Manhã na roça, texto de Virgílio Várzea

22 02 2013

EDGAR WALTER (1917-1994)Paisagem com casa de fazenda e animais no interior de Minas,ost,65 X 82. Assinado e datado (1969)Paisagem com casa de fazenda e animais, interior de MG, 1969

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

Manhã na Roça

Virgílio Várzea

Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ovo flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal. Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas. Abrem-se as casas. Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa de canjirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça  no ar frígido, ruminam ainda restos de grama numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo burr e sacodindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.  Um carro atopetado de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, em direção ao engenho, solavancado pela aspereza do  caminho… E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.

 

[Exemplo de vistas movimentadas]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), páginas 59-60.

virgilio varzea1

Virgílio dos Reis Várzea (Brasil,1863 – 1941) escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu em Florianópolis, mas radicou-se no Rio de Janeiro a partir de 1896.  A maioria de suas obras é ambientada em Santa Catarina.  Com Cruz e Sousa publicou o livro Tropos e Fantasias (1885).

Obras:

Traços Azuis, 1884

Tropos e Fantasias,1885, com Cruz e Sousa

Mares e Campos, 1895

Rose Castle, 1895

Santa Catarina: A Ilha, 1900

George Marcial, 1901

O Brigue Flibusteiro, 1904

Nas Ondas





As Florestas texto de Afonso Celso

9 02 2013

ANDERSON CONDE - manhã com neblina,2008, ost, 60x80.andersoncondecombrManhã com neblina, 2008

Anderson Conde (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

www.andersonconde.com.br

As Florestas

Afonso Celso

Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha; circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.

Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa do que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta terra.

Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis. O sol doura simplesmente o cimo das árvores. Não penetra através das grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou  o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras, avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às coisas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.

Todos os sentidos aí ficam extasiados. Gozam todos os nossos sentidos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de pintura e, sobretudo, de divina poesia.

Em: Criança brasileira: quinto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949.

AAA

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, titulado Conde de Afonso Celso pela Santa Sé, mais conhecido como Afonso Celso, (Brasil, MG, 1860 — RJ, 1938) professor, poeta, historiador e político brasileiro. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 36.

Obras (lista parcial)

Prelúdios –  poesias, publicado aos quinze anos de idade (1876)

Devaneios (1877)

Telas sonantes (1879)

Um ponto de interrogação (1879)

Poenatos (1880)

Rimas de outrora (1891)

Vultos e fatos (1892)

O imperador no exílio (1893)

Minha filha (1893)

Lupe (1894)

Giovanina (1896)

Guerrilhas (1896)

Contraditas monárquicas (1896)

Poesias escolhidas (1898)

Oito anos de parlamento (1898)

Trovas de Espanha (1899)

Aventuras de Manuel João (1899)

Por que me ufano de meu país (1900)

Um invejado (1900)

Da imitação de Cristo (1903)

Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905)

Lampejos Sacros (1915)

O assassinato do coronel Gentil de Castro (1928)

Segredo conjugal (1932)





O trigo, texto de Coelho Neto

11 12 2012

Armando Romanelli,Trigal, 1989, OST40 x 50

Trigal, 1989

Armando Romanelli (Brasil, 1945)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

O trigo

Coelho Neto

Por todo o vasto Éden espalhou-se, maravilhado e risonho, o olhar do primeiro homem.

Viu as florestas frondosas, em cujas franças rendilhadas esgarçava-se o nevoeiro da manhã; viu as campinas alegres pelas quais numerosos rebanhos se apraziam; viu os montes de encostas de veludo; viu os rios claros, largos, retorcidos em meandros, discorrendo por entre as margens de ervaçais floridos e acenoso arvoredo; viu as fontes borbulhando em bosques aceitosos.

Animais de várias espécies cruzavam-se pelos caminhos – leões de juba altiva, elefantes monstruosos, antílopes e corsas, leopardos e gazelas e aves de plumagem branca ou de penas variegadas junto a ribeiras tranqüilas, vogando em ínsula de flores, pousadas em ramos ou atravessando os ares, alegrando com o seu concerto o silêncio grandioso.

Os frutos ofertavam-se nos galhos, as flores desfaziam-se das pétalas recamando a alfombra e esparzindo o aroma dos ares.

O home, ainda incerto, ia e vinha, ora parando à beira das águas que o refletiam, ora chegando à ourela dos bosques, saindo às várzeas, mudo, em êxtase contemplativo.

