O verde do meu bairro: Camarão amarelo

16 07 2013

???????????????????????????????Camarão amarelo em jardim na zona sul do Rio de Janeiro.

Passeando pelo meu bairro você não diria que uma das plantas mais usadas na decoração ao longo de grades e muros seria uma planta nativa de outro país.  O Camarão Amarelo [Pachystachys lutea] está tão difundido no paisagismo  carioca que parece brotar voluntariamente.   Mas não é verdade. É original do Perú e leva esse  nome pela aparência de suas flores.   Também é conhecido pelo nome de Planta-camarão e simplesmente de Camarão.

É um arbusto que pode crescer até 150 cm.  Gosta de sol ou de sombra parcial.  Aqui no meu prédio temos alguns pés.  Todos com aparência muito saudável.  Lembrei-me deles hoje porque parece que esta semana foi a semana dedicada à poda.  Ele  tem  folhas lustrosas e alongadas, verde bem escuro.   Assim como os cariocas, o Camarão Amarelo não gosta de frio e aqui onde moro dá flores o ano inteiro.  Suas flores são branquinhas, pequeninas, saindo das brácteas  amarelo ouro.  Este tipo de arbusto atrai beija-flores.  Talvez seja por isso que haja tantos  beija-flores no jardim do meu edifício.





Meio ambiente: aprendendo com os antigos romanos

15 07 2013

??????????Aqueduto romano na Espanha, foto: Superstock

Quem me conhece sabe: das civilizações antigas é a romana que me faz vibrar.  A ingenuidade, a arquitetura, as estradas, o uso comum do espaço urbano, suas esculturas tudo me encanta na Roma antiga.  Mas são suas construções o que mais me causam admiração.  Por isso mesmo, não me passou despercebida a publicação no mês passado do artigo  Roman Seawater Concrete Holds the Secret to Cutting Carbon Emissions [ O concreto romano submarino mostra o segredo da diminuição das emissões de carbono] que li na Science Daily.  Puxa duas paixões conectadas num só artigo?  Eu não podia deixar de ler.

Foi um quebra-mar de concreto romano, que passou os últimos dois mil anos submersos no mar Mediterrâneo, que deu a dica a uma equipe internacional de pesquisadores liderada por Paulo Monteiro, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Analisando as amostras do material de construção desse quebra-mar os cientistas descobriram as razões do concreto romano ser superior ao mais moderno concreto, quando falamos de durabilidade e mais, porque é menos prejudicial ao meio ambiente.

É claro que o concreto usado hoje é bom, é excelente.  Mas sua fabricação polui.  7% do dióxido de carbono colocado no ar vem da fabricação de cimento portland, que é o cimento comum, usado no mundo inteiro, nos nossos dias.  Mas se fazer o cimento portland é necessário aquecer uma mistura de calcário e argilas a 1.450 graus centígrados, liberando carbono no processo de fabricação.  Os romanos, por outro lado, usavam muito menos cal e  com isso podiam produzir o cimento a uma temperatura muito mais baixa —  900 ˚C  ou menos — exigindo muito menos combustível do que o cimento portland.

Os romanos faziam concreto através da mistura de cal e pedra vulcânica. Para estruturas subaquáticas, cal e cinzas vulcânicas foram misturados para formar a argamassa, e esta argamassa e tufos vulcânicos foram embalados em formas de madeira. A água do mar provocou imediatamente uma reação química quente.  A cal hidratada – que incorporou as moléculas de água na sua estrutura – reage com as cinzas, cimentando o conjunto todo com a mistura.

Não só o uso de pedra vulcânica diminui o gás carbônico emitido na produção do cimento, como acaba produzindo cimento que ao invés de durar os 50 anos que o cimento portland dura, pode durar muito mais.  Se hoje fazemos construções que durem 100 a 120 anos, se usássemos pedra vulcânica estaríamos fazendo construções para durarem 1.000 anos.

E a economia de se fazer pontes, edifícios e quaisquer outras estruturas que durem muitos séculos seria imensurável.  Poderíamos muito bem aprender mais uma lição com os antigos romanos.

