabriela Mistral

9 09 2019

 

 

 

d2dce03ddd9a53a1ad6a0d6693ec8cedGabriela Mistral, 1956

Oswaldo Guayasamin (Equador/EUA, 1919 – 1999)

óleo sobre tela

Poetisa chilena ganhadora do Nobel de Literatura de 1945





Papalivros, um grupo de leitura, 15 anos de existência!

16 04 2018

 

 

30708363_10216448248102687_3601373864887582720_nBolo de comemoração dos Quinze Anos do Grupo de Leitura Papalivros

Da Graça Pâtisserie, em Copacabana

 

 

Em março de 2003, três meses após o meu retorno ao Brasil, pensei abrir caminho para novas amizades e atiçar fogo nos velhos relacionamentos depois de décadas fora do país. Resolvi fazer no Rio de Janeiro um grupo de leitura nos moldes que conhecera no estrangeiro.

Nos Estados Unidos, nos meus primeiros anos, tive o apoio da Secretaria de Estudantes Estrangeiros da Universidade Johns Hopkins.  Através deles fui apresentada a maneiras de complementar  renda e também, modos de me integrar à vida do país, o que incluiu pertencer a grupos que se encontravam não mais do que uma vez por mês.

Participei de grupos de culinária, onde a cada mês uma pessoa mostrava em sua cozinha, como fazer uma especialidade de seu país de origem.  Participei de grupo de estudos (leituras) de história da Europa. E antes mesmo de completar seis meses no país, entrei para um grupo de leitura. Grupos de leitura são comuns nos EUA.  Morei por muitos anos no país, em três diferentes estados e no Distrito de Columbia e em todos os locais fui membro de um grupo de leitura.

É um meio de se conhecer pessoas, de descobrir afinidades, aprofundar o conhecimento geral.  Ainda me lembro com prazer de algumas leituras dos dois anos em que pertenci ao primeiro grupo, na cidade de Baltimore: John Steinbeck, Of mice and men;  John Fowles, The MagusThe once and future king, T. H. White, All creatures great and small, James Herriot, Watership Down, Richard Adams, Breakfast of Champions, Kurt Vonegut,  Burr, Gore Vidal.  Desses tornei-me fã de Vidal, de Vonegut, e Fowles.  E apaixonada pela história do Rei Artur. Em outros grupos de leitura, conheci dezenas de autores americanos e estrangeiros que me roubaram o coração e a atenção.  E mais, fiz grandes amizades nesses grupos.  Pessoas com afinidades.  E aprendi, sobretudo, a respeitar os gostos de cada um, a ouvir as opiniões dos outros sem interferir e a aceitar que cada um de nós tem gosto único e que ele pode mudar através dos anos.

Minha intenção de abrir um grupo de leitura aqui no Rio de Janeiro, cidade de festa, sol, samba e extroversão, foi recebida com surpresa e descrença. Mas à maneira americana, fui pragmática.  Segui em frente até ver no que dava.  E deu samba.  Muito além das minhas expectativas.  Neste mês de abril o Grupo de Leitura Papalivros (nome escolhido por votação logo no primeiro encontro) completa 15 anos de existência.  Começamos com seis pessoas.  Minhas primas, minha cunhada, uma amiga de mamãe.  Quinze anos depois, ainda temos sete membros que entraram no primeiro ano, dos familiares só minhas primas. Somos 22 pessoas, todas mulheres, mas já foi um grupo misto. Somos leitoras.  E amigas. Nossas idades variam dos 34 anos aos 90.  E continuamos muito amigas, a cada ano, mais amigas.

15 anos, 180 livros, 180 encontros, sem nenhuma falha.  É para nos orgulharmos de nós mesmas, do nosso comprometimento, que melhor acontece quando a verdadeira amizade brota e é cuidada.  Que venham mais 15 ou 30.  É um prazer pertencer a esse grupo.

 

 





Meu dia de estrela!

23 07 2016

 

 

autografo 4Ilustração ©Maurício de Sousa.

 

 

Meu dia de estrela!

Hoje, estive no programa SÁBADO SHOW da Rádio Bandeirantes no RJ. Fui falar sobre o PAPA LIVROS e o AO PÉ DA LETRA, dois grupos de leitura, com 22 pessoas cada, que oriento. E deu para falar também do meu próximo projeto que é EU TAMBÉM LEIO, um grupo de leitura para adolescentes que gostam de ler. Explicar que a leitura é uma forma ecumênica de aprendizado é importante. Foi uma oportunidade única. Agradeço aos que puderam proporcionar esse momento.