Deus, que de longe o assistia com o seu olhar, achava-o perfeito, airoso e forte, digno de ser o senhor do mundo e de todas as criaturas.

O sol ardia estivo e, de toda terra exuberante, exalava-se um hausto cálido, uma respiração abrasada que amolecia e adormentava.

As folhagens encolhiam-se, murchando; as flores pendiam lânguidas nos caules; os animais refugiavam-se nos bosques ou penetravam as furnas tenebrosas; as próprias águas desciam lentas, com preguiça, sob a irradiação cáustica da luz que refulgia tremulamente no azul diáfano.

Deus errou em passos lentos pelas silenciosas veredas e toda pedra que seus pés tocavam fazia-se luminosa, com rebrilhos faiscantes e cores admiráveis.  Era aqui um seixo que se ensangüentava em rubi, ali um calhão esverdeando-se em esmeralda, outro tomava um colorido flavo ou roxo e, mirificamente, iam-se todos transformando e adquirindo cor, desde o tom lácteo da opala até o esplendor cerúleo da ametista, desde o límpido fulgir do diamante ao lampejo solar dos prazios amarelos. As areias faziam-se de ouro, rutilando, como haviam ficado mo leito do córrego em que o Senhor, depois de haver plasmado o homem com o barro sanguíneo, lavou e refrescou as mãos benéficas.

Foi-se o Criador encaminhando a um campo que ondulava e sussurrava às aragens e que era um trigal.

Nele entrando, sem que as pombas e as calhandras se assustassem, a frescura convidou-o ao repouso.

Deitou-se e os trigos fecharam-se suavemente formando um ninho aromal e sombrio onde o sono foi agradável.

Já as roxas nuvens anunciavam o crepúsculo quando, ao suave prelúdio dos rouxinóis, abriram-se os olhos divinos. Deus, que gozara a delícia do sono, ergueu-se. Então, mansamente, uma voz meiga elevou-se no campo louro.

— Senhor, que vos não pareça de vaidoso a minha requesta, não é por orgulho que vos falo, senão porque me sinto por demais miserando na grandeza de vossa criação. Fizestes a árvore sobranceira dando-lhe o tronco, dando-lhe os ramos, vestindo-as de folhas, cobrindo-a  de flores e ainda a carregais de frutos; as suas frondes altas topetam com as nuvens. Aos que não destes grandeza e força, ornaste com a raça mimosa da flor; só eu, pobre de mim! Fui esquecido por vós. Quando vos vi chegar para mim tive vexame de receber-vos, tão pobre sou! Trigo mísero.

Era o trigo que assim falava.

Parou o Senhor a escutá-lo e, compadecido das suas palavras, estendeu a mão abençoando-o:

Agasalhaste o meu sono com a pobreza, trigo tenro e frágil, deste-me generoso abrigo e resguardaste-me do sol. Não fique memória na terra de uma ingratidão d’Aquele que mais a detesta e, para que o exemplo sirva e aproveite, abençôo-te e amerceio-te com a força e com a Graça.

Fraco, darás o alimento essencial; mísero, encerrarás em ti o mistério divino. Será o pão e serás a hóstia e assim, com a tua franqueza, suplantarás a árvore mais vigorosa e com a tua humildade serás maior que o sol.

No teu seio desabrocharão as papoulas e, dentro em pouco, a flor virá anunciar-te a espiga e a espiga dará a farinha branca, que será força nos homens e sacrário da minha essência. Assim Deus, engrandecendo-os, responde à esmola dos pequeninos.

Disse, e, contente, mais com o que fizera ao trigo do que com a criação de todo o universo maravilhoso, ao clarear da lua, quando os rouxinóis cantavam, remontou ao céu entre os anjos que foram, em coros, pelos ares claros, apregoando a sua onipotência e a sua misericórdia.

Em: Coelho Neto e a ecologia no Brasil, 1898-1928, org. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002





O verde do meu bairro: Extremosa, ou Resedá

11 11 2012

Há algumas extremosas no meu bairro.  Sei que elas são muitas vezes vistas com desagrado, quase como uma praga, porque foram usadas para a arborização em muitas cidades brasileiras, em ruas movimentadas, em detrimento de outras espécies.  Nessa escolha importaram as qualidades: beleza, baixa altura, raízes que não destroem as calçadas e resistência.  A extremosa ou resedá não é nativa do Brasil e  pode criar problemas para muitas das árvores nativas de maior porte.  Talvez seja por isso, que nos EUA, nos estados  onde morei – Maryland, Virginia, Washington DC e Carolina do Norte–  elas são usadas em grande escala só nos canteiros do meio das estradas,  embelezando, delimitando e, por causa de sua baixa estatura, ajudando a bloquear a luz de caminhões vindos no sentido contrário.  Também são usadas nas beira de estradas, com uma boa separação de grama entre elas e a vegetação nativa.  Podemos ver na foto abaixo, um exemplo de como são usadas. Claro que muitas pessoas plantam resedás em seu jardim, mas simplesmente como um foco de cor para o verão, uma única árvore, onde podem ser vigilantes quanto às pragas.