Para mais detalhes sobre essa descoberta não deixe de ver o artigo inteiro na Science Daily.





Que São Paulo você prefere?

31 05 2013

movimento90grausDo site do Movimento 90º

Que São Paulo você prefere? – é a pergunta instigante que abre o site do Movimento 90º. Esta semana fiquei muito feliz de me familiarizar com este grupo paulista de  arquitetos, paisagistas, engenheiros e voluntários que estão promovendo jardins verticais na cidade de São Paulo.

Como muitos que seguem o blog já sabem, há algum tempo tenho colocado nesse canto, projetos urbanísticos, brasileiros e estrangeiros que advogam cidades mais verdes.  Não é nem só uma questão de estética. É sobretudo uma questão para a nossa sobrevivência nesse planeta.

O Movimento 90º criou um sistema em que módulos leves são instalados em fachadas de edifícios, a 5 cm das empenas cegas,  para receber as plantas.  Estes módulos, que recobrem a parede sem janelas, forma o jardim vertical. [Recentemente essas paredes sem janelas, foram assunto de um excelente filme argentinosobre o amor virtual chamado Medianeras.]

A verticalização do verde nas grandes cidades ainda é mais popular na Europa do que no Brasil, mas precisamos de grupos como o Movimento 90º para difundirmos a idéia e também a estética.

Guil Blanche, diretor-executivo do movimento paulista, começou a desenvolver a técnica dos jardins verticais em 2009.  E perambulando pela cidade, observou que São Paulo poderia ser o lugar perfeito para a popularização desse tipo de intervenção ecológica.

A percepção de espaços vazios, que tecnicamente são chamados de empenas cegas, estas paredes nos prédios que não têm janelas, sempre que eu olhava para aquilo, eu pensava: ‘aí cabe um jardim vertical’“, lembra ele.  “E estas paredes catalizam os problemas da cidade, refletem o barulho, esquentam a cidade. O jardim vertical poderia habitar estes lugares“.

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A instalação é feita por especialistas em andaimes. As plantas são colocadas em módulos impermeáveis, feitos de materiais reciclados – como tubos de pasta de dente e embalagens de leite -, forrados com camadas de um tecido grosso parecido com feltro e presos à parede.

Se o jardim vertical é bem feito, se as plantas são escolhidas por um profissional capacitado, temos uma perda de plantas muito pequena“, afirma João Pedro Chilli David, membro do  conselho executivo do Movimento 90º. “A manutenção, no decorrer do tempo, é a irrigação – que é à pilha ou elétrica, depende da estrutura do prédio – e a fertilização, que pode ser manual. Mas preferimos que seja automatizado, embutido no sistema de irrigação e aí, de três em três meses ou de seis em seis, você abastece o sistema“, acrescentou.

É bom lembrar que os jardins verticais não são só bons para a cidade e para o meio ambiente.  Na verdade o primeiro a ganhar com esses jardins é o morador do próprio prédio, pois estas “paredes verdes”  diminuem o calor absorvido pelo prédio, abafam o barulho das ruas e melhoram a qualidade do ar.  Então gasta-se menos dinheiro com a conta de luz, porque ligamos o ar-condicionado com menor freqüência, dormimos melhor com os sons da rua abafados e ainda respiramos um ar mais puro!

E além dessas vantagens todas, há o valor estético.  Os jardins verticais melhoram a aparência dos prédios.

O Movimento 90º está bastante atarefado.  O grupo já instalou alguns destes jardins em fachadas de uma escola e de lojas adjacentes na rua Augusta, região central de São Paulo.Querem agora levar mais jardins verticais para as paredes de grandes prédios da região central da cidade.

O movimento tem a intenção de transformar a cidade ocupando estas empenas cegas, estas paredes de prédios sem janelas“, disse Guil Blanche.