Contato através da página da PEREGRINA CULTURAL no Facebook ou através daqui mesmo, no blog.





Resenha: “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

15 05 2016

 

 

David PadwornySem título

David Padworny (EUA, contemporâneo)

 

 

 

É bem apropriado que agora na segunda década do século XXI quando a Colômbia já está equilibrada na guerra ao narcotráfico, que obras literárias, filmes e séries televisivas surjam dando a seus leitores uma melhor ideia do mundo de  Pablo Escobar e seus companheiros.  A grande surpresa é que O ruído das coisas ao cair, conta a história situada nos anos 70 do século passado, mas sem muita violência. O enredo é simples, Antonio Yammara, professor universitário faz conhecimento no salão de bilhar com Ricardo Laverde que acabou de sair da prisão.  Têm uma ou outra conversa, mas não chegam a ser próximos. Um dia, quando a amizade começava a se desenvolver, quando os dois andam na rua, Ricardo é assassinado, sem razão aparente. Antonio, ao seu lado, também é vítima de um tiro, é hospitalizado e leva muito tempo para se recuperar física e emocionalmente.  Nesse processo, de alguns anos, resolve descobrir as razões para Ricardo Laverde ter sido alvo dos assassinos.

O processo da descoberta é lento e tortuoso. E o leitor acompanha passo a passo e só consegue segui-lo graças à voz narrativa de Juan Gabriel Vásquez que se destaca como um bom contador de histórias, à maneira dos clássicos do século XIX, que pausada e detalhadamente volta duas gerações na narrativa.

 

 

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Na tradição das narrativas de causos voltamos aos avós de Ricardo Laverde, seus pais, sua esposa e filha, que, inacreditavelmente também se encontra numa procura semelhante à de Antonio, pois precisa descobrir detalhes da vida de seu pai.  Há grande mérito na habilidade de escrita de Vásquez, pois sem ela, a história poderia se perder na sequência de evento após evento.  A fascinação de Antonio Yammara pelo parceiro de bilhar não me pareceu forte o suficiente para justificar praticamente o livro inteiro de procura sobre mais detalhes; mesmo tendo ele sofrido um tiro que lhe abalou a saúde.  Faltava um comprometimento emocional maior do professor universitário em relação ao companheiro de jogo, para justificar a caça aos fatos, ainda que Antonio Yammara pareça mesmo uma pessoa distante, sem grande habilidade de conexão emocional, como mostra sua relação com Aura e Letícia, sua mulher e filha.

 

juan gabriel vásquezJuan Gabriel Vásquez

 

Eu gostaria de ter tido maior simpatia pelos personagens com quem passei essas horas de leitura.  Mas nenhum deles, nem do núcleo do professor quanto do núcleo de Ricardo Laverde foram capazes de aprisionar meus sentimentos.  A linguagem de Vásquez é bastante refinada e há momentos de grande  beleza, principalmente nas descrições da natureza colombiana. É um livro de leitura rápida e de temática muito interessante.  Ótimo enfoque.  Mas ele me deixou fria.

 

 





Um vislumbre da formação de Mario Vargas Llosa

16 09 2015

 

Juan Ardohain (Argentina, 1963, Mujer leyendo,Mulher lendo, 2010

Juan Ardohain (Argentina, 1963)

óleo sobre tela

 

 

 