Por que elas são olhadas com desconfiança?  Sua praticidade – fácil reprodução, manutenção e raízes que não prejudicam calçadas – levou muitos municípios brasileiros a plantarem quase que exclusivamente as extremosas em suas vias públicas.  Isso não só leva à possibilidade de monocultura, como pode afetar as árvores nativas porque o resedá é suscetível ao abrigo de pragas, como erva de passarinho, que vivem da habilidade de extrair seus nutrientes das árvores em que se instalam.  Seu uso tem sido desencorajado.  Mas mesmo assim, é um belo respingo de cor na paisagem, que, aqui no Rio de Janeiro, atravessa duas estações: primavera, verão.

Natural da Índia e da China, os primeiros pés de extremosa foram trazidos para os EUA ainda no século XVIII, mais precisamente em 1790, pelo botânico francês André Michaux (1746-1802), autor entre outros das obras: Histoire des chênes de l’Amérique, 1801 [História dos carvalhos da América] e Flora Boreali-Americana, 1803 [Flora da América do Norte].

A extremosa (Lagerstroemia indica) recebe diversos nomes no Brasil: Resedá, Suspiros, Julieta, Árvore-de-júpiter, Flor-de-merenda, Mumiquilho.  Caiu no gosto popular por causa de sua função decorativa.  Tem flores  em forma de espigas.  Dependendo da região onde é plantada floresce no verão ou no verão e na primavera (como é o caso aqui no Rio de Janeiro, onde a primavera é quente).  Suas flores podem ser de três cores: branca, rosa ou vermelha.  Deve ser podada durante o inverno e as flores aparecerão na ponta dos ramos que foram podados.   Suas folhas são elípticas alongadas.  Nas regiões frias a árvore perde todas as folhas no inverno.  Chega aos 6 metros de altura.

Para maiores informações:

Meu cantinho





Boas novas: Corujas Caburé-acanelado (Aegolius harrissii) descobertas em SP

1 11 2012

Um casal de corujas  caburé- acanelado, coruja rara de peito amarelado, — como esta da fotografia acima — foi registrado e monitorado por pesquisadores em duas fazendas da empresa Duratex, no município de Lençóis Paulista, no centro-oeste do Estado de São Paulo. As aves iniciavam o ciclo reprodutivo quando foram avistadas, no final de 2011. A espécie não era conhecida na região, segundo o pesquisador Flávio Ubaid, especialista em aves do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. “Os registros mais próximos estão a mais de 150 km. Também realizamos novos registros na região de Franca e no sudoeste de Minas Gerais”, explicou.

Ele acredita que o registro preenche uma lacuna considerável na área de ocorrência do caburé. O achado levou Ubaid a publicar, em parceria com os pesquisadores Fábio Maffei, Guilherme Moya e Reginaldo Donatelli, artigo na revista The Bulletin of the British Ornithologists Club, conceituada publicação inglesa de ornitologia.

Caburé-acanelado é o nome popular da espécie Aegolius harrisii, uma ave de rapina da família dos estrigídeos, a mesma das corujas. A ave mede 20 cm de comprimento e habita bordas de matas. Embora existam diversos registros de sua presença em vários locais do Brasil, os hábitos dessa espécie são pouco conhecidos. Os pesquisadores vão retomar as observações ao casal na primeira semana de novembro, quando as aves reiniciam o ciclo de reprodução.

TERRA





Gorilas de volta ao habitat natural

25 10 2012

Pela primeira vez, uma família inteira de gorilas irá retornar ao seu habitat natural. O grupo de onze membros da espécie gorila ocidental das terras baixas, que está em um zoológico no condado de Kent, na Inglaterra, irá para uma reserva natural, no Gabão. A família inclui um macho de 30 anos, de aproximadamente 100 quilos, que havia sido salvo das mãos de caçadores ilegais, cinco fêmeas e cinco filhotes de idades que variam de 6 anos a 8 meses, que foram criados em cativeiro.