A iniciativa de usar espaços desocupados de prédios da cidade para criar novas áreas verdes já vem sendo testada de outras maneiras em outros prédios em São Paulo.  Mas eles não estão sozinhos nessa campanha de esverdear a paisagem paulistana.  Há outros que tem se dedicado às plantações nos telhados de edifícios.  No telhado do Shopping Eldorado, por exemplo,  também na zona oeste da cidade, há um ano a administração criou uma horta usando o composto resultante da reciclagem dos restos da praça de alimentação.

Com o uso de um produto criado pelo laboratório mineiro BioIdeias, o processo de transformação dos restos de alimentos em adubo foi acelerado. Na horta já houve uma colheita de alfaces, berinjelas, pimentas e ervas. Atualmente, a plantação ocupa uma área de mil metros quadrados, mas o objetivo é expandir a horta para ocupar todos os 9,8 mil metros quadrados do telhado do shopping.

Você também pode apoiar o Movimento 90º.  Para informações e doações, clique aqui.

FONTE: BBC Brasil





Manhã na roça, texto de Virgílio Várzea

22 02 2013

EDGAR WALTER (1917-1994)Paisagem com casa de fazenda e animais no interior de Minas,ost,65 X 82. Assinado e datado (1969)Paisagem com casa de fazenda e animais, interior de MG, 1969

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

Manhã na Roça

Virgílio Várzea

Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ovo flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal. Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas. Abrem-se as casas. Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa de canjirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça  no ar frígido, ruminam ainda restos de grama numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo burr e sacodindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.  Um carro atopetado de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, em direção ao engenho, solavancado pela aspereza do  caminho… E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.

 

[Exemplo de vistas movimentadas]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), páginas 59-60.

virgilio varzea1

Virgílio dos Reis Várzea (Brasil,1863 – 1941) escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu em Florianópolis, mas radicou-se no Rio de Janeiro a partir de 1896.  A maioria de suas obras é ambientada em Santa Catarina.  Com Cruz e Sousa publicou o livro Tropos e Fantasias (1885).

Obras:

Traços Azuis, 1884

Tropos e Fantasias,1885, com Cruz e Sousa

Mares e Campos, 1895

Rose Castle, 1895

Santa Catarina: A Ilha, 1900

George Marcial, 1901

O Brigue Flibusteiro, 1904

Nas Ondas





As Florestas texto de Afonso Celso

9 02 2013

ANDERSON CONDE - manhã com neblina,2008, ost, 60x80.andersoncondecombrManhã com neblina, 2008

Anderson Conde (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

www.andersonconde.com.br

As Florestas

Afonso Celso

Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha; circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.

Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa do que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta terra.

Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis. O sol doura simplesmente o cimo das árvores. Não penetra através das grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou  o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras, avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às coisas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.

Todos os sentidos aí ficam extasiados. Gozam todos os nossos sentidos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de pintura e, sobretudo, de divina poesia.

Em: Criança brasileira: quinto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949.

AAA

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso, (Brasil, MG, 1860 — RJ, 1938) professor, poeta, historiador e político brasileiro. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 36.

Obras (lista parcial)

Prelúdios –  poesias, publicado aos quinze anos de idade (1876)

Devaneios (1877)

Telas sonantes (1879)

Um ponto de interrogação (1879)

Poenatos (1880)

Rimas de outrora (1891)

Vultos e fatos (1892)

O imperador no exílio (1893)

Minha filha (1893)

Lupe (1894)

Giovanina (1896)

Guerrilhas (1896)

Contraditas monárquicas (1896)

Poesias escolhidas (1898)

Oito anos de parlamento (1898)

Trovas de Espanha (1899)

Aventuras de Manuel João (1899)

Por que me ufano de meu país (1900)

Um invejado (1900)

Da imitação de Cristo (1903)

Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905)

Lampejos Sacros (1915)

O assassinato do coronel Gentil de Castro (1928)

Segredo conjugal (1932)





O trigo, texto de Coelho Neto

11 12 2012

Armando Romanelli,Trigal, 1989, OST40 x 50

Trigal, 1989

Armando Romanelli (Brasil, 1945)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

O trigo

Coelho Neto

Por todo o vasto Éden espalhou-se, maravilhado e risonho, o olhar do primeiro homem.