“Aconteceu em Lima, por volta de 1955. Tinha acabado de me casar pela primeira vez e precisei acumular vários trabalhos para ganhar a vida. Cheguei a ter oito, enquanto continuava os estudos universitários. O mais pitoresco deles era fichar os mortos das quadras coloniais do cemitério Presbítero Maestro, de Lima, cujos nomes haviam desaparecido dos arquivos da Beneficência Pública. Fazia isso aos domingos e feriados, indo ao cemitério equipado com uma escadinha, fichas e lápis. Depois de realizar meu escrutínio das velhas lápides, elaborava listas com nomes e datas, e a Beneficência Pública de Lima me pagava por morto. Porém o mais grato dos meus oito ganha-pães não era esse, e sim o do ajudante de bibliotecário do Clube Nacional. O bibliotecário era meu professor, o historiador Raúl Porras Barrenechea. Minhas obrigações consistiam em passar duas horas diárias de segunda a sexta no elegante edifício do Clube, símbolo da oligarquia peruana, que naqueles anos celebrava seu centenário. Teoricamente, precisava dedicar essas poucas horas a fichar as novas aquisições da biblioteca, mas, não sei se por problemas de verbas ou se por negligência da diretoria do Clube Nacional já quase não adquiria livros naquela época, de modo que eu podia dedicar aquelas duas horas a escrever e ler. Eram as duas horas mais felizes daqueles dias, em que da manhã até a noite eu não parava de fazer coisas que me interessavam pouco ou nada. Não trabalhava na bela sala de leitura do térreo do Clube, mas num escritório do quarto andar. Ali descobri com felicidade, dissimulada atrás de uns discretos biombos e de umas cortininhas pudibundas, uma esplêndida coleção de livros eróticos, quase todos franceses. Ali eu li as cartas e fantasias eróticas de Diderot e Mirabeau, o marquês de Sade e Restif de la Bretonne, Andréa de Nerciat, Aretino, Memórias de uma cantora alemã, Autobiografia de um inglês, Memórias de Casanova, Ligações perigosas de Choderlos de Laclos e não sei quantos outros livros clássicos e emblemáticos da literatura erótica.

Ela tem antecedentes clássicos, evidentemente, mas irrompe de verdade na Europa no século XVIII, em pleno auge dos philosophes e suas grandes teorias renovadoras da moral e da política, sua ofensiva contra o obscurantismo religioso e sua apaixonada defesa da liberdade…”

 

Em: “O desaparecimento do erotismo“, A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, Mario Vargas Llosa, Rio de Janeiro, Objetiva: 2013, tradução Ivone Benedetti, pp. 99-100.





Um Nobel mais do que merecido: Mário Vargas Llosa

7 10 2010

Marie-Jose com vestido amarelo, 1950

Henri Matisse, ( França, 1869-1954)

Aquatinta

 

Raramente um prêmio Nobel de literatura é dado a algum escritor cuja obra eu conheça.  E se o conheço é por um único livro.  Recebi então com surpresa e grande prazer a notícia de que Mario Vargas Llosa, o grande escritor peruano, recebeu hoje o Prêmio Nobel de Literatura.  Dele conheço muitos livros.  A impressão que tenho é que suas obras me acompanham desde sempre e reconheço a importância de sua palavra escrita não só para o meu próprio desenvolvimento como leitora, mas para aquele de uma inteira geração de leitores latino americanos.  O que faz Mário Vargas Llosa maior do que seus livros, maior do que sua constante preocupação com sua terra natal, com o Peru e com a estabilidade dos princípios democráticos na América Latina, é a sua permanente preocupação com o ser humano, com suas emoções e principalmente com as paixões humanas.  Sem paixão, é a mensagem sua obra, não somos nada; a vida de nada serve.  Quer nos seus romances de fundo político, quer naqueles que se caracterizam por explorar a estrutura emocional de seus personagens, Vargas Llosa demonstrou do início de sua carreira até hoje um enorme fôlego criativo.

Meu primeiro contato com Vargas Llosa foi com Tia Júlia e o Escrevinhador, uma obra que me fez rir e muito, mesmo quando a lia em lugares públicos, como no ônibus ou no metrô.  Sou, por mim mesma responsável pela compra de pelo menos 11 volumes desse romance que dei de presente através dos anos, a cada re-edição, até mesmo na sua versão em inglês, para amigos na época em que morei nos Estados Unidos.

Depois vieram Conversa na Catedral – um deslumbrante diálogo político com o período de uma ditadura no Perú, nos  anos 50:  um livro que me marcou muito, com sua acidez, com sua irreverência.   Nas minhas leituras, que não seguem necessariamente a ordem de publicação, seguiu-se quase imediatamente  Quem matou Palomino Molero?  Um quase-mistério que continua com a mesma preocupação de descortinar os meios pelos quais uma ditadura permanece no poder. 