Cinquenta e um primatas já foram soltos na selva individualmente em áreas seguras de proteção animal, no período de 1996 e 2006,  pela mesma instituição —  The Aspinall Foundation.  Esses animais foram soltos depois de viver em cativeiro, mas nunca isso foi tentado com um grupo tão grande quanto esse.  A fundação Aspinall  atua no Gabão e no Congo, países onde os gorilas foram caçados até sua extinção. Ela irá fornecer medicamentos e comida extra para ajudar na adaptação deles.

Na selva, este grupo será nômade e se movimentará pela floresta em busca de comida, provavelmente a cada dois dias. A família deve ser liberada em janeiro de 2013.

Damian Aspinall, que criou a fundação, disse que a única justificativa para se manter animais em cativeiro no século XXI seria para participar de programas de reprodução de espécies em perigo de extinção para depois reintroduzí-las à vida selvagem.  A Fundação Aspinall já cruzou 135 gorilas, 33 rinocerontes negros, 123 leopardos, 33 gibões de Java, 104 macacos langures de Java e 20 elefantes africanos nos seus programas de acasalamento em cativeiro.

FONTE: Terra e Heart





Pensando o espaço urbano verde: Hotel Kandalama

12 07 2012

Hotel Kandalama, em Sri Lanka (antigo Ceilão em português).

Projetado pelo mais famoso arquiteto do país, Geoffrey Bawa, o edifício representou na época em que foi  construído, 1991-1994, sua maneira de balancear o mundo natural com a interferência humana de maneira harmoniosa, com grande sensibilidade.   O hotel não se distingue da natureza que o cerca.  Com paisagismo de Aitken Spende, o hotel consegue dar a impressão ao visitante que o edifício simplesmente é coberto pela extensão da vegetação à sua volta, sem ser ofuscado pela pedra Sigiriya Rock.  Ao contrário, o prédio  foi construído um pouco mais longe, abraçando a parte mais baixa de um morro, aos pés do qual é construído, como se fosse sua própria continuação.

Vista do Hotel Kandalama, do térreo.

Vista dos caminhos e das trepadeiras.

A entrada do hotel fica num nível mais abaixo do que a construção propriamente dita.  E acesso ao edifício é feito através de um corredor que leva até o saguão principal.  A ideia por trás de toda a construção é oferecer uma varanda para a natureza que o cerca e não chamar atenção para a construção propriamente dita.

Vista do interior para fora.

O arquiteto convenceu seu cliente a escolher um local alternativo, cerca de 15 km ao sul do plano original sobre terreno rochoso. O que Geoffrey Bawa conseguiu prever: as características marcantes naturais, que eram um desafio do projeto acabaram por permitir que houvesse um menor impacto da construção no local.  Nenhuma máquina de terraplenagem foi utilizada, e as formações rochosas foram mantidas e utilizadas como  um elemento importante no projeto final.

Caminhos do Hotel Kandalama, com uso de pedra natural como elemento arquitetônico.

Outros elementos importantes do projeto incluem a sua localização, ao longo dos cumes existentes, de passarelas externas ao longo da face do penhasco e treliças de madeira com vegetação trepadeira. Esses elementos ajudam a emendar o edifício ao local, criando uma relação simbiótica de seu entorno com o prédio.  Desta maneira ele apaga a distinção entre o natural e o artificial. A localização, a ambiguidade espacial e articulação da fachada combinam para criar uma experiência única para quem ali se instala.

Os 28.110 m² de hotel foram construídos sobre palafitas para manter o fluxo de água da chuva natural.  O paisagismo foi restaurado até os alicerces da coluna, e 80 por cento dos telhados são plantados com horticultura indígena. O edifício foi planejado ao longo de um pano de fundo de uma formação de rocha para fornecer maior grau de resfriamento passivo, o que reduziu a carga de resfriamento global.

Toda a água é reciclada e reutilizada.  Ela vem de poços profundos do próprio local e é tratada, antes de circular no edifício. Depois passa por duas estações de tratamento e, em seguida, utilizada para o paisagismo. A água excedente é devolvida ao aquífero.  Todas as necessidades de água e esgoto do edifício são satisfeitas a partir de recursos locais, sem conexões com o serviço público.

Os telhados planos (inclinação de 1%) e as colunas verticais finas, combinadas com os telhados verdes e fachadas, dão sensação de autossuficiência e conforto para os visitantes.