Viu as florestas frondosas, em cujas franças rendilhadas esgarçava-se o nevoeiro da manhã; viu as campinas alegres pelas quais numerosos rebanhos se apraziam; viu os montes de encostas de veludo; viu os rios claros, largos, retorcidos em meandros, discorrendo por entre as margens de ervaçais floridos e acenoso arvoredo; viu as fontes borbulhando em bosques aceitosos.

Animais de várias espécies cruzavam-se pelos caminhos – leões de juba altiva, elefantes monstruosos, antílopes e corsas, leopardos e gazelas e aves de plumagem branca ou de penas variegadas junto a ribeiras tranqüilas, vogando em ínsula de flores, pousadas em ramos ou atravessando os ares, alegrando com o seu concerto o silêncio grandioso.

Os frutos ofertavam-se nos galhos, as flores desfaziam-se das pétalas recamando a alfombra e esparzindo o aroma dos ares.

O home, ainda incerto, ia e vinha, ora parando à beira das águas que o refletiam, ora chegando à ourela dos bosques, saindo às várzeas, mudo, em êxtase contemplativo.

Deus, que de longe o assistia com o seu olhar, achava-o perfeito, airoso e forte, digno de ser o senhor do mundo e de todas as criaturas.

O sol ardia estivo e, de toda terra exuberante, exalava-se um hausto cálido, uma respiração abrasada que amolecia e adormentava.

As folhagens encolhiam-se, murchando; as flores pendiam lânguidas nos caules; os animais refugiavam-se nos bosques ou penetravam as furnas tenebrosas; as próprias águas desciam lentas, com preguiça, sob a irradiação cáustica da luz que refulgia tremulamente no azul diáfano.

Deus errou em passos lentos pelas silenciosas veredas e toda pedra que seus pés tocavam fazia-se luminosa, com rebrilhos faiscantes e cores admiráveis.  Era aqui um seixo que se ensangüentava em rubi, ali um calhão esverdeando-se em esmeralda, outro tomava um colorido flavo ou roxo e, mirificamente, iam-se todos transformando e adquirindo cor, desde o tom lácteo da opala até o esplendor cerúleo da ametista, desde o límpido fulgir do diamante ao lampejo solar dos prazios amarelos. As areias faziam-se de ouro, rutilando, como haviam ficado mo leito do córrego em que o Senhor, depois de haver plasmado o homem com o barro sanguíneo, lavou e refrescou as mãos benéficas.

Foi-se o Criador encaminhando a um campo que ondulava e sussurrava às aragens e que era um trigal.

Nele entrando, sem que as pombas e as calhandras se assustassem, a frescura convidou-o ao repouso.

Deitou-se e os trigos fecharam-se suavemente formando um ninho aromal e sombrio onde o sono foi agradável.

Já as roxas nuvens anunciavam o crepúsculo quando, ao suave prelúdio dos rouxinóis, abriram-se os olhos divinos. Deus, que gozara a delícia do sono, ergueu-se. Então, mansamente, uma voz meiga elevou-se no campo louro.

— Senhor, que vos não pareça de vaidoso a minha requesta, não é por orgulho que vos falo, senão porque me sinto por demais miserando na grandeza de vossa criação. Fizestes a árvore sobranceira dando-lhe o tronco, dando-lhe os ramos, vestindo-as de folhas, cobrindo-a  de flores e ainda a carregais de frutos; as suas frondes altas topetam com as nuvens. Aos que não destes grandeza e força, ornaste com a raça mimosa da flor; só eu, pobre de mim! Fui esquecido por vós. Quando vos vi chegar para mim tive vexame de receber-vos, tão pobre sou! Trigo mísero.

Era o trigo que assim falava.

Parou o Senhor a escutá-lo e, compadecido das suas palavras, estendeu a mão abençoando-o:

Agasalhaste o meu sono com a pobreza, trigo tenro e frágil, deste-me generoso abrigo e resguardaste-me do sol. Não fique memória na terra de uma ingratidão d’Aquele que mais a detesta e, para que o exemplo sirva e aproveite, abençôo-te e amerceio-te com a força e com a Graça.