 Pantaleão e as visitadoras veio a seguir.  Apesar de sua popularidade, este não é o meu favorito.  Mas sem dúvida é uma obra repleta de ironia e humor e mostra as atitudes e os desmandos — enquanto abre os nossos olhos — das gastanças do poder público na América Latina e a freqüência com que projetos governamentais estão fadados a meter os pés pelas mãos.  Mais tarde fui de encontro à ditadura da República Dominicana lendo o pequeno romance, um grande conto, uma novela talvez, chamado A festa do bode.   Depois disso descansei por alguns anos da leitura de Vargas Llosa, só para voltar a me apaixonar por sua escrita, de novo, em 2006 com Travessuras da menina má

 Hoje, ao descobrir que Vargas Llosa – este grande escritor – foi premiado com o Nobel, vibrei.  Este incansável defensor dos direitos humanos, que tem como os grandes humanistas o homem como medida exata de seus trabalhos, nunca se acanhou de lutar com unhas e dentes pelos valores democráticos em seu país e fora dele.   Agora, sinto-me tentada a ler suas outras obras, aquelas com as quais ainda não consegui me deliciar.  É um compromisso pessoal.    Devemos todos nos orgulhar de tão justo prêmio a um infatigável batalhador pela justiça social.





Alonso Cueto, brilha com O Sussurro da mulher baleia

3 01 2010

Meninas

Stanislaw Wyspianski ( Polônia, 1869-1907)

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.  Começo com um romance que me comoveu bastante, do escritor peruano Alonso Cueto, cuja resenha escrevi em 31/01/2008, antes de começar este blog.

Amizade, lealdade, ira e vingança num romance moderno e atual

Vi este livro em diversas livrarias em Lima, no Peru, em Outubro.  Mas não leio muito bem em espanhol.  Então, quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro achei interessante ver que havia acabado de ser lançado no Brasil.  Não conhecendo o autor, resolvi comprá-lo como uma recordação da minha viagem.  E ainda levei um tempinho para lê-lo principalmente porque seu título não me interessava: ênfase no tamanho ou no peso de uma mulher era um assunto que me repelia.  Mas, acabei enfrentando a fera.  Como gostei!  É um excelente livro e descobri, chegando ao final, e algumas horas depois e alguns dias mais tarde, que é um livro que fica enraizado na nossa imaginação; que mantem um diálogo vivo com os nossos botões.  Gosto de livros que me fazem pensar.

Duas adolescents são amigas de escola.  Esta amizade é muito importante para cada uma delas, enquanto a amizade durou.  Anos mais tarde, elas se encontram, já adultas.  Cada qual bem sucedida na sua vida, cada qual com sua parcela de sucesso e sorte.  À medida que elas voltam a se comunicar, descobrem não só como são importantes as emoções que cada qual guarda a respeito da amizade que teve, mas também recordam o evento trágico que separou-as, que destruiu o que haviam construído: uma amizade que era importante para cada uma delas.

A narrativa é clara, assim como a maneira em que os personagens são retratados.  Há muita atenção nos detalhes do dia a dia, coisa que no início parecia inconseqüente, talvez até um maneirismo do autor, mas que mostra ser essencial para detalhar as emoções, para retratar  a vida interioir de cada personagem, vida essa submersa nos detalhes corriqueiros.

Com um excelente ritmo, texto coloquial e moderno, Alonso Cueto se mostra em domínio total da narrativa, do inicio ao fim.  À medida que estas duas mulheres rememoram suas vidas, descobrimos suas fraquezas e principalmente a necessidade de cada uma de “pertencer” de “fazer parte” de um grupo.  E nos lembramos também de como os adolescentes podem ser cruéis consigo mesmos e com seus amigos e colegas.   E aos poucos percebemos como podem ser profundas as feridas sentidas nestes anos de formação, assim como a dificuldade de cada um, de superá-las.

Depois de ler este romance de Alonso Cueto, não me surpreendi ao descobrir que ele é um autor peruano muito conhecido, com mais de uma dúzia de títulos publicados e que já recebeu diversos prêmios literários inclusive o Prêmio Viracocha, em 1985, com o livro Tigre Branco;  em 2005 ganhou o prêmio Herralde com o livro Hora Azul.  Em 2002 ele recebeu a bolsa para escritores da Guggenheim e em 2003 seu livro Grandes Moradas tornou-se um filme de Francisco Lombardi.

Alonso Cueto

Este é um livro sobre amizade, lealdade, ira e vingança.  Retrata as almas sofridas e as técnicas de sobrevivência usadas por aqueles que carregam feridas emocionais por muito tempo.  É um romance com um final surpreendente:  iconográfico e belo.  Sutil.  Não é supresa, então, que tenha sido um livro finalista para o Prêmio Planeta – Romance Ibero-americano – em 2007.  Recomendo com entusiasmo a leitura deste romance.

31/01/2008

Esta resenha apareceu em:  Living in the Postcard; e na Amazon.  Ambas em inglês.  Tradução e adaptação, minhas.








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