Dia 2: O céu de hoje, desafio da escrita, #PHpoemaday

2 06 2014

 

 

 

TúlioMugnaini (Brasil, 1895-1975), Ipanema, sd,Óleo sobre tela, 54x 72cmColeção ParticularIpanema, s.d.

Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)

Óleo sobre tela, 54x 72 cm

Coleção Particular

 

O céu de hoje

 

Leblon. Fim de madrugada. Manhã escura de outono. O sol às minhas costas acorda preguiçoso. De onde estou não distingo nem mar, nem céu. Só escuridão. Diversos tons de cinza me envolvem. O horizonte se apaga na distância. Resta a sombra assustadora, enegrecida e fria, soturna e altaneira do penhasco Dois Irmãos. Será um belo dia, céu limpo. E, no entanto, quando a luz se faz brilhar, não consigo esquecer a impávida presença da pedra fria, fatídica, nefasta, molhada, sinistra e escarpada, guardiã eterna do meu paraíso.

Nem tudo é festa no Rio de Janeiro.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2014





O silêncio na biblioteca é importante

8 02 2013

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Ilustração Walt Disney.

Numa pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que os usuários das bibliotecas públicas mais gostam nos serviços apresentados está o silêncio para ler.  Um mundo de quietude parece ser tão importante quanto acesso livre a computadores e à internet.  Os resultados dessa enquete foram surpreendentes para  Laura Miller que  publicou um pequeno artigo na revista Salon sobre o fato.  Eu também aprecio a certeza de que estarei num lugar quieto, sem conversas, quando vou à minha biblioteca. Gosto de saber que não serei incomodada com cochichos e conversinhas, que ainda há ilhas de quietude nas metrópoles, quietude ainda maior do que a que encontro em  minha casa, onde o telefone com ofertas mais variadas parece estar sempre chamando.

Aqui estão os resultados: os serviços mais apreciados nas bibliotecas públicas:

80% considerou – bibliotecárias que ajudem a encontrar informações.

80% considerou – empréstimo de livros

77% considerou – livre acesso a computadores e à internet

76% considerou – lugar silencioso para adultos e crianças

Este último item, só 1% a menos do que acesso à internet.  VIVA!  Há pessoas com os mesmos gostos que eu!





Nélida Piñon e a Lagoa Rodrigo de Freitas

14 01 2013

corcovado e lagoa

Corcovado e lagoa Rodrigo de Freitas, vista de Ipanema.

“Da janela da sala, avalio a beleza da lagoa Rodrigo de Freitas, cuja estética depende da capacidade de cada qual misturar princípios, gostos, esquemas, de abrir-se para a voluptuosidade das ofertas que nos cercam. Assim, o espelho da água denuncia em que estágio estou. Se amadureci com lisura, elegância, para ser quem sou, se ainda há tempo pra me corrigir.

Mais adiante observo o morro Dois Irmãos, de aparência irreal ao se iluminar. À direita, no topo da montanha, o Cristo, de braços abertos, critica o ufanismo nacional.  Ele contempla os excessos e se cala. Da casa, em linha reta, quase no rés do chão os clubes náuticos e as pistas verdes do Jockey Clube.

Despertei cedo e pus-me a escrever com a esperança de ser tocada pela graça. Para o trabalho que ora desenvolvo, qualquer hora e local servem. Só as palavras, com seus símbolos, me pautam. A escrita brota, então, das máscaras que peço emprestadas a quem não sei, com o intuito de me apresentar em público. A escrita, contudo, à minha revelia, anota o inconfessável, a matéria da cama e dos salões. Mas como ludibriar sem a verdade da criação? Se a ficção apresenta, no seu nascedouro, uma verdade feita de falsa coerência?

Sigo para o mercado, atraída pelo supérfluo. Congratulo-me com o bairro e os seres que perambulam pelas ruas. Sei conquanto a vida não me perpetue, insisto em ser trânsfuga, andarilha, falar o português.  O que mais pedir ao Brasil?

Ao final da tarde, o crepúsculo da lagoa reafirma que a arte reconcilia os seres, aquece-os. O ano está prestes a acabar, há que prestar contas, fazer votos, pedir trégua aos desafetos, aos que se odeiam  tanto que só o assassinato lhes abrandaria o coração. Solicitar, sobretudo, mesa farta para os humilhados, febre para os indiferentes, clemência amorosa.