Fraco, darás o alimento essencial; mísero, encerrarás em ti o mistério divino. Será o pão e serás a hóstia e assim, com a tua franqueza, suplantarás a árvore mais vigorosa e com a tua humildade serás maior que o sol.

No teu seio desabrocharão as papoulas e, dentro em pouco, a flor virá anunciar-te a espiga e a espiga dará a farinha branca, que será força nos homens e sacrário da minha essência. Assim Deus, engrandecendo-os, responde à esmola dos pequeninos.

Disse, e, contente, mais com o que fizera ao trigo do que com a criação de todo o universo maravilhoso, ao clarear da lua, quando os rouxinóis cantavam, remontou ao céu entre os anjos que foram, em coros, pelos ares claros, apregoando a sua onipotência e a sua misericórdia.

Em: Coelho Neto e a ecologia no Brasil, 1898-1928, org. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002





O verde do meu bairro: Extremosa, ou Resedá

11 11 2012

Há algumas extremosas no meu bairro.  Sei que elas são muitas vezes vistas com desagrado, quase como uma praga, porque foram usadas para a arborização em muitas cidades brasileiras, em ruas movimentadas, em detrimento de outras espécies.  Nessa escolha importaram as qualidades: beleza, baixa altura, raízes que não destroem as calçadas e resistência.  A extremosa ou resedá não é nativa do Brasil e  pode criar problemas para muitas das árvores nativas de maior porte.  Talvez seja por isso, que nos EUA, nos estados  onde morei – Maryland, Virginia, Washington DC e Carolina do Norte–  elas são usadas em grande escala só nos canteiros do meio das estradas,  embelezando, delimitando e, por causa de sua baixa estatura, ajudando a bloquear a luz de caminhões vindos no sentido contrário.  Também são usadas nas beira de estradas, com uma boa separação de grama entre elas e a vegetação nativa.  Podemos ver na foto abaixo, um exemplo de como são usadas. Claro que muitas pessoas plantam resedás em seu jardim, mas simplesmente como um foco de cor para o verão, uma única árvore, onde podem ser vigilantes quanto às pragas.

Por que elas são olhadas com desconfiança?  Sua praticidade – fácil reprodução, manutenção e raízes que não prejudicam calçadas – levou muitos municípios brasileiros a plantarem quase que exclusivamente as extremosas em suas vias públicas.  Isso não só leva à possibilidade de monocultura, como pode afetar as árvores nativas porque o resedá é suscetível ao abrigo de pragas, como erva de passarinho, que vivem da habilidade de extrair seus nutrientes das árvores em que se instalam.  Seu uso tem sido desencorajado.  Mas mesmo assim, é um belo respingo de cor na paisagem, que, aqui no Rio de Janeiro, atravessa duas estações: primavera, verão.

Natural da Índia e da China, os primeiros pés de extremosa foram trazidos para os EUA ainda no século XVIII, mais precisamente em 1790, pelo botânico francês André Michaux (1746-1802), autor entre outros das obras: Histoire des chênes de l’Amérique, 1801 [História dos carvalhos da América] e Flora Boreali-Americana, 1803 [Flora da América do Norte].

A extremosa (Lagerstroemia indica) recebe diversos nomes no Brasil: Resedá, Suspiros, Julieta, Árvore-de-júpiter, Flor-de-merenda, Mumiquilho.  Caiu no gosto popular por causa de sua função decorativa.  Tem flores  em forma de espigas.  Dependendo da região onde é plantada floresce no verão ou no verão e na primavera (como é o caso aqui no Rio de Janeiro, onde a primavera é quente).  Suas flores podem ser de três cores: branca, rosa ou vermelha.  Deve ser podada durante o inverno e as flores aparecerão na ponta dos ramos que foram podados.   Suas folhas são elípticas alongadas.  Nas regiões frias a árvore perde todas as folhas no inverno.  Chega aos 6 metros de altura.

Para maiores informações:

Meu cantinho








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