A proximidade a um edifício que interfira pouco no meio ambiente em que está localizado ainda é mais acentuada pelo uso das árvore Gliricidia sepium nativas do local, de tamanho médio, chegam a  10 -12 metros de altura.  Elas produzem flores entre o rosa e o lilás dando cor a paisagem na época de inflorescência.





Romance das matas no Rio de Janeiro, poema de Celina Ferreira

11 07 2012

Morro do Borel, Rio de Janeiro, 1971

Armando Vianna ( Brasil, 1897-1992)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Romance das matas no Rio de Janeiro

Celina Ferreira

Navios vão-se atracando,

chegam noturnos mineiros,

andarilhos vêm andando

e em cavalos, cavaleiros

trocando o sul e os cavalos,

as colheitas e o dinheiro

por uma braça de um rio

de inexistente janeiro.

As casas vertiniginosas

na floresta de cimento

sobem doidas, caprichosas,

arranhando o firmamento.

As ruas crescem, comprimem

o corpo azul do gigante

que se levanta irrascível,

touro raivoso e espumante.

Medrosos troncos se abraçam

na floresta verdadeira.

Cipós covardes se enlaçam

pelo corpo das palmeiras.

Tudo debalde. O homem lança

um olhar de certeira flecha,

dardo de fogo que alcança

o coração da floresta.

Ai soluço ressequido,

pranto escuro de carvão!

Ai fundo e negro suspiro

que se eleva na amplidão!

Línguas de um fogo faminto

estralam gula e paixão.

Ai! Das matas sobe um grito,

descem lavas de um vulcão.

Os homens plantam sementes

de fogo e míseras casas,

crivam duros alfinetes

na renda verde das matas.

Nas grimpas nuas, as chagas,

ontem, rubras de clarão,

hoje são tendas plantadas

entre reboco e carvão.

E a miséria fecundada

no gineceu das taperas

rebenta nas densas matas

uma estranha primavera.

Em: Poesia Cúmplice, Celina Ferreira, Rio de Janeiro, Livraria São José Ed.: 1959

Celina Ferreira — nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1928. Jornalista, dedicou-se também à literatura infantil.

Obras:

A princesa Flor-de-Lótus , 1958

Papagaio gaio: poeminhas, 1998

Obra poética:

Poesia de ninguém, 1954

Poesia cúmplice, 1959

Hoje poemas, 1967

Espelho convexo, 1973





Pensando o espaço urbano verde: o ACROS em Fukuoka, no Japão

26 06 2012

O edifício Acros Fukuoka.

Um dos edifícios mais interessantes visualmente que integram o verde com arquitetura está no Japão na cidade de Fukuoka.  É o edifício ACROS, mais comumente chamado de Acros-Fukuoka, construído em 1994.  Ele é um oásis, de aproximadamente 5.400 m², construído pelo homem na forma de meio-zigurate.  Tem terraços enormes em que foram plantadas incialmente mais de 35.000 plantas de 76 espécies  — e que hoje incluem 50.000 plantas de 120 variedades — que parecem cascatear dos 60 m de altura do edifício até encontrar o parque ao nível térreo. Visualmente unidos pela vegetação, esses terraços  dão continuidade ao parque como se fossem uma elevação natural.  Isso porque no lugar de vegetação rasteira, comum no paisagismo combinado à arquitetura, os terraços têm árvores, arbustos, plantas de diversas alturas,  que acentuam a percepção de uma composição mais natural à medida que o jardim cresce morro acima.

Vista aérea do edifício ACROS-Fukuoka e seu parque.

O edifício tem duas fachadas diferentes.  Do lado norte,  ele é semelhante a outros edifícios comerciais para escritórios.  Tem uma longa e alta fachada de vidro e uma entrada elegante,  como caberia a uma construção desse porte, na rua de maior prestígio no setor financeiro da cidade.  Do outro  lado e escondido de quem vem pela rua, o edifício  se abre para um paraíso verde com jardins suspensos.  Cada andar pode desfrutar de vista com densos jardins, repletos árvores e plantas que dão flores em diferentes épocas do ano:  uma natureza em festa.   O edifício permite, dessa maneira, que se desfrute das quatro estações, em qualquer andar, mesmo que se trabalhe em um escritório.

Vista lateral do Acros-Fukuoka, com lateral do canal para o porto.