Jogo as cartas sobre a mesa aguardando que o ás de ouros me indique o porvir”.

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Em: Livro das Horas, Nélida Piñon, Rio de Janeiro, Record: 2012, pp 129-130





Pensando o espaço urbano verde: Hotel Kandalama

12 07 2012

Hotel Kandalama, em Sri Lanka (antigo Ceilão em português).

Projetado pelo mais famoso arquiteto do país, Geoffrey Bawa, o edifício representou na época em que foi  construído, 1991-1994, sua maneira de balancear o mundo natural com a interferência humana de maneira harmoniosa, com grande sensibilidade.   O hotel não se distingue da natureza que o cerca.  Com paisagismo de Aitken Spende, o hotel consegue dar a impressão ao visitante que o edifício simplesmente é coberto pela extensão da vegetação à sua volta, sem ser ofuscado pela pedra Sigiriya Rock.  Ao contrário, o prédio  foi construído um pouco mais longe, abraçando a parte mais baixa de um morro, aos pés do qual é construído, como se fosse sua própria continuação.

Vista do Hotel Kandalama, do térreo.

Vista dos caminhos e das trepadeiras.

A entrada do hotel fica num nível mais abaixo do que a construção propriamente dita.  E acesso ao edifício é feito através de um corredor que leva até o saguão principal.  A ideia por trás de toda a construção é oferecer uma varanda para a natureza que o cerca e não chamar atenção para a construção propriamente dita.

Vista do interior para fora.

O arquiteto convenceu seu cliente a escolher um local alternativo, cerca de 15 km ao sul do plano original sobre terreno rochoso. O que Geoffrey Bawa conseguiu prever: as características marcantes naturais, que eram um desafio do projeto acabaram por permitir que houvesse um menor impacto da construção no local.  Nenhuma máquina de terraplenagem foi utilizada, e as formações rochosas foram mantidas e utilizadas como  um elemento importante no projeto final.

Caminhos do Hotel Kandalama, com uso de pedra natural como elemento arquitetônico.

Outros elementos importantes do projeto incluem a sua localização, ao longo dos cumes existentes, de passarelas externas ao longo da face do penhasco e treliças de madeira com vegetação trepadeira. Esses elementos ajudam a emendar o edifício ao local, criando uma relação simbiótica de seu entorno com o prédio.  Desta maneira ele apaga a distinção entre o natural e o artificial. A localização, a ambiguidade espacial e articulação da fachada combinam para criar uma experiência única para quem ali se instala.

Os 28.110 m² de hotel foram construídos sobre palafitas para manter o fluxo de água da chuva natural.  O paisagismo foi restaurado até os alicerces da coluna, e 80 por cento dos telhados são plantados com horticultura indígena. O edifício foi planejado ao longo de um pano de fundo de uma formação de rocha para fornecer maior grau de resfriamento passivo, o que reduziu a carga de resfriamento global.

Toda a água é reciclada e reutilizada.  Ela vem de poços profundos do próprio local e é tratada, antes de circular no edifício. Depois passa por duas estações de tratamento e, em seguida, utilizada para o paisagismo. A água excedente é devolvida ao aquífero.  Todas as necessidades de água e esgoto do edifício são satisfeitas a partir de recursos locais, sem conexões com o serviço público.

Os telhados planos (inclinação de 1%) e as colunas verticais finas, combinadas com os telhados verdes e fachadas, dão sensação de autossuficiência e conforto para os visitantes.

A proximidade a um edifício que interfira pouco no meio ambiente em que está localizado ainda é mais acentuada pelo uso das árvore Gliricidia sepium nativas do local, de tamanho médio, chegam a  10 -12 metros de altura.  Elas produzem flores entre o rosa e o lilás dando cor a paisagem na época de inflorescência.





Pensando o espaço urbano verde: escola de design arte e mídia em Cingapura

21 06 2012

Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Um dos telhados verdes mais impressionantes é o da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.  O edifício com uma forma orgânica não deixa que se perceba a altura de cinco andares do edifício.  A vegetação se mistura à paisagem.  Natureza e alta tecnologia se encontram para solucionar de maneira criativa o impacto do edifício na área à sua volta.

Outro ângulo do edifício da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Não parece haver uma separação distinta entre o jardim e o edifício: formas e espaços são fluidos, e o jardim parece abraçar o imóvel, cuja fachada é inteiramente de vidro.  Esse telhado de vegetação permite temperaturas mais estáveis, tanto no inverno quanto no verão, evitando os extremos. A luz é abundante vindo através das  paredes de vidro que dão para a praça interna.  Dentro das salas ela é difusa e filtrada através da folhagem no entorno do prédio.

As paredes de vidro proporcionam uma troca visual entre o espaço interior e o exterior permitindo que os usuários experimentem simultaneamente o edifício, a paisagem à sua volta e a praça interior como espaços fluidos.

Vista da praça interior do edifício.

Os telhados verdes fazem as curvas do edifício se sobressaírem.   Além de estabilizarem a temperatura: isolando o edifício, resfriando o ar à sua volta e colhendo chuva para a irrigação dos jardins, eles servem também como espaços de encontro informais.

Os acabamentos são intencionalmente despojados para atuar como um pano de fundo para a arte, mídia e projetos de design. Paredes de concreto e colunas, cimento, areia, pisos, grades de madeira, tudo numa paleta neutra que ajuda a definir os espaços interiores que variam em forma e tamanho.

Tradução e adaptação do artigo em INHABITAT.





As Casas Cubo de Roterdam

9 06 2012

Casas Cubo, Projeto do arquiteto Piet Blom (Holanda 1934-1999), desenhado em 1978, construção: 1984

Meu sobrinho foi no ano passado à Holanda representando sua escola e o Brasil numa competição escolar de ciências, mais precisamente de robótica.  Voltou encantado com muito do que viu, mas falou especificamente das Casas Cubo, em Roterdam.  Eu, nunca fui a Roterdam, mas já ouvi falar e muito do movimento Estruturalista na arquitetura que por sinal não é uma coisa nova.  As Casas Cubo são um dos muitos exemplos desse movimento na arquitetura e no urbanismo que surgiu  na década de 1960 como uma reação ao que se considerou projetos sem vida e impessoais nas tendências de pós-guerra [Segunda Guerra Mundial] dos que vieram a ser chamados de racionalistas formais: Mies van der Rohe, Groupios e Le Corbusier, os maiores expoentes desse movimento.

Projeto do arquiteto Piet Blom (Holanda, 1934-1999) as Casas Cubo são hoje um dos cartões postais de Rotterdam.  O projeto de 1978 só foi construído em 1984, como parte de um plano de renovação da cidade.

Piet Blom, Casbá, projeto de 1969.

As Casas Cubo parecem ser a evolução natural do trabalho de Piet Blom que já havia projetado em 1965 e construído em 1969, uma série de casas em palafitas, uma combinação de unidades de alojamento espaçosos com projetos variados de hotelaria, varejo e apartamentos estúdio; com pequenos estacionamentos, além de parques infantis a que deu o nome de Casbá,  lembrando o emaranhado de vielas em volta da praça da Medina dos centros das cidades de colonização árabe no norte da África que têm suas ruas principais cobertas. O Casbá tem um ambiente acolhedor, com cores quentes sobre os telhados e janelas. No meio do complexo há uma praça aberta, decorada como um lugar de encontro com bancos e árvores. Um dos objetivos de Piet Blom nesse projeto era justamente manter o movimento de pedestres ao nível do chão, livre com casas de diversas alturas de telhados sustentadas por palafitas, conceito reminiscente das pilastras usadas por Le Corbusier. O que ficou do projeto Casbá foram as habitações em pilastras que serão sua assinatura em dois de seus projetos, as dezoito casas em colunas em Helmond  e as Casas Cubo em Roterdam.

Piet Blom, casas cubo em Helmoond, primeiro projeto desse tipo.