Projetado pela firma do arquiteto argentino Emilio Ambasz and Associates, Inc. o edifício incorporou, ao lado sul, sem que isso tivesse sido requisitado, o parque Tenjin [ Tenjin Central Park] no terreno ao lado, preservando o único espaço verde, público, remanescente na cidade de Fukuoka.  Com terraços que vão até o topo do edifício, culminando num belvedere de onde se pode observar o porto e a cidade, a construção leva em consideração além do bem-estar de quem ali trabalha, aspectos de conservação do meio ambiente, através de seus telhados verdes – em cada andar – que reduzem o consumo de energia porque mantêm a temperatura do interior do prédio mais constante e confortável.  Esses telhados também captam água da chuva e servem de habitação para centenas de espécies de insetos, pássaros e outros pequenos animais.  Os jardins também são utilizados para lazer, exercícios físicos, meditação, além de  descortinar uma bela vista do porto de Fukuola e terras adjacentes. O paisagismo dessa construção ficou a cargo do engenheiro Nihon Sekkei Takenaka Corporation.

Vista do alto de uma das plataformas do jardim do edifício Acros-Fukuoka.

O lado sul também é o que exibe uma curiosa fachada: um plano inclinado de jardins em terraços que é quebrado no meio por uma torre de vidro gigantesca.  Isso não só traz à fachada uma dimensão escultórica como serve plenamente para trazer interesse aos espaços exterior e interior do edifício. a coluna de vidro permite que a luz difusa do dia penetre nos quatorze andares do edifíco trazendo ainda maior bem-estar aqueles que trabalham lá.

Vista lateral dos andares superiores, lado sul.

São 97.252 m² de espaço funcional nesse edifício.  Neles estão incluídos uma sala de exposição, um museu, um teatro para 2.000 pessoas, instalações para conferências, escritórios do governo e particulares, e diversos níveis de estacionamento subterrâneo além de lojas.  A estrutura de aço e concreto armado é composta de 14 andares acima do nível térreo e 4 andares abaixo da terra.

Vista do espaço interior do Acros-Fukuoka.

O exterior do edifício é sem dúvida impressionante, mas o espaço interior também é muito bem desenvolvido: um grande átrio semicircular e um saguão com pórtico triangular criam uma espaçosa entrada que desliza para a vegetação no lado de fora.

Interior do Acros-Fukuoka.

O cuidado com o bem-estar de quem ali trabalha também pode ser observado na construção de espelhos d’água nos terraços.  Conectados por pulverização ascendente de jatos de água, eles criam uma falsa cachoeira, que disfarça o ruído da cidade. Estas piscinas ficam acima do átrio de vidro no interior do edifício central, trazendo luz difusa para o interior.

Vista dos caminhos no jardim do Acros-Fukuoka.

Vista do edifício Acros-Fukuoka do lado oposto ao jardim.

Entrada pelo jardim.

Vista para o teto do saguão no térreo.

Vista vol d’oiseau.





Pensando o espaço urbano verde: escola de design arte e mídia em Cingapura

21 06 2012

Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Um dos telhados verdes mais impressionantes é o da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.  O edifício com uma forma orgânica não deixa que se perceba a altura de cinco andares do edifício.  A vegetação se mistura à paisagem.  Natureza e alta tecnologia se encontram para solucionar de maneira criativa o impacto do edifício na área à sua volta.

Outro ângulo do edifício da Escola de Design, Arte e Mídia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Não parece haver uma separação distinta entre o jardim e o edifício: formas e espaços são fluidos, e o jardim parece abraçar o imóvel, cuja fachada é inteiramente de vidro.  Esse telhado de vegetação permite temperaturas mais estáveis, tanto no inverno quanto no verão, evitando os extremos. A luz é abundante vindo através das  paredes de vidro que dão para a praça interna.  Dentro das salas ela é difusa e filtrada através da folhagem no entorno do prédio.

As paredes de vidro proporcionam uma troca visual entre o espaço interior e o exterior permitindo que os usuários experimentem simultaneamente o edifício, a paisagem à sua volta e a praça interior como espaços fluidos.

Vista da praça interior do edifício.

Os telhados verdes fazem as curvas do edifício se sobressaírem.   Além de estabilizarem a temperatura: isolando o edifício, resfriando o ar à sua volta e colhendo chuva para a irrigação dos jardins, eles servem também como espaços de encontro informais.

Os acabamentos são intencionalmente despojados para atuar como um pano de fundo para a arte, mídia e projetos de design. Paredes de concreto e colunas, cimento, areia, pisos, grades de madeira, tudo numa paleta neutra que ajuda a definir os espaços interiores que variam em forma e tamanho.

Tradução e adaptação do artigo em INHABITAT.








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