O complexo habitacional de Helmond foi o primeiro das Casas Cubo a ser construído, tendo em seu centro, formado por quatro cubos, um teatro, Teatro Speelhuis, que seria o centro de atividades culturais do projeto, infelizmente destruído em um incêndio em 2011.  O conceito original dessas casas foi uma evolução da Casbá: viver sob um teto urbano, ou seja, a vida comunitária de desenrolando aos pés do nível habitacional. Pelo menos era isso que Piet Blom advogava.  Espaço comum urbano conseguido através de uma variante das casas em palafitas.  Ele usou uma coluna, para fazer o que chamou de “floresta urbana”: cada Casa Cubo seria a abstração de uma árvore com o tronco como coluna de suporte e a copa como espaço de habitação. Com a repetição desses modelos teríamos então uma floresta ou um bosque urbano onde a vida diária se passaria à sua sombra.   Para conseguir o efeito ‘copa” Piet Blom virou o cubo de habitação em 45 graus, e colocou uma coluna de sustentação hexagonal.  Dezoito Casas Cubo foram construídas em Helmond, em 1974 e 1977.

O projeto urbano em Helmond era para ter sido parte da reurbanização da antiga Rue de la Loi.  Mas a administração local considerou o projeto muito alternativo e que não se adequava às necessidades do centro de Helmond. Como prêmio de consolação pelo projeto Piet Blom foi convidado a localizar seu projeto no bairro Grande Driene, um bairro novo, nos arredores da cidade.  Piet Blom desenvolveu cinco diferentes tipos de habitação. A menor unidade de um único apartamento até uma unidade bem maior como um estúdio para mais de um artista. As unidades maiores têm um terraço espaçoso e dois a quatro quartos. A densidade habitacional alcançada no projeto com esta concepção de casas sobre colunas foi quatro vezes maior do que  a conseguida numa área residencial normal. Para um país como a Holanda, cortado por canais, onde a terra para construção tem um valor descomunal, essa economia de espaço é essencial.

Vista aérea das Casas Cubo em Roterdam.

A cidade de Roterdam pediu a Piet Blom o projeto de um complexo habitacional que pudesse ser construído acima de uma ponte para pedestres.  O resultado foi exatamente as Casas Cubo, cada qual representando uma árvore, resultando numa floresta urbana. As trinta e oito Casas Cubo de Roterdam estão localizadas na Rua Overblaak, ao lado da estação Blaak do metrô.  Elas continuam o mesmo conceito desenvolvido em Helmond, mas usam diferentes materiais de construção.

Casas Cubo de Roterdam, projeto de Piet Blom, vistas debaixo, do nivel praça comunitária.

As casas se “equilibram” num pedestal hexagonal.  Em algumas dessas casa a coluna hexagonal tem uma área para guardados e uma escada dando acesso à habitação propriamente dita, mas em outras, essas colunas têm pequenas lojas.  Cada Casa Cubo tem três andares: a entrada à rés do chão; o primeiro andar, que tem um a planta triangular, é onde se encontram a sala de estar e a cozinha – aberta, à americana como se diz no Brasil.  Nesse andar as janelas abrem para o andar de baixo, inclinadas para a área comum.  No segundo andar estão os dois quartos e um banheiro e o andar cima,que também tem um planta triangular, é usado como uma área extra, quarto de hóspedes, sala ou até como jardim.  É aí que essas habitações têm uma ótima vista com janelas na parte piramidal da construção. Todas as janelas e paredes foram construídas num ângulo de 54,7 graus.  Cada apartamento tem aproximadamente 100 m², mas só um quarto desse espaço – 25m² pode ser efetivamente usado por causa dos ângulos das paredes e dos tetos.

Vista de outro ângulo das Casas Cubo de Roterdam.

Em 2008 parte do complexo de Casas Cubo de Roterdam foi comprado, algumas paredes derrubadas e um hostel oferecendo 243 camas foi instalado no local.

Foto do interior da Casa Cubo de Roterdam.




Almoço de época no Rio de Janeiro: Confeitaria Manon

28 04 2012

Confeitaria Manon, na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.

Hoje visitei o centro do Rio de Janeiro e voltei um pouco à minha infância.  Quando eu era criança meu dentista ficava na rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, a uns poucos metros da Confeitaria Manon.  O prêmio de ir ao dentista era um sorvete nessa confeitaria, depois do “sacrifício”.  Nem sei quantas vezes fui a esse templo do Alto Art Deco do Rio de Janeiro.   Naquela época minha única apreciação era o delicioso sorvete que serviam no local.

Salão ao fundo da Confeitaria Manon.

Eu não sabia, então, que se tratava de um verdadeiro templo da arquitetura e decoração da década de 40 do século passado.  Hoje, com conhecimentos de história da arte e de história da arquitetura, fico felicíssima cada vez que entro nessa confeitaria, que comemora este ano 70 anos de existência.  Fico feliz porque ainda estão lá as paredes arredondadas, preferidas na época, assim como a iluminação indireta dando um tom sensual e dourado ao ambiente.  Os tetos ecoam as linhas sinuosas das paredes e o corte circular, com rebaixamento à sua volta, enfatiza a modernidade do estilo.

Detalhe do teto do salão da Confeitaria Manon.

As colunas de sustentação foram sabiamente incorporadas ao estilo arquitetônico dando ainda maior requinte ao ambiente.  É um verdadeiro templo do Art Deco brasileiro, um local que — em outra cidade, digamos Miami, nos Estados Unidos  — seria considerado visita obrigatória para turistas locais ou estrageiros.  Até mesmo as cadeiras da Manon completam o estilo, vejam na foto abaixo.

Cadeira da Confeitaria Manon.

Às vezes eu me pergunto: o que os brasileiros veem tanto na arquitetura Art Deco de Miami, quando temos aqui no Rio de Janeiro e certamente em São Paulo, exemplos espetaculares como esse que mostro hoje?  É só porque os americanos valorizam o que têm e nós não?  Pois passemos a valorizar… Eu garanto que há poucos lugares nas grandes cidades do mundo com esse encanto, com essa pureza de estilo.

Chão de mármore na Confeitaria Manon.

Dinheiro não faltou na construção original da Confeitaria Manon.  O detalhe como o chão de mármore de diversas cores, fazendo desenho quadriculado, não é barato hoje, nem foi barato na época.  Essa atenção aos pormenores dá requinte ao ambiente e mesmo hoje, tendo já perdido algo de sua glória, porque o centro da cidade precisa de maior investimento e de renovação, ainda temos, ao entrar no local, a sensação de elegância que o material rico e o bom acabamento sempre trazem.

Painel pintado ao fundo do salão na Confeitaria Manon.

De particular interesse, para mim, foi  o painel pintado com uma cena tropical — arbustos e arara  de encontro ao céu azul — que me lembrou imediatamente de filmes americanos da mesma década, quando retratavam o Rio de Janeiro.  Parece, de fato, algo que apareceria desde Flying down to Rio, [década de 30], aos  filmes estrelados por Carmen Miranda.

Confeitaria Manon.

Hoje a Confeitaria Manon tornou-se um estabelecimento de comida a quilo — um sinal decisivo do empobrecimento do centro da cidade — e as toalhas de linho sobrepostas a outras adamascadas se foram.  Ainda temos toalhas — agradeçamos a Deus pelos pequenos milagres! — mas há uma cobertura muito limpa, muito bem cortada de plástico branco sobre as mesas.  Os garçons também perderam a elegância no servir  e o lustro dos uniformes, particularidades que me lembro serem notadas anos atrás.  Mas a confeitaria sobrevive, com seu estilo de anos 40, impecável.

Mesa de mosaico na sala da frente da Confeitaria Manon.

Na sala da frente, aquela que dá diretamente para a rua, a Confeitaria Manon comemora os seus 70 anos, mostrando com orgulho — como deveria ter mesmo — a data de abertura — 1942 — em mesas de mosaico.  Este sempre foi o local para um café, para um salgadinho, para algo rápido a ser consumido ali mesmo, sem grande fanfarra, e também o local para se comprar doces, salgados, um, dez, vinte, cinquenta para levar para casa.

A minha esperança é que com toda a renovação do centro da cidade, com os eventos que teremos a partir do próximo mês com a Rio + 20,  com a modernização que está chegando ao Rio de Janeiro, que lugares como este possam ainda voltar a  seduzir pelo requinte como um dia o fizeram.  Não é impossível.  Conheço exemplos semelhantes em outras cidades  Nova York, Londres e Madri vêm à mente, onde alguns antigos cafés ou confeitarias voltaram a ter o charme e  a boa clientela que merecem.  Que a gente saiba fazer o mesmo aqui no Rio de Janeiro.

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SERVIÇO:

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http://www.confeitariamanon.com.br/

Rua do Ouvidor, 187, Centro, Rio de Janeiro – RJ

(21) 2221-0245

Seg a Sex, das 7h às 20h30m; Sáb, das 7h às 15horas